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A Venezuela de salto alto

Na quinta-feira, a Venezuela parou. Não foi mais um dos apagões que habitualmente deixam o país às escuras. Nem mesmo a apócrifa reaparição do falecido líder Hugo Chávez, que teria voltado do além túmulo outro dia para frenesi geral. Nada tão fugaz.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2013 | 02h04

O que mesmerizou essa nação de 29 milhões foi a 61.º edição do concurso Miss Venezuela. Todas as televisões do país sintonizaram a peleja que coroou rainha Migbelis Castellanos, levando às lágrimas a formosa loira de olhos verdes, assim com as 26 empresas que patrocinaram a festa.

Esqueça-se do presidente Nicolás Maduro, o acidentado mandatário que parece tão empenhado em levar o país ao título de nação falida. Deixe quieto o falecido comandante Chávez, que escapou pela porta do mausoléu do debacle que se tornou seu experimento de socialismo para o século 21. Se é que a marca da revolução bolivariana tenha salvação, seu nome é Osmel Sousa.

Cubano, ele já é. Chegou à Venezuela em 1959, fugindo de uma revolução para provocar outra. Miss Venezuela existe desde 1952, mas foi na mão desse designer, hoje com 66 anos, que o espetáculo desabrochou. A indústria venezuelana pode estar em pane, mas sua "fábrica" de beldades se tornou padrão global de eficiência, requinte e produtividade. Miss Universo, Miss World, Miss International e Miss Earth. Nos quatro concursos internacionais, as venezuelanas são recordistas, com 19 tiaras.

É o estilo empreendedor de que o chavismo tanto carece. Como todo visionário, Osmel sabe que sucesso não é fruto de quem explora apenas a bonança dos recursos primários. "Esse não é um concurso de natureza nem de naturalidade. É um concurso de beleza, em que há de recorrer ao que for necessário para que a mulher seja bela ou mais bela do que é", diz Osmel, um defensor sem pudor do bisturi e de todos os acessórios da estética moderna.

Sabe também que o palco é um campo de batalha onde - atenção milícias bolivarianas - a disciplina e devoção são tudo. "Somos militares de salto alto", gaba-se sua discípula, María Veliz, a miss de 2009, que hoje comanda um spa de aperfeiçoamento.

Ressuscitar o espetáculo bolivariano requer mais do que tropas adestradas e uma bela parada. Com 20 mil assassinatos por ano, a violência ofusca o restante. Semana passada, a inflação anual quase chegou a 70%, beirando o descontrole. Para combater a escassez crônica de produtos básicos, o governo resolveu punir os ansiosos consumidores, taxando-os de "especuladores" e "corruptos". Na dúvida, mandou importar mantimentos da Colômbia.

Para quem ficou na mão, um dos recursos mais procurados no país é uma aplicativo que permite aos usuários de smartphones identificarem os supermercados que ainda possuem estoques de papel higiênico. Quando os jornais noticiaram esse e outros tropeços do desfile bolivariano, o governo ameaçou as editoras com o racionamento de bobinas de papel importado.

Como nada disso tem surtido efeito, Maduro acabou recorrendo ao armário chavista. Semana passada, foi à Assembleia Nacional pedir "poderes especiais" para enfrentar os corruptos e aproveitadores da hora. Falta-lhe um voto para alcançar os três quintos do Parlamento necessários para aprovar a medida.

Para a oposição, será mais um prego no caixão de liberdades venezuelanas. Pode até ser, mas o dano é relativo em um país em que o governo, desde os primórdios do chavismo, especializa-se em cassar os direitos básicos da vida democrática para redistribuí-los, um a um, como prêmios e privilégios aos devotos. Assim é o grande concurso da revolução bolivariana, que há 14 anos insiste no retrato de um país que o espelho já não reflete. Chega de feiura amadora. Osmel Sousa para comandante!

É COLUNISTA DO 'ESTADO',

CORRESPONDENTE DA REVISTA 'NEWSWEEK' E EDITA O SITE

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