A Turquia, seu papel na Otan e a iminente queda de Kobani

Atitude de Ancara diante do cerco imposto pelo EI abre espaço para questionamentos

BERNARD , HENRI-LEVY, GLOBAL VIEWPOINT , O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2014 | 02h03

Kobani cairá. Em questão de horas ou de dias, talvez. Mas a cidade síria perto da fronteira com a Turquia cairá. Uma vítima da cínica opinião do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que, ao se recusar a agir e deixar seu poderoso Exército estacionado ao longo da fronteira com a Síria a poucos quilômetros apenas da martirizada cidade, parece ter preferido o Estado Islâmico (EI) aos curdos.

Kobani será uma vítima do jogo duplo da Turquia que, após ter deixado passar qualquer jihadista para a região e fechado os olhos para o armamento pesado que despachantes do EI enviavam durante semanas à cidade sitiada - que agora está sendo usado para bombardeá-la -, fecha tudo, bloqueia tudo. Ancara se faz de inocente enquanto paralisa não só suas próprias tropas, mas também os 10 mil voluntários curdos que se ofereceram na Turquia para tentar salvar Kobani.

O milagre descomunal da resistência de Kobani, que até agora conseguiu - sem recursos e contra uma violência inaudita - retardar o avanço dos fanáticos religiosos, não pode durar muito mais agora. A queda da cidade e o hasteamento da bandeira preta do califado não só nas zonas leste e sul, mas agora também nas derradeiras alturas de um lugar que será poderosamente simbólico, será uma catástrofe cuja plena extensão ainda não foi avaliada.

Será uma catástrofe para os combatentes, tanto homens quanto mulheres, que durante semanas lutaram com uma coragem incrível contra unidades mais bem armadas que os farão pagar muito caro por sua audácia.

Será uma catástrofe para a própria cidade, onde o Estado Islâmico não se contentará, como antes, em escravizar as mulheres, decapitar os líderes ou converter pela força os praticantes de religiões minoritárias.

Ela assumirá seu lugar na longa e terrível lista de cidades martirizadas das últimas décadas: Guernica, pulverizada pelos aviões da Legião Condor; Coventry, arrasada pelos Heinkels da Luftwaffe; Stalingrado e seu milhão de mortos; Sarajevo, que escapou com vida, mas ao preço de 11 mil mortos durante um cerco de mil dias; Grozny, na Chechênia, transformada numa cidade fantasma pela ralé de Putin; Alepo, na Síria, com seus tesouros de civilização e beleza enterrados pelos explosivos largados por aviões de Bashar Assad, e agora Kobani, cuja existência era desconhecida para a maioria de nós até recentemente, mas que está prestes a se tornar uma "urbicida" (cidade exterminada).

Será uma catástrofe, além da própria Kobani, para o Curdistão secular, a encarnação (se existe) dos valores de moderação e lei que os diplomatas afirmam ser seu desejo para o mundo islâmico. Além disso, os combatentes curdos, ou peshmergas, são os únicos que tomaram ao pé da letra a ordem global de se mobilizar contra as hordas do Estado Islâmico e lutar frente a frente no front contra um Estado autoproclamado que pôe em risco não só o Curdistão, mas a própria humanidade.

Como Kobani não é apenas um símbolo, mas uma chave, sua queda será uma catástrofe, enfim, para a coalizão da qual é o posto mais avançado, uma coalizão que agora verá os bárbaros do EI ocupando uma larga faixa de terreno de várias centenas de quilômetros adjacente à fronteira turca - uma vantagem estratégica e tática considerável.

Para impedir esse desastre, nós temos pouco tempo, mas, sobretudo, meios irrisórios.

A coalizão precisa se decidir pela intensificação dos ataques aéreos, mas como atacar do ar quando a batalha está sendo travada corpo a corpo, rua a rua, casa a casa na periferia da cidade? A coalizão pode optar por entregar armas. Mesmo sem apoio turco, ela tem a capacidade logística de fazê-lo. E se não o fizer - e se não resolver restabelecer uma medida de equilíbrio entre os jihadistas que trouxeram artilharia pesada, lançadores de foguetes sofisticados e tanques roubados dos arsenais de Mossul e Tabah, enquanto os curdos estão armados somente com Kalashnikov, metralhadoras DFDS e alguns morteiros - os cidadãos do mundo ainda têm a liberdade de fazer o que fizeram não faz muito tempo para a pequena Bósnia, que, como a Kobani curda, estava nos defendendo ao se defender. Mas o que nos falta é tempo. É preciso tempo para organizar uma entrega aérea de armas a uma população sitiada e tempo é o que nós não temos.

A esta hora tardia, só há um meio de salvar o que resta de Kobani, e esse meio é a Turquia.

Erdogan, cujo juízo tem sido toldado por seu medo obsessivo de ver um Estado curdo embrionário se formando ao lado de suas fronteiras, precisa ser lembrado - uma vez mais - que o EI não é menos inimigo seu e é pela Turquia que os sinos dobram em Kobani.

Ele precisa ser convencido que seu regime cada vez mais autoritário e incivil, que está se afastando cada vez mais dos fundamentos seculares do kemalismo, precisa preservar sua chance de forjar as parcerias econômicas com a Europa (e, eventualmente, as parcerias políticas) às quais as elites da Turquia aspiram e das quais o país tão agudamente necessita, essa chance passa por Kobani e sua defesa: essa chance depende da ajuda entregue às heroínas e heróis da cidade assediada.

Mas precisamos ir mais além e dizer a Erdogan, formalmente ou informalmente, que a batalha contra o EI é a hora da verdade, o agora ou nunca, para as alianças e o sistema coletivo de segurança que foram estabelecidos na região depois da 2.ª Guerra, um sistema no qual a Turquia é mais que um membro qualquer, tendo se tornado seu pilar oriental quando ingressou na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em 1952.

Em 1991, a Turquia se uniu com relutância às operações em apoio à população civil do norte do Iraque.

Em 1.º de março de 2003, a Grande Assembleia Nacional da Turquia, numa votação que lançou uma larga sombra sobre as relações do país com seus aliados, votou contra permitir que 62 mil soldados americanos passassem pela Turquia a caminho de Bagdá ou ficassem estacionados na Turquia.

Se a Turquia se esquivar uma terceira vez - se Kobani se tornar o nome de mais uma omissão turca -, será seu futuro na Otan que estará em jogo.

Os emissários do presidente Barack Obama que acabam de chegar a Ancara deixarão isso claro.

O presidente francês, François Hollande, que enviou à Turquia muitos sinais de amizade, deve assumir o papel de porta-voz dos parceiros da França informando Erdogan de que Kobani é uma muralha para a Europa. Aqui, como no cerco de Madri, o mundo precisa proclamar: "Não passarão". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É ESCRITOR E INTELECTUAL FRANCÊS NASCIDO NA ARGÉLIA

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