AFP PHOTO / JOEL SAGET AND Eric FEFERBERG
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A uma semana da eleição, França vive maior indefinição dos últimos 50 anos

Pesquisas apontam empate técnico entre os quatro principais candidatos, um cenário que dificulta previsões e aumenta as chances de o país deixar a União Europeia, caso se confirme a possibilidade, cada vez maior, de vitória de um líder populista, como Marine Le Pen

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

16 Abril 2017 | 05h00

A sete dias da eleição presidencial, a França prende a respiração diante do quadro eleitoral mais imprevisível dos últimos 50 anos. Pesquisas mostram que a diferença entre os quatro primeiros candidatos oscila entre 3 e 5 pontos porcentuais, com os dois líderes, o social-liberal Emmanuel Macron e a nacionalista Marine Le Pen, em queda. O cenário é de incerteza, alimentada por um eleitorado com mais de um terço de indecisos.

Na última semana, a reportagem do Estado cruzou a França, de Lille, na fronteira com a Bélgica, à periferia violenta de Marselha, no Mediterrâneo. O objetivo foi ouvir eleitores comuns sobre a escolha que os 45,7 milhões de franceses farão na semana que vem. 

Em evidência, a indignação da maior parte do eleitorado com os partidos tradicionais, Republicanos, de direita, e o Socialista (PS), de esquerda, que se alternam no poder há 36 anos.

Outra constatação é a aparente irracionalidade do voto. Uma parte do eleitorado se diz pronta a votar no radical de esquerda Jean-Luc Mélenchon, do movimento França Insubmissa, no primeiro turno, e migrar para Marine Le Pen, do extremo oposto, no segundo. O raciocínio é o voto “antissistema”, que tem como primeiro alvo a classe política da França, e como segundo a União Europeia e seu maior símbolo: o euro.

Dos 11 candidatos, apenas dois, Macron e o liberal-conservador François Fillon, do partido Republicanos, defendem de forma aberta a UE. Todos os demais pregam ou a saída, o “Frexit”, ou a renegociação dos tratados que norteiam o bloco – o que deixaria ainda mais frágil a integração, após o baque causado pelo Brexit, a retirada dos britânicos.

Segundo pesquisas, Macron e Marine Le Pen dividem-se na liderança, com índice entre 22% a 24%. Atrás estão Jean-Luc Mélenchon e Fillon, alternando-se entre 19% e 20%. Na prática, trata-se de um quádruplo empate técnico que permite a qualquer um deles sonhar com o segundo turno – abrindo até mesmo a perspectiva de um duelo entre Le Pen e Mélenchon.

A corrida ao Palácio do Eliseu também tem como fator de incerteza a queda do socialista Benoit Hamon, que hoje teria entre 7,5% e 8% dos votos – o pior desempenho em décadas de um líder do PS, após cinco anos de governo de François Hollande. Ao lado do alto número de indecisos, a indefinição sobre para onde irão os seus votos é um dos maiores fatores de desestabilização do cenário eleitoral francês. 

Hoje e ao longo da semana, o Estado abordará as histórias e as impressões de franceses comuns com os quais cruzou, em uma tentativa de entender por que o eleitorado tem oscilado, a sete dias da eleição, entre as propostas da extrema direita e da extrema esquerda.

 

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Em Lyon, Macron é esperança de ‘algo novo’

Na cidade que lançou sua campanha, ex-ministro é visto como símbolo de ruptura

Andrei Netto, Enviado Especial / Lyon, França, O Estado de S. Paulo

16 Abril 2017 | 05h00

Para responder à população que deseja expulsar do poder líderes políticos históricos e partidos tradicionais, 100% dos candidatos à eleição presidencial na França se apresentam como “antissistemas”. A fórmula vale até para o ex-premiê François Fillon, católico e conservador, acusado de ter empregado a mulher desde 1982 como funcionária fantasma. 

E não é diferente com o ex-ministro da Economia Emmanuel Macron, ex-banqueiro que fez fortuna no mercado financeiro, mas hoje representa uma esperança de “algo novo” para seu eleitorado. 

Uma das forças da candidatura de Macron, hoje ainda considerado líder nas pesquisas de opinião, apesar do empate técnico, é o fato de ele ter rompido com o Partido Socialista (PS), do qual foi militante, em 2008. Desde então afastado dos aparelhos partidários, o ex-economista do Banco Rothschild decidiu criar, em 2016, um novo movimento político, o social-liberal En Marche! (Em Movimento!), uma legenda de “terceira via” que se apresenta como sendo “nem de direita, nem de esquerda”. O argumento soa como música para seus apoiadores, que veem na ruptura do velho esquema ideológico francês a grande novidade da eleição.

Essa estratégia de rompimento com os partidos tradicionais nasceu em Lyon, terceira maior cidade da França, com 1,6 milhão de habitantes. Foi Gérard Collomb, prefeito de Lyon e oficialmente ainda membro do PS, que lançou Macron à presidência, contrariando sua legenda. Popular em sua região, o prefeito fez da cidade o epicentro do terremoto político causado pela criação do En Marche! e pela candidatura do economista de 39 anos.

“Na história da França, há muitas coisas que partiram de Lyon. Nessa eleição, é a mesma coisa. Para Macron, Lyon é o berço, o nascimento”, diz Gregory Dayme, de 39 anos. Na sexta-feira, o empresário buscou no comitê do candidato panfletos para distribuir em favor de Macron. Ex-militante do partido centrista Movimento Democrático, Dayme aderiu ao desafio de eleger o ex-ministro de François Hollande. “Creio que Macron chegará ao segundo turno com Marine Le Pen e vencerá. Qualquer que seja o candidato, ele vencerá com folga.”

Macron também tem fãs. Jovem, elegante e bem apessoado, ele usa de um discurso erudito e cursou a Escola Nacional de Administração, pela qual passaram três dos últimos sete presidentes da França. A formação impecável para um garoto oriundo da classe média interiorana desperta o sonho de mobilidade social, do qual o candidato é um dos defensores. 

Anne Quiviger, funcionária de uma empresa de logística, foi seduzida pelo ex-ministro e agora faz campanha por ele na família. “Eu o apoio e quero mostrá-lo a parentes e amigos. Há um terço de franceses indecisos e quero que conheçam melhor o programa de Macron”, conta a jovem, que era eleitora do PS. “O que me atrai em Macron é a mudança, sua juventude. Gosto de sua posição centrista.” 

Amandine Di Loreto, estudante de 18 anos, tornou-se uma militante. “Entre os eleitores de Macron, encontramos origens diferentes. Sou centrista de direita, mas há muitas pessoas centristas de esquerda”, diz, enumerando as vantagens de um candidato “aberto” a outras tendências políticas. Ela lamenta que na campanha não se tenha discutido mais os programas dos candidatos, que acabaram se digladiando em questões como escândalos de corrupção. “Na França, a política é uma instituição, mas hoje ninguém mais se interessa.” 

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Revolta de classes populares marca voto de protesto

Rejeição a políticos e partidos históricos move eleitorado de baixa renda; Le Pen e Mélenchon são beneficiados

Andrei Netto, Enviado Especial / Marselha, França , O Estado de S. Paulo

16 Abril 2017 | 05h00

À espera do comício do candidato radical de esquerda Jean-Luc Mélenchon, 25 mil pessoas que lotavam o Grande Palácio de Lille, na quarta-feira, berravam: “Caiam fora!”. O grito vem sendo repetido com fervor pelos simpatizantes do nome que mais sobe nas pesquisas e sintetiza a visão de grande parte do eleitorado que optou pelo voto de protesto, que pretende despejar do poder líderes e partidos políticos tradicionais. 

A revolta da base da pirâmide social, que se sente abandonada pela elite política, talvez seja o principal traço da eleição na França. Cansado da alternância entre direita e esquerda, entre republicanos e socialistas, que dividiram o poder nos últimos 36 anos, os franceses ameaçam afastar de vez as duas mais importantes legendas tanto do Palácio do Eliseu quanto da Assembleia Legislativa.

A insatisfação tem múltiplas causas. A primeira é o desemprego, na casa de 10%, e a sensação de desamparo que vivem trabalhadores da indústria, da agricultura e de funções regulamentadas do setor de serviços, áreas da economia da Europa atingidas pelo livre mercado. 

Angustiados com a concorrência internacional e pelas transformações no mundo laboral, empregados de fábricas, produtores rurais e trabalhadores urbanos têm reiterado o desejo de “explodir o sistema”. Soma-se a isso a percepção de que a Europa está sendo “invadida” por imigrantes e a impressão de que refugiados têm mais direitos e benefícios que a população de baixa renda que paga imposto. 

