Rascal Rossignol/REUTERS
Rascal Rossignol/REUTERS

A um ano da eleição na França, jovens afetados pela pandemia se voltam para a extrema direita

Marine Le Pen ganha força entre os eleitores de 25 a 34 anos, passando de uma intenção de voto de 23% em 2017 para 29% nas presidenciais de 2022

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2021 | 15h00

PARIS - A um ano das eleições presidenciais na França, uma nova geração de jovens desencantada com a gestão de Emmanuel Macron e particularmente atingida pelas consequências econômicas da pandemia de covid-19 volta-se para a extrema direita de Marine Le Pen.

"Não é um voto de protesto, mas de adesão, para mim Marine Le Pen é a única capaz de resolver os problemas que atualmente afligem a França", diz Maxence, um estudante de engenharia de 20 anos nos arredores de Arras (norte).

Maxence, que prefere não divulgar seu sobrenome por medo de ser "estigmatizado", é um membro ativo do partido de extrema direita Reagrupamento Nacional (RN), distribuindo panfletos de porta em porta e divulgando ativamente as mensagens de sua candidata nas redes sociais.

Em sua casa sempre houve mais votos para os partidos tradicionais de esquerda ou direita, mas ele votará em Le Pen, que promete acabar com a "crescente insegurança" e a "imigração em massa" e está convencido de que cada vez mais jovens franceses pensa como ele.

Uma pesquisa de opinião publicada no início deste mês indicou que a extrema direita está ganhando cada vez mais seguidores entre o eleitorado jovem. 

Entre os eleitores de 25 a 34 anos, a líder da extrema direita ganha força, passando de uma intenção de voto de 23% em 2017 para 29% nas presidenciais de 2022. 

Os eleitores deste segmento-chave votaram em massa em Emmanuel Macron há quatro anos (29%), mas hoje parecem desencantados com a gestão do presidente mais jovem da história da França: apenas 20% declaram que lhe darão o voto nas eleições do próximo ano. 

A crise econômica, ampliada pelas consequências da pandemia de covid-19, são os principais elementos que canalizam a ascensão da líder direitista entre os jovens.

São eles que "vão pagar pelas consequências devastadoras da crise econômica", explica Frédéric Dabi, da Ifop. 

"É difícil ter 20 anos em 2020", reconheceu Macron em entrevista em outubro passado, na qual prometeu ajuda à chamada "geração do confinamento", que segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) sofre um "impacto sistemático, profundo e desproporcional" pela pandemia.

Estratégia "digital"

Uma década depois de assumir as rédeas do partido, Marine Le Pen conseguiu dissipar a memória de seu pai, Jean-Marie Le Pen, fundador do movimento de extrema direita Frente Nacional, que mais tarde se tornou Reagrupamento Nacional, conhecido por suas declarações antissemitas e xenófobas que lhe renderam várias condenações.

"O momento em que os franceses saíram às ruas em massa" para clamar pela formação de uma "frente republicana" contra Jean-Marie Le Pen no segundo turno das eleições presidenciais de 2002 "aconteceu há 20 anos", lembra Jean-Yves Camus, diretor do Observatório das Radicalidades Políticas da Fundação Jean Jaurès. 

Para muitos jovens, que não conheceram a luta contra a Frente Nacional, o "tabu" de votar na extrema direita não existe mais. 

"Cerca de 46% deles consideram que o RN é um partido honesto e que é capaz de ter uma visão de futuro para a França", aponta Dabi, diretor da empresa IFOP, ao jornal Le Monde.

Segundo Julia Ebner, pesquisadora especializada em extremismo do Instituto para o Diálogo Estratégico de Londres, a ascensão da extrema direita entre o eleitorado mais jovem, fenômeno que é perceptível em vários países europeus, é também resultado de uma estratégia vitoriosa destes grupos nas redes sociais, plataformas preferidas pelos "millennials" e mais aptas a viralizar mensagens.

"Muitos canais da extrema direita explodiram com a covid", diz à Agência France-Presse Ebner, autora do livro A vida secreta dos extremistas.

"Os partidos souberam adaptar sua linguagem nas redes sociais para alcançar os jovens, utilizando as mesmas referências e símbolos, algo que os partidos tradicionais não conseguiram fazer", explica.

Todos os especialistas lembram, porém, que a abstenção é dominante entre os jovens. Em 2017, apenas um em cada cinco jovens foi às urnas e, até 2022, apenas um em cada dez pretende exercer o direito de voto. /AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.