A Venezuela depois de Chávez

Qualquer que seja o desfecho, o país se manterá como uma sociedade polarizada e o chavismo continuará competindo na política

O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2013 | 02h06

"Somos a vil progênie dos predadores espanhóis que vieram para a América para sangrá-la até desbotar sua cor e para devorar suas vítimas", escreveu em 1826 o Libertador Simón Bolívar sobre seu sonho de uma Gran-Colômbia, na qual se uniriam as novas repúblicas sul-americanas, que sucumbiam às rivalidades e às intrigas dos caudilhos em luta pelo poder. "Mais tarde, os filhos ilegítimos destas uniões acasalaram-se com os filhos de escravos trazidos de África. Com tal mescla racial e esta bagagem moral, acaso poderemos pôr as leis acima dos líderes e os princípios acima dos homens?"

Uma longa série de ditadores usou o culto a Bolívar para mascarar e disfarçar as cruas arestas da sociedade venezuelana. O primeiro deles foi José Antonio Páez, o senhor da guerra das planícies do Sul que tirou o Libertador do governo da Venezuela e mais tarde trouxe da Colômbia os restos mortais de Bolívar para Caracas, em 1842. Posteriormente, vários ditadores - Antonio Guzmán Blanco, nos anos 1870 e 1880, Juan Vicente Gómez (1908-35) e Marcos Pérez Jiménez (1948-58) - acreditaram ser a encarnação do espírito de Bolívar. Desde sua primeira eleição, em 1998, Hugo Chávez levou ao extremo esse culto, e rebatizou o país com o nome de República Bolivariana da Venezuela. Chávez não chegou a se proclamar a reencarnação de Bolívar, que era um descendente da aristocracia branca crioula. No entanto, Chávez declarou certa semelhança, anunciando que ambos eram zambos (cafuzos), mistura de negro com índio.

"Bolívar não era branco", decretou Chávez. E, no carnaval de 2006, determinou que a petrolífera estatal Petróleos de Venezuela S/A pagasse US$ 450 mil a uma escola de samba do Rio para que montasse um carro alegórico que homenageasse Bolívar com uma imagem de 12 metros do Libertador. "Bolívar nasceu entre os negros, era mais negro do que branco. Não tinha olhos verdes. Bolívar era cafuzo." O regime até mesmo se encarregou de falsear imagens de Bolívar a fim de mostrá-lo com características de zambo. