A última chance antes do caos na Argentina

Na quinta-feira à noite, a emissora de TV a cabo Política & Economia reprisou um programa que havia transmitido uma semana antes, dia 27 de dezembro. Nele, um comentarista fazia às câmeras uma inquietante pergunta: "Será que chegamos ao fundo?" Não, não haviam chegado. Depois das tempestuosas renúncias do ministro Domingo Cavallo e do presidente Fernando de la Rúa, em meio a uma onda de saques e mortes, o próximo presidente, Adolfo Rodríguez de Saá, também cairia, na noite do dia 1.º. Mas o mais sinistro não é a premonição contida na pergunta do comentarista. O mais sinistro é que, depois de tudo o que aconteceu, a pergunta continua atual. Rosendo Fraga e Atilio Boron são dois argutos analistas políticos argentinos que pensam de jeito diferente em muitas coisas. Aqui, no entanto, traçam cenários idênticos: esta é a última chance de uma solução política dentro da moldura institucional. Se as medidas adotadas pelo presidente Eduardo Duhalde não servirem para aplacar a fúria da população - na qual se inclui a influente classe média de Buenos Aires -, o país mergulhará na convulsão social. "Se nos próximos dias o novo governo não conseguir restabelecer o fluxo de dinheiro em espécie para a população, contido desde 30 de novembro - o que desencadeou o conflito social -, os protestos recomeçarão, como sucedeu com De la Rúa e Rodríguez Saá", prevê Fraga, diretor do Instituto Nueva Mayoría. Saldo dos episódios anteriores: 30 mortos, 120 policiais feridos, 900 saques e 4 mil detidos. "Dessa vez, no entanto, os manifestantes encontrarão, nas ruas, militantes peronistas, dispostos a enfrentá-los", acrescenta Boron, do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais. "Duhalde tem de duas a três semanas", estima o sociólogo, autor do livro A Coruja de Minerva, sobre as relações entre mercado e democracia, recém-lançado no Brasil. E, se não der tempo, o que virá? Esgotaram-se as linhas de sucessão e as fórmulas de consenso. Nos rounds anteriores, os militares deixaram patente sua falta de apetite por uma intervenção. "Só atuarão de acordo com a lei, ou seja, num estado de sítio aprovado pelo Congresso", assegura Boron. Se Duhalde, eleito indiretamente pelo Congresso, fracassar, é possível que emerjam lideranças novas, tão espontâneas e imprevisíveis quanto os "panelaços", com os quais os argentinos ensaiam uma nova espécie de democracia direta. Desespero A irascibilidade dos argentinos assusta a eles próprios. Não experimente entrar com mais de um cartão magnético numa fila de caixa eletrônico. Miguel, um sujeito cordato que trabalha como motorista de uma firma em Buenos Aires, conta, espantado consigo mesmo, como esmurrou um rapaz porque demorou demais na cabine sacando dinheiro. A proibição de retirar mais de US$ 250 por semana e a suspensão das operações de compensação que envolvam a paridade dólar-peso - ou seja, quase todas - empurraram o despreparado sistema bancário ao colapso e os argentinos, a horas nas filas para resolver seus problemas mais corriqueiros. Na base do desespero argentino, claro, repousa algo mais profundo: a perda da confiança - conquistada a duras penas e por uma década - no próprio dinheiro. E a sensação de estar nas mãos... dos políticos. "Só peço que Deus ilumine os políticos, porque nós, cidadãos comuns, não temos muito o que fazer", resignava-se na sexta-feira dona Angelina, caminhando no centro de Buenos Aires ao lado da idosa tia, Elba. "O duro é que conheço os antecedentes criminais dessa gente", assusta-se o comerciante Victor Berenstein, referindo-se a Duhalde, que foi vice-presidente de Carlos Menem e governador da Província de Buenos Aires, e a seus companheiros peronistas. Mas o momento não é de grandes escolhas para os argentinos em geral e os comerciantes, em particular. Berenstein, que tem uma loja de relógios - importados - no Paseo Lavalle, garante que não há o que remarcar, mesmo com a desvalorização do peso. "O poder aquisitivo dos consumidores simplesmente não comporta." O plano Duhalde, na verdade, cria uma perversa equação, de resultado desconhecido: de um lado, a desvalorização pressiona os preços, num país que abdicou da produção local para importar quase tudo, com sua moeda artificialmente forte; de outro, a recessão de 42 meses não inspira remarcações. Liquidação Leonardo Algozino conta que as vendas caíram mais de 50% nos últimos quatro meses em sua livraria, na Avenida 9 de Julho, a mais importante de Buenos Aires. Algozino está liquidando os livros a 1 peso cada, para fechar as portas. Mesmo assim, nos últimos dias, medicamentos importados - que podem ser tão simples e básicos como a insulina - desapareceram das prateleiras. Subiram os preços de mercadorias, não só importadas, como eletroeletrônicos, mas também nacionais, como a farinha de trigo. No primeiro caso, sob o pretexto de repor estoques, num cenário em que não se comprava dólar por menos de 1,50 peso; no segundo, pela perspectiva de ganhar mais exportando do que vendendo ao mercado interno. "O setor de alimentos já começou a remarcar, porque são produtos de primeira necessidade", raciocina León Singer, dono de uma loja de malas e bolsas, das quais somente as de couro são nacionais. "Mas, como não há vendas na maior parte do comércio, seria muito difícil aumentar preços por agora. Claro que, conforme as medidas forem implementadas e se houver remarcação generalizada..." Algozino não tem dúvidas: "Muitos estão escondendo a mercadoria e esperando. Todos terão de aumentar os preços". Ironicamente, a recessão emergiu como protetora do poder aquisitivo, órfão da conversibilidade. "Vão remarcar, mas como há uma depressão tão grande, a remarcação não terá muito êxito e isso pode ajudar a não disparar a inflação", aposta o advogado Gustavo Kruse, de pé na fila na agência do Banco da Província de Buenos Aires, na Avenida Córdoba. Modelo Mas há uma outra ironia contida na morte da conversibilidade: muitos argentinos passaram a ver o Brasil como modelo de sistema que funciona. O presidente Duhalde lembrou, na sexta-feira, em seu discurso aos empresários e sindicalistas, que presenciou, no Brasil, a desvalorização do real, em janeiro de 1999, quando as previsões catastrofistas de hiperinflação não se concretizaram. E se indagou se os brasileiros eram mais patriotas que os argentinos. A crise latino-americanizou a Argentina, antigo pedaço da Europa no Cone Sul. "Dois países juntos podem fazer mais que um só", anima-se Kruse, referindo-se ao Brasil e à Argentina. "Toda a América do Sul deveria estar unida, para competir com o resto do mundo em outras condições", postulava o corretor de imóveis Carlos Norberto Sánchez na sexta-feira, enquanto descansava num banco de praça da Avenida 9 de Julho, os negócios paralisados pela indefinição do valor do dinheiro. "Somos um país muito especial. Temos tudo, uma riqueza invejável. Só que não sabemos administrá-la." Leia o especial

Agencia Estado,

05 Janeiro 2002 | 20h45

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