Ariel Shalit/AP
Ariel Shalit/AP

‘A vacinação neutralizou o impacto da pandemia’, diz analista israelense

Para professor de universidade em Jerusalém, o país continua com o impasse das últimas votações e vários cenários são possíveis

Entrevista com

Arie Kacowicz, professor na Universidade Hebréia de Jerusalém

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 05h00

Com 90% dos votos apurados, Israel continua sem saber se alguma coalizão terá maioria suficiente para formar um governo após a eleição de terça-feira. E uma surpresa pode mudar o lado da balança. A entrada do pequeno partido islâmico de Mansour Abas, Raam, no Parlamento.

De acordo com a contagem de 90% dos votos, Raam obteve ao menos 155 mil votos do total de 4,42 milhões - pelo menos 3,5%, acima então do limite de 3,25% que permite a entrada de um partido no Knesset, o Parlamento israelense. Enquanto isso, o Likud, partido do premiê Binyamin Netanyahu, tem 30 cadeiras, seguido pelo Yesh Atid, de Yair Lapid, com 17.

Para o analista político Arie Kacowicz, professor na Universidade Hebréia de Jerusalém, há vários cenários possíveis nesta quarta eleição em dois anos e isso ocorre porque, após o sucesso da vacinação em Israel, Netanyahu ganhou fôlego para se manter na disputa.

Com esse cenário de ninguém ter maioria clara, Israel deve ter uma nova eleição?

Não sei. Acho que há três ou quatro possibilidades. A primeira é com Netanyahu, que junto com seu bloco têm 52 cadeiras de 120 (do Parlamento). Bennett, da direita religiosa, mas não extrema, tem 7 cadeiras. Aí são 59 cadeiras, mas são necessárias 61 para formar o governo. Um partido árabe conservador que se separou da Lista Árabe Unida está com 5 cadeiras e esse partido, comandado por Mansour Abas, deixou claro que pode apoiar Netanyahu ou a oposição. Do outro lado, temos 56 cadeiras que representam partidos que se opõem a Netanyahu, isso incluindo partidos de direita, centro-direita, centro-esquerda e esquerda e a lista árabe unida. A segunda possibilidade é o bloco opositor chegar ao poder. Não é impossível, mas é mais difícil porque para chegar a 61 cadeiras é preciso juntar muitos partidos distintos.

E quais os outros cenários?

Essa quarta eleição é um referendo sobre Netanyahu e não sobre o conflito árabe-israelense, por exemplo. Temos um sistema parlamentar então outro cenário seria uma coalizão do Likud com partidos de direita, centro, talvez árabes, há possibiliddes, mas sem Netanyahu. Então para isso seria preciso haver uma rebelião dentro do Likud ou o presidente, que dá a um dos candidatos a possibilidade de formar governo, determinar essa função a outro partido ou mesmo ao Parlamento.  

O que mudou nesta eleição?

Por causa de Netanyahu, partidos pequenos conseguiram espaço no Parlamento. Esse partido de Abas, por exemplo, ganhou força. Por outro lado, Likud perdeu espaço.

Essa eleição é uma ferramenta de Netanyahu para evitar a Justiça?

O que Netanyahu quer fazer, e isso é claro, é seguir com sua campanha porque no dia 5 de abril, ele deve se apresentar em uma audiência. Ele é acusado de casos sérios de corrupção, então quer chegar a um governo e uma coalizão que facilitem seu julgamento. Mas até agora, ele não conseguiu isso. Continuamos no looping da crise política. No ano passado, também houve uma espécie de empate e  Netanyahu, de forma astuta, convenceu Gantz a entrar para o governo, mas agora violou o acordo que havia feito com ele. A porcentagem de eleitores que compareceram às urnas foi a menor desde 2013. 

Qual o impacto da pandemia e da vacinação na eleição?

Se as eleições ocorressem em dezembro, antes da chegada das vacinas, Netanyahu estaria acabado. Esse foi o erro de Gantz, que ao invés de falar em eleições logo após o orçamento do país não ter sido aprovado, preferiu esperar até dezembro, quando o orçamento não foi aprovado e, pela lei, o Parlamento se dissolvia. Por um lado, Netanyahu manejou muito mal a pandemia, deixou que os ultraortodoxos fizessem o que quisessem, os aeroportos abertos a maior parte do tempo. Mas, como de certa forma recuperamos a normalidade e há muitos vacinados, a campanha de Netanyahu usou isso. Ele apostou, e se saiu muito bem, nas vacinas. Somos um país pequeno, então isso teve efeito e o "fator corona" foi apagado. O país voltou a se abrir pouco antes da eleição, voltamos a ter turismo, abrir a economia. A vacinação neutralizou o impacto da pandemia na eleição.

 

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