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'A UE vive uma crise de identidade e culpa Islã'

Para escritor, europeus culpam políticas de imigração por problemas e abrem espaço para ascensão da ultradireita

Entrevista com

Reza Aslan

Alessandro Giannini, O Estado de S. Paulo

07 de fevereiro de 2015 | 09h15

SÃO PAULO - Especialista em religiões, com ênfase no islamismo, Reza Aslan frequentemente é chamado a fazer comentários sobre o assunto na TV americana. Suas opiniões, objetivas e diretas, costumam causar controvérsia. Como quando discutiu com os âncoras de uma emissora de TV a cabo dos EUA ao ser questionado sobre a relação entre o radicalismo da religião e o avanço do Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Em entrevista exclusiva ao Estado, Aslan usou da mesma franqueza ao falar sobre os recentes ataques terroristas na França e o despertar de uma onda de islamofobia na Europa. A seguir, os principais trechos.

Os ataques ao jornal de humor Charlie Hebdo e à mercearia kosher, em Paris, ativaram uma onda de islamofobia na Europa e intensificaram os esforços para esmagar o avanço do Estado Islâmico. Como o sr. imagina que isso pode evoluir?

Faz tempo que a União Europeia está polarizada entre os partidários do multiculturalismo e do ultranacionalismo. Você tem a incrível ascensão de partidos nacionalistas de extrema direita como o Ukip, na Grã-Bretanha, a Frente Nacional, na França e o Pegida, na Alemanha. Este último, especialmente, não só se diz publicamente anti-imigrante, mas também parece se sustentar sobre uma única plataforma: livrar a Europa de todos os muçulmanos. E esse tipo de ambiente hostil é algo que os islamistas estão aguentando há muito tempo. Não tem a ver apenas com Islã, mas com política de imigração, problemas da UE e, em um sentido mais amplo, com a crise de identidade que muitos europeus estão sofrendo ao encarar um mundo que não parece mais com aquele que estavam acostumados. A polarização levou a esses ataques, que fortalecerão os partidos de ultradireita e a situação vai ficar mais tensa.

Há a tese de que os imãs radicais em atividade na Europa são as principais fontes de radicalismo. O sr. concorda?

Creio que esse problema do qual você está falando não existe mais. Antes do ataque terrorista de 7 de junho de 2005, em Londres, havia um problema especialmente na Grã-Bretanha e na Alemanha, em razão de uma política silenciosa porque eles estavam permitindo que simpatizantes da Al-Qaeda - expulsos de lugares como Egito e Jordânia - se estabelecessem na Europa. E muitos deles iriam liderar mesquitas e comunidades. Depois dos atentados, houve um esforço grande para livrar a Europa desses imãs radicais. Muitos desses radicais tiveram seus status de refugiados revogados e foram deportados. Mais importante, o policiamento das comunidades islâmicas europeias se tornou muito melhor. Não há mais espaço para esses caras. Os agressores do Charlie Hebdo: eles não foram radicalizados nas mesquitas ou por suas comunidades, foram radicalizados no Iêmen. Sua radicalização não teve nada a ver com a comunidade islâmica francesa.

E a questão do jornal e dos cartuns do profeta Maomé?

Infelizmente, para o resto do mundo, isso se tornou uma simples dicotomia entre a liberdade de expressão e os muçulmanos radicais. Isso não tem nada a ver com liberdade de expressão. Sejamos sérios! É ilegal na Europa e na França questionar qualquer aspecto do Holocausto. Se você diz que 5 milhões de judeus morreram na 2.ª Guerra - e não 6 milhões, número correto - vai para a prisão. Isso não é liberdade de expressão! Cartunistas do Charlie Hebdo que desenharam cartuns antissemitas foram demitidos. Isso não é liberdade de expressão! Não sei se foi em 2005 ou 2006, um estilista francês que criou um anúncio parodiando a (cena da) Santa Ceia com modelos no lugar de Jesus e os apóstolos foi chamado à Justiça. O juiz disse que o anúncio era ilegal porque feria a sensibilidade dos cristãos franceses. Isso não é liberdade de expressão!

Mas seriam os artistas os responsáveis?

Os desenhos (do Charlie Hebdo) são deliberadamente provocativos, escandalosamente racistas. O profeta (Maomé) foi representado com as calças abaixadas, o traseiro para o alto. Isso não tem nada a ver com liberdade de expressão. Essa questão é um absurdo. Isso tem a ver com uma tentativa deliberada de um grupo de europeus de provar que os muçulmanos não pertencem à Europa. E a maneira de provar é provocando-os para que aceitem esse tipo de agressão ou sejam obrigados a sair. Agora, não estou defendendo ou indo contra a sátira. Como cidadão americano, fui criado acreditando que você pode dizer o que pensa, mas também é preciso ter responsabilidade para fazer isso.

Quem é. Formado em Harvard e na Universidade da Califórnia, Reza Aslan é especialista em temas religiosos. Estudou o Novo Testamento, grego bíblico, história, sociologia e teologia das religiões. Publicou três livros. O primeiro, ‘No God But God’, foi traduzido para treze línguas e considerado um dos cem livros mais importantes dos anos 2000. No Brasil, a editora Zahar publicou dele ‘Zelota’, sobre a vida de Jesus Cristo. Nascido no Irã, ele vive entre Nova York e Los Angeles

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