Juventude Rebelde Cubana/AP
Juventude Rebelde Cubana/AP

A união entre a Cuba de Fidel e a Venezuela de Chávez

Países criaram forte aliança entre a Revolução Cubana e a revolução bolivariana; em 2005, Chávez disse que Fidel era um ‘mestre da estratégia perfeita’

O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2016 | 20h02

HAVANA - Na festa do seu aniversário de 90 anos, no dia 13 de agosto, Fidel Castro apareceu em uma poltrona do teatro Karl Marx com seu irmão Raúl sentado à sua direita. À esquerda, estava o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Uma imagem eloquente sobre a forte aliança entre a Revolução Cubana, com os irmãos Castro, e a revolução bolivariana, com Hugo Chávez e Maduro.

"Foi como sua despedida", disse neste sábado, 26, o presidente venezuelano, ao lembrar que, seguindo o "exemplo" de Chávez, visitava Fidel a cada dois meses para receber suas orientações.

Maduro, que planejava vê-lo no início de dezembro, segundo o canal Telesur, disse que Fidel partiu rumo à "imortalidade" e destacou a "profunda amizade" entre Fidel e Chávez, seu afilhado político morto em março de 2013, vítima de um câncer.

Ambos "fundaram uma época", afirmou o presidente socialista, ao estabelecer um paralelo entre duas revoluções segundo ele "assediadas pelo império". "Para falar de Fidel, há que se falar de Hugo Chávez" - 28 anos mais novo que o líder cubano -, ressaltou.

Maduro sofre a perda do artífice do que chegou a ser a relação mais estreita de Cuba na América Latina, em um momento em que enfrenta o mal-estar popular com relação à grave crise econômica do país petroleiro. O presidente venezuelano, que assumiu o poder um mês após a morte de seu mentor Chávez, nunca deixou de ajudar Cuba, ação criticada por seus opositores em razão do contexto de crise.

Petróleo. Com os preços elevados do petróleo durante grande parte dos 14 anos em que governou, Chávez construiu alianças, desafiando a hegemonia dos EUA, e colocou a Venezuela no coração da geopolítica regional com o que seus críticos chamaram de "petrodiplomacia".

Com Chávez e Castro à frente, surgiram os blocos Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (ALBA) e Petrocaribe, no âmbito dos quais a Venezuela vende petróleo em condições de pagamento preferenciais.

Quase asfixiada pelo longo período de penúrias em que caiu na década de 1990 após a o fim da União Soviética, a ilha recebeu da Venezuela oxigênio na forma de barris de petróleo: entre 100 mil e 120 mil por dia, em seu melhor momento. Hoje, esse número passou para entre 60 mil e 80 mil. A profunda recessão na Venezuela contribuiu para a desaceleração da economia cubana, imersa em uma lenta abertura há cerca de uma década.

"A principal ameaça à estabilidade de Cuba está na frente econômica (...) como resultado do colapso potencial da economia venezuelana", afirmou o analista Diego Moya-Ocampos, da consultoria IHS Markit, com sede em Londres. Segundo ele, a "exportação de serviços profissionais (como médicos e educadores), majoritariamente para a Venezuela, continua sendo a principal fonte de renda de Cuba, acima do turismo e das remessas".

No entanto, desde os primeiros sintomas da crise venezuelana - que hoje se manifesta em uma severa escassez de alimentos e remédios e na inflação mais alta do mundo -, Raúl Castro, que sucedeu seu irmão há 10 anos, começou a diversificar as alianças econômicas. Além disso, o turismo disparou após a reconciliação com os EUA, iniciada no final de 2014, e a ilha regularizou as contas com a maioria dos credores.

Lealdade. A relação próxima entre Cuba e Venezuela começou a ser construída no Aeroporto de José Martí, em Havana, em 13 de dezembro de 1994, quando Fidel recebeu pela primeira vez Chávez, após seu golpe de Estado fracassado em 1992. Em uma conferência na Aula Magna da Universidade de La Habana, Chávez relatou que nos dois anos em que esteve preso por essa tentativa de golpe, lia as declarações de Fidel, como "A história me absolverá".

Veja abaixo: O adeus de Fidel

Cinco anos depois, o líder cubano compareceu à posse do venezuelano. "Fidel é, para mim, um pai, um companheiro, um mestre da estratégia perfeita", declarou Chávez em 2005. Desde então, a lealdade foi incondicional.

Durante o golpe de Estado de 11 de abril de 2002, que tirou Chávez do poder durante três dias, Fidel teve um papel-chave. Após ser informado sobre o ocorrido por uma das filhas de Chávez, Fidel falou por telefone com vários chefes militares que ajudaram a restituir o poder ao líder venezolano.

No pior momento de sua doença, Fidel só recebia a visita de Chávez, que viajava com frequência à Havana e fazia os comunicados sobre a saúde do líder cubano. Mais tarde, o presidente venezuelano continuou frequentando Cuba, mas dessa vez para tratar seu câncer. / AFP

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