A última e nostálgica campanha de Barack Obama

Cenário: Peter Baker / NYT

O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2012 | 02h04

O presidente Barack Obama olhou para a multidão tiritando de frio no comício na cidade de Bristow, Virgínia, quase encobertos pela maré de cartazes azuis da propaganda, entre os flashes de milhares de câmeras de celulares. Fazia quase 3º C, e ele aquecia a mão esquerda no bolso do casaco enquanto agitava a direita. Era quase meia-noite, e este era o último encontro com os eleitores no último sábado de sua última campanha, e então ele ignorou o script.

"Estava ali atrás com David Plouffe", disse Obama aos ouvintes, referindo-se ao seu guru político, que de repente olhou para ele surpreso do seu lugar, fora do palco. "E comentávamos que, à medida que a campanha foi se desenrolando, nós ficamos menos relevantes. Sou uma espécie de eixo da campanha. E ele só fica incomodando um monte de gente telefonando e perguntando o que é que está acontecendo."

Na realidade, para Obama, a campanha efetivamente acabara. É claro que haveria uma série final de comícios ontem, um último esforço concentrado frenético, pelos Estados decisivos e inúmeros telefonemas de Plouffe.

Mas a máquina que eles montaram com grande empenho nos dois últimos anos, agora funcionava por controle remoto. O controle da campanha já não estava em suas mãos, e portanto também o destino do 44.º presidente. Sua esperança era ganhar, e ele tinha a chance de garantir um legado como um presidente que deixou uma marca, não apenas em razão de sua primeira eleição, na qual quebrara barreiras, mas também por transformar os EUA à sua imagem - para melhor; para pior, temiam seus críticos. Ou perder, e tornar-se a personificação da esperança e da mudança que não conseguiu cumprir sua promessa, e cujos programas talvez não sobrevivam à sua notável ascensão e queda.

Em momentos como estes, a nostalgia invade um presidente à beira do precipício. A cada dia que passava, Obama foi tomando nota a cada vez que passava por uma etapa fundamental.

"Este é o meu último ensaio do debate", ele disse em Camp David. "Esta é a minha última caminhada exploratória", falou enquanto percorria o palco antes de um debate. "Este é o meu último debate", afirmou depois de enfrentar pela terceira vez Mitt Romney.

Estas referências ao encerramento do mandato foram se acumulando no exaustivo fim de semana passado, enquanto ele se esfalfava de Ohio a Wisconsin, Iowa a Virginia, New Hampshire à Flórida e Colorado, e novamente até Ohio e Wisconsin. O que ele mais esperava era que estes não fossem os últimos dias da sua presidência.

"Percebe-se a nostalgia e a melancolia se instalando", observou Dan Pfeiffer, um dos seus assessores e atualmente diretor de Comunicações da Casa Branca.

"O objetivo aqui é ganhar e defender a própria política, mas quando se trata dos últimos dias da campanha na vida de um homem... a gente de vez em quando para e reflete sobre isso", afirmou.

"Ele decidiu intimamente que precisava seguir em frente fazendo pressão e ganhar, ponto final", disse o senador John Kerry numa entrevista. "Ele sabe exatamente o que não fez e exatamente o que queria fazer." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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