Entre extremos. Esses franceses se dividem entre os que estão determinados a votar em candidatos de extremos políticos – 7 dos 11 na disputa, de ultranacionalistas, de direita, a anticapitalistas, de esquerda –, e os que decidiram apenas ignorar a eleição, um protesto que no Brasil seria equivalente ao voto nulo. 

Em grande parte, esse eleitor prefere não se identificar e não aceita se deixar fotografar. “Não há nenhum candidato que seja bom. Qualquer um que seja eleito, será um horror. Pensávamos que tínhamos visto o pior com Hollande, mas o pior está por vir”, diz Xavier Corbehem, de 26 anos, ex-dono de restaurante que virou motorista de táxi em Marselha. 

Obstinado, ele diz que passou 20 horas diárias atrás do volante nos últimos três meses. Sem candidato, diz que não vota em Emmanuel Macron de jeito nenhum e pensa em ficar em casa no domingo. “Macron quer a ‘uberização’ da economia”, diz o taxista, com medo de perder o emprego em caso de flexibilização do mercado de trabalho, como promete o ex-ministro da Economia, candidato social-liberal e pró-União Europeia. 

Um outro motorista de Marselha diz que votará em Mélenchon no primeiro turno e, caso perca, em Marine Le Pen no segundo. O fato de passar da extrema esquerda à extrema direita não o incomoda, desde que seu objetivo seja atingido: livrar-se de Bruxelas, que considera a causa de todo o mal e a fonte da imigração que assola o sul da França. “Não estou nem aí para a UE. A Europa nos matou. Se sairmos, eu não ficarei descontente.” 

Em um raciocínio sinuoso, ao mesmo tempo em que culpa o bloco europeu pela situação do país, ele diz não ver crise na França. “Não existe crise. Isto é invenção. O desemprego existe porque ninguém quer trabalhar”, garante.  “Em Marselha, as pessoas dizem: ‘Por que vou trabalhar? Se não trabalho, ganho € 1 mil. Se trabalho, ganho € 1,1 mil’”, afirma, em referência a um fato que se tornou lugar-comum em redes sociais na França.

Menos poder. Com argumentos diferentes, Sabine Fincato, coordenadora de um projeto que faz acompanhamento profissional para reinserção de pessoas no mercado de trabalho, também optará por uma candidatura antissistema. Ela afirma que votará no esquerdista Mélenchon, admirador assumido de Fidel Castro e de Hugo Chávez. O candidato prometeu convocar uma nova Assembleia Constituinte e romper com os tratados europeus. 

Sabine está convencida de que a imprensa francesa empobreceu a campanha eleitoral, que na França se dá mais por meio de debates e de entrevistas na TV e em rádios, além de comícios e de estratégias empregadas em redes sociais. “Em teoria, o presidente não tem muito poder”, afirma Sabine. “Mas ele se tornou um monarca. E precisamos acabar com isso.”

 

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A vitrine da extrema direita francesa

Marine Le Pen faz propaganda de Hénin Beaumont, cidade no norte do país governada pela Frente Nacional

Andrei Netto, Enviado Especial / Hénin Beaumont, França, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2017 | 05h00

HÉNIN BEAUMONT, FRANÇA - Enquanto líderes dos maiores partidos da França aguardarão o resultado das eleições presidenciais de domingo em Paris, a Frente Nacional (FN), de extrema direita, liderada por Marine Le Pen, reunirá seus militantes na primeira cidade governada pela legenda nesta década. Hénin Beaumont, a 30 quilômetros de Lille, na fronteira com a Bélgica, é a vitrine da candidata nacionalista na disputa pelo Palácio do Eliseu. 

O Estado, que na última semana cruzou a França, esteve em Hénin Beaumont para ouvir a opinião de seus habitantes sobre a administração da FN. Falar sobre a guinada à extrema direita nem sempre é assunto bem recebido pelos moradores. Vários revelam rancor por se sentirem estigmatizados por terem eleito o prefeito Steeve Briois.

Em 2014, Hénin Beaumont se transformou em símbolo. Foi a primeira cidade francesa conquistada pela FN após a surpreendente vitória do partido em Toulon, em 1995. Hoje, a cidade de 30 mil habitantes, que vivia da exploração de minério, atividade já extinta, é o porta-estandarte de Le Pen.

No município, a estratégia de marketing para melhorar a imagem da FN funcionou como em nenhum outro lugar do país. Além do sucesso do prefeito Briois, Le Pen já usou da popularidade do partido na cidade para se candidatar à Assembleia Nacional, em 2012. Em 2015, transformou mais uma vez o município em QG durante sua candidatura ao comando da região de Nord-Pas-de-Calais e da Picardie.

