REUTERS/Manaure Quintero
REUTERS/Manaure Quintero

A unidade internacional que a Venezuela precisa

'Venezuelanos democratas têm a obrigação de se reunificar' o país, escreve líder no exílio

Leopoldo López*, Americas Quarterly

17 de fevereiro de 2021 | 05h00

CARACAS - Mais de 6,5 milhões de venezuelanos já fugiram da miséria de nosso país, e as Nações Unidas projetam que haverá mais de 8 milhões de deslocados até o fim deste ano, espalhando a emergência humanitária por todo o continente e tornando a ditadura de Nicolás Maduro uma séria ameaça para a estabilidade no hemisfério. O regime desencadeou o que é atualmente a segunda maior - e logo poderá se tornar a maior - crise migratória do mundo.

Após um ano complexo, o caminho para a conquista da liberdade para a Venezuela começa com a reunião daqueles de nós que lutam verdadeiramente pela democracia, compreendendo nossas diferenças, mas com o foco no que nos une: a sede de liberdade, a determinação para punir violações de direitos humanos e a preocupação de encarar o sofrimento do nosso povo. É esta a mensagem que pedimos que seja compartilhada hoje.

Somente fazendo isso seremos capazes de continuar a trabalhar juntos com apoio internacional multilateral. Confiamos no apoio do presidente Joe Biden ao povo venezuelano. Mas, ao mesmo tempo em que muitas das ações já tomadas contra a ditadura estão no caminho certo, precisamos agir de maneira coesa, de modo a exercer pressão direta sobre a ditadura e não permitir escapatória. É dessa unidade que a Venezuela precisa hoje.

As operações que Maduro e seu círculo próximo conduzem com grupos de terroristas e traficantes de drogas representam uma ameaça perigosa e crescente. Aqueles em posição de usurpar o poder nunca estarão dispostos a abandonar sua posição, o que significa que o regime se tornou uma organização criminosa com poderosas ramificações internacionais. Isso é um novo tipo de totalitarismo, sofisticado e com mais recursos para evitar pressão interna e externa.

Por anos, os democratas venezuelanos enfrentam um regime disposto a fazer de tudo para se manter no poder. Tentamos todos os caminhos. Alguns de nós sacrificaram sua liberdade. Muitos outros perderam suas vidas nas mãos de um regime criminoso que busca manter o poder a qualquer custo.

Adotamos um caminho eleitoral e, após uma difícil batalha por condições justas, conquistamos uma vitória esmagadora em 2015, obtendo a maioria dos assentos da Assembleia Nacional. A resposta da ditadura foi ignorar a vontade popular e perseguir os  representantes legítimos.

Mobilizamos as pessoas com protestos pacíficos. A resposta da ditadura foi uma política de repressão e extermínio, executada pela polícia e pelas forças militares.

Iniciamos negociações com o Vaticano e outros países, sempre nos empenhando em encontrar uma solução não traumática para o nosso povo. As respostas da ditadura sempre foram as mesmas: mentiras, escárnio e enganação.

Quais alternativas restam para pôr fim à ditadura? Por que não fomos bem-sucedidos, apesar de tanto esforço e sacrifício? Essas são dúvidas compreensíveis que o nosso povo tem.

Os democratas venezuelanos têm a obrigação de reunificar este ano todas as forças que lutam por mudanças. E, claro, isso exige uma profunda autocrítica, que envolva aprendizado com nossos erros e consolidação da nossa unidade. Essa unidade será essencial para conquistarmos nossos objetivos. Estamos atualmente no processo de desenvolver uma nova plataforma, e o presidente legítimo, Juan Guaidó, fez um chamado sincero a todos os líderes políticos pela união de suas forças, reconhecendo e respeitando nossas diferenças.

Contudo, a unidade também tem um papel crítico na aplicação da pressão internacional. Com muita gratidão e respeito a todos os aliados que nos ajudaram, pedimos uma ação de unidade a todos aqueles que apoiam a causa da liberdade na Venezuela. A pressão internacional tem de ser articulada sob uma estratégia comum, que seja multilateral e se adapte para encarar a realidade de derrotar uma ditadura do século 21. Progredimos na construção dessa frente internacional, mas, para forçar a transição na Venezuela, o mundo livre precisa se coordenar em torno de um objetivo único: a realização de eleições presidenciais livres.

Nesse sentido, o governo do presidente Biden tem um papel fundamental para desempenhar. O secretário de Estado, Antony Blinken, já reconheceu diante do Senado americano a legitimidade tanto do presidente Guaidó quanto da Assembleia Nacional de 2015. O apoio dos EUA à liberdade na Venezuela é bipartidário, firme e determinado.

Apesar de ser claro que as sanções não são a razão da tragédia que estamos vivendo na Venezuela, a ditadura investe na propaganda para dar essa impressão. O secretário Blinken sinalizou, então, para a necessidade de reavaliar as sanções, para torná-las mais danosas ao ditador e seus cúmplices. As 46 autoridades da ditadura - promotores, juízes, policiais e oficiais das Forças Armadas - que foram identificadas pela ONU como responsáveis por cometer crimes contra os direitos humanos devem ser punidas. Ao mesmo tempo, é necessário tratar da tragédia humanitária e do sofrimento dos venezuelanos: hoje, milhões lutam para, meramente, sobreviver.

Tenho um profundo compromisso com a consolidação da unidade de ações em todas as frentes, dentro e fora da Venezuela - e a ela dedicarei minhas energias. Sob a liderança do presidente Guaidó e com o apoio do governo Biden, somos capazes de revitalizar os esforços contra a ditadura de Maduro e pôr fim a um problema que não é somente da Venezuela, mas também da região e do mundo livre.

Com grande humildade, valorizamos o esforço bipartidário para proteger os venezuelanos que buscam um futuro melhor nos EUA. Contudo, a única solução verdadeira para o problema fundamental é por meio da mudança política na Venezuela.

Fuerza y fe.

* LÓPEZ É POLÍTICO VENEZUELANO E VIVE EXILADO NA ESPANHA

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