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A velhice acolhe Berlusconi

PARIS - Silvio Berlusconi inaugura uma nova etapa na sua vida agitada, rocambolesca, estapafúrdia e, por vezes, degradante. Esse homem que imantou a vida da Itália, ora com suas façanhas como empresário, ora com suas acrobacias de homem político, ora, enfim, com suas proezas erótico-sentimentais, agora vai cuidar de idosos, por decisão da Justiça, numa casa de repouso perto de Milão. Berlusconi suplicou para esta vergonha lhe ser poupada, certamente em vão.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2014 | 03h45

Foi por "fraude fiscal" que a Justiça o condenou a "trabalhos de interesse geral". É melhor que a prisão, com certeza, mas que crueldade! Pessoas sofredoras serão as próximas imagens do homem extravagante e cheio de empáfia que o mundo inteiro adorava e detestava: a silhueta de um velho (Berlusconi com 77 anos) cuidando de idosos mais decrépitos do que ele.

Será que ele tem em mente alguma ação política? Berlusconi foi privado de seu mandato de senador, mas, em teoria, ainda saracoteia à frente de seu partido, Força Itália. Infelizmente, o Força Itália não está se portando melhor que seu criador. Os companheiros que se prostravam diante do "Cavaliere" na época de seu esplendor, fogem dele como da peste. Seu querido Renato Schifani abandonou o Força Itália para ingressar no partido Nova Centro-Direita, que outro "amigo íntimo" de Berlusconi acaba de fundar. Há alguns dias, o porta-voz emblemático do Força Itália, Paolo Bonaiuti, abandonou o navio naufragado.

Berlusconi ainda pretende apresentar listas na próxima eleição europeia. Mas, também lá, uma espécie de "humor negro" empesta suas iniciativas. Tendo percebido que uma parte da população italiana é idosa e 8 milhões de italianos possuem um animal doméstico, o engenhoso Berlusconi pretende, segundo o jornal La Stampa, lançar duas promessas eleitorais fulgurantes: ele se empenhará em reembolsar as dentaduras das pessoas com mais de 60 anos e organizará visitas gratuitas aos veterinários para os economicamente carentes.

Decididamente, estamos longe das orgias sexuais que o Cavaliere, o rosto besuntado por seu creme da juventude, oferecia a mocinhas pouco vestidas na sua luxuosa villa de Arcore, perto de Milão. Mas, em breve, a Justiça vai lhe permitir aspirar uma última vez o perfume daquelas noites loucas, pois vai julgá-lo por "prostituição de menores" no caso conhecido como Rubygate (derivado do nome de uma senhorita que frequentava as noitadas).

Apanhado na armadilha, Berlusconi se debate. Traído pelos seus, ele procurou se reaproximar do "homem forte" da península, Matteo Renzi, o novo chefe do governo italiano. Renzi é o chefe do Partido Democrático, bem distante da direita. No entanto, Berlusconi é um pragmático e ignora as nuances entre direita e esquerda sempre que isso lhe convém. Logo, ele percebeu que Renzi é duro: jovem, fogoso, eloquente, ele desencorajou Berlusconi.

Um de seus raros fiéis explicou que Berlusconi "não sabe mais como se comportar com Renzi". "Ele compreendeu que o abraço mortal de Renzi está nos destruindo, mas não sabe como se desvencilhar dele." Mais um símbolo desse triste ocaso de vida: o velho que vai cuidar dos idosos num asilo da periferia de Milão tenta beber "um elixir da juventude" associando-se ao político mais jovem e mais brilhante da Itália, mas a transfusão de sangue fresco não funciona. Só permite perceber que Silvio Berlusconi, o eterno jovem, é agora um velho eterno.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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