A escolha de Hénin Beaumont serve à estratégia da FN. O slogan de Marine na corrida ao Palácio do Eliseu é “Em nome do povo”. A mensagem tenta contrapor as classes populares às elites políticas de Paris. 

Florão da bacia mineira de Pas-de-Calais, Hénin Beaumont perdeu sua maior fonte de riqueza nos anos 70, empobreceu, endividou-se e enfrentou escândalos de corrupção. Hoje, sob a administração de Briois, está pagando suas contas e estabilizando as finanças, em uma gestão bastante popular.

“O prefeito trouxe muitas coisas boas. Havia denúncias de corrupção. Agora, as contas foram equilibradas, novos serviços foram criados e baixaram os impostos. Se são medidas eleitoreiras, eu não sei”, conta uma agente de turismo que não vota na FN e ainda hesita entre o centrista Emmanuel Macron e o radical de esquerda Jean-Luc Mélenchon. “Tem muita gente a favor de Le Pen aqui, mas a maioria não comenta.”

Vários moradores que votarão em Le Pen de fato pediram ao Estado que não publicasse seus nomes, nem autorizaram fotografias. “Não podemos dar o nome ou tirar fotos porque senão nos apontam na rua”, disse uma funcionária pública. 

Seu marido, aposentado, admite que vai votar na extrema direita. “A FN é um terror na França, mas acho que muita gente tem medo da mudança”, disse ele, que afirma querer acabar com a alternância entre republicanos, de direita, e socialistas, de esquerda, iniciada em 1981. “Estou certo que Marine Le Pen vai chegar ao segundo turno, mas depois vão se reunir para votar por Macron e evitar que ela seja eleita presidente.”

Aposentado por invalidez, Géralde Buchatau não só não tem vergonha de aparecer como é militante ativo da FN. Todos os dias, sai pela região para colar cartazes de Marine Le Pen. “Tem gente que tira sarro, tem gente que xinga. Mas eu não estou nem aí”, garante. “É a imigração que me incomoda. Há imigrantes demais. Eles estão por todo lado e pensam que estão em casa. Não é normal. Por isso eu acho que vamos ganhar. Se não ganharmos, vai ser bem perto.”

Consciente do apoio que tem na região, Marine Le Pen decidiu passar o dia da eleição na cidade, onde votará e esperará o resultado. À rádio Europe 1, de Paris, que revelou a decisão da candidata, um dirigente da FN explicou o porquê da iniciativa com o usual tom populista do partido. “Todo o sistema estará em Paris. Marine estará mais uma vez ao lado dos esquecidos.”

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Velhos operários em dois extremos políticos

Socialistas e extrema direita lutam pelo voto do proletariado francês 

Andrei Netto, Enviado Especial / Lille, França, O Estado de S. Paulo

18 Abril 2017 | 05h00

Durante décadas, operários do setor industrial formaram a base eleitoral dos maiores partidos de esquerda da França, como o Socialista e o Comunista. Nessa época, as regiões industriais e extrativistas do norte do país, na região de Nord-Pas-de-Calais, eram garantia de voto para candidatos progressistas. Ao longo das últimas três décadas, parte desse eleitorado “chão de fábrica” migrou para outro extremo político, a Frente Nacional, liderada por Marine Le Pen. Mas em 2017 esse eleitorado tem nova alternativa: Jean-Luc Mélenchon.

Em Lille e pequenas cidades do norte da França pode ser constatada a ascensão do líder do partido de esquerda radical França Insubmissa. Como os eleitores de Marine Le Pen, a maioria tem um perfil antissistema e adere a Mélenchon na luta contra o que o candidato chama de “mundo das finanças” e a “globalização escravagista”.

Um dos pontos mais mencionados por seus eleitores é a promessa de convocar uma Assembleia Constituinte para fundar uma Nova República, passando da 5.ª, criada em 1958 por Charles De Gaulle, à 6.ª. Segundo o projeto do candidato, sua “revolução pacífica e democrática” resultaria na redução dos poderes do presidente – colocando um fim à “monarquia presidencial” – e na reforma do sistema político, com o reforço do Parlamento e do primeiro-ministro. 

Outro ponto de atração do projeto de Mélenchon é a intenção de retirar a França dos tratados da União Europeia. A nuance é importante: ao contrário de Le Pen, o radical de esquerda não prega o fim do bloco de 28 países, mas a renegociação dos tratados, de forma a acabar com as políticas de austeridade fiscal e garantir maior protecionismo nas fronteiras externas da UE.

