A venda da privacidade

Escândalo atual expõe o imenso mercado de compra de informações pessoais que existe na Grã-Bretanha

Christopher Graham, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2011 | 00h00

Jornalistas adoram falar de si mesmos e de seu ofício. Eu sei. Durante 25 anos, fui um deles. Mas o comércio ilegal de dados pessoais por jornalistas de tabloides é só parte de um problema maior. Em 2009, revelou-se que vários empregados da (fabricante e operadora de celulares) T-Mobile vendiam dados de contratos da companhia a concorrentes. Renovei então o pedido de Richard Thomas, meu antecessor como comissário de informação da Grã-Bretanha, por um elemento de dissuasão contra as violações: uma pena de prisão. A imprensa se irritou. Fui acusado de ameaçar jornalistas com a prisão e colocar em risco o jornalismo investigativo.

 

 

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Na conferência da Sociedade de Editores daquele outono, disse aos delegados: "Não se trata de vocês." O problema é que as evidências mais espetaculares que tivemos do comércio ilegal envolveram jornalistas: 305 de 32 jornais e revistas. Eles eram os clientes de Steve Whittamore, detetive cuja clientela foi exposta quando o Escritório do Comissário da Informação (ICO, na sigla em inglês) interferiu em 2003.

Os jornalistas de tabloides certamente foram alguns dos usuários de informações obtidas ilegalmente. Mas somente alguns. O problema envolve, na verdade, um elenco muito maior - de advogados, empresas de administração de reclamações, investigadores privados e golpistas, para nomear alguns.

E quanto aos traficantes? Os que abusam de sua posição de administrar os milhões de bits de dados pessoais que fornecemos a provedores de serviços toda vez que compramos alguma coisa de um site, usamos um celular, nos registramos para operações bancárias via internet, marcamos hora com nosso médico - ou fazemos qualquer outra coisa online. E o que não é online, hoje em dia? Toda semana vejo violações de dados envolvendo conselhos municipais, cirurgiões, companhias telefônicas e assim por diante. Às vezes, é descuido - um funcionário pressionado sendo enganado para fornecer informações à pessoa errada. Outras é deliberado: empregados transgressores fazendo mais do que um bico para complementar um salário baixo.

Existe um mercado imenso para informações pessoais. Os jornalistas de tabloides pagarão por um telefone quando estiverem perto do prazo de fechamento, ou por informações mais sensíveis quando se investigam um escândalo (seja um público, envolvendo políticos, ou privado, sobre quem está dormindo com quem). Da mesma forma, o detetive ou advogado pagará por informações que poderão servir a um propósito sórdido. Advogados que só recebem quando ganham causas estão sempre em busca de casos bons e ruins. Afinal, o mérito é uma questão de julgamento.

É simples obter informações de um cirurgião. "Alô, eu sou o senhor Fulano de Tal. É sobre aqueles meus exames." Nunca falha. Armado com parte da história, um investigador habilidoso consegue obter o resto. Consegue o endereço, o telefone e os números de amigos e familiares.

Repassar informações de pessoas não parece tão terrível - um crime sem vítimas, não pior do que surripiar artigos de escritório da repartição ou fazer telefonemas interurbanos do trabalho. Mas os resultados das violações - fraudar identidade, prejudicar financeiramente, intimidação, assédio sexual, manipulação de testemunhas, aplicação de golpes - produzem vítimas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COMISSÁRIO DA INFORMAÇÃO

DA GRÃ-BRETANHA

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