Esse é um dos pontos que conquista Reginald Maché, de 48 anos, desempregado. “É um programa urgente, diante da miséria crescente e da crise democrática que enfrentamos. Mélenchon porta a herança do Iluminismo, a tradição do progresso social”, argumenta. “Sair dos tratados é diferente de sair da UE. Os tratados foram ditados por lobbies financeiros que impõem ao povo uma austeridade que ninguém mais quer. Eles favorecem apenas o mundo das finanças.”

Para Jérôme S., trabalhador do setor cultural também desempregado, Mélenchon tem um projeto de sociedade que destoa dos outros candidatos de esquerda nos últimos 30 anos. Por isso está levando o campo “progressista” de volta à disputa presidencial com chances reais de vitória. 

O argumento também é usado por Guillaume Legros, de 37 anos, prestador de serviços para a indústria cultural. “Mélenchon tem um verdadeiro projeto de sociedade. Ele permitirá aos franceses se reencontrarem.”

Em um mês, Mélenchon deixou o quinto lugar nas pesquisas, com 10% das intenções de voto, para se juntar a um quarteto que está em empate técnico na liderança, com cerca de 20% . Suas chances reais de chegar ao segundo turno se devem em muito ao derretimento do candidato do Partido Socialista, o ex-ministro da Educação Benoit Hamon, que hoje registraria o pior desempenho da legenda em décadas (7,5%). A erosão do eleitorado socialista beneficiou o social-liberal Emmanuel Macron, fundador do movimento centrista En Marche! (Em Movimento!). Já Mélenchon captou os identificados como esquerda antissistema.

Feriado. Três dos quatro principais candidatos ao Palácio do Eliseu realizaram comícios ontem, aproveitando o feriado na França. A maior demonstração de força foi dada por Emmanuel Macron, que lotou o ginásio de Bercy, em Paris, com mais de 20 mil militantes. Ele pregou uma França “aberta, confiante e conquistadora” e exortou o eleitorado a renovar a política permitindo a “ascensão de uma nova geração” ao comando do país. Marine Le Pen realizou um evento na sala de espetáculos Zénith, na capital, e voltou a defender a suspensão da imigração. Diante de 5 mil pessoas em Nice, François Fillon, do Republicanos, pregou “segurança” e garantiu que “recolocará ordem” na França. 

 

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Cisão interna leva Partido Socialista a naufragar

Candidato não anima eleitores e legenda deve obter pior resultado nas urnas em 1969

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2017 | 05h00

PARIS - Durante dois anos, um grupo de 20 a 30 deputados do Partido Socialista (PS) liderado pelo ex-ministro Benoit Hamon fez oposição ao governo do presidente François Hollande, eleito pelo próprio partido, no Parlamento. A atitude foi tomada em nome dos valores de esquerda , e provocaram a fratura da legenda entre uma ala social-liberal e outra socialista keynesiana. 

O resultado dos confrontos internos cobra o preço agora. Depois de 47 anos como força hegemônica da esquerda na França, os socialistas se preparam para obter seu pior resultado em eleições presidenciais desde 1969.

Quem paga o preço é, por ironia, o próprio Benoit Hamon. Depois de desafiar o governo Hollande, de pressionar pela realização de prévias no partido e de vencer o voto interno, o ex-ministro da Educação foi incapaz de unir a legenda em torno de seu programa de governo, considerado irrealista pela ala moderada do PS.

Sua candidatura foi perdendo apoio, caindo de 18%, nas melhores projeções, em janeiro, para o piso de 7,5% alcançado ontem, segundo o instituto Ipsos. 

“Eu era de esquerda, socialista de verdade. Na minha primeira eleição em 2012, aos 18 anos, votei François Hollande”, diz Baptiste Malatier, 23 anos, morador de Lion, no sudeste francês. Com as brigas internas no PS, o jovem aderiu à candidatura de Emannuel Macron. “Ele é de esquerda do ponto de vista social, mas se abre ao centro-direita, aceita o mercado, aceita reformar, e defende o consenso.”

Quem ainda é fiel ao PS e a Hamon lamenta o desgaste provocado pelo exercício do poder. “Há coisas positivas no governo Hollande. Mas em outras ele não cumpriu as promessas de 2012, como o emprego”, lamenta Christien Lafont, 71 anos, organizador da campanha do PS em Haute-Loire.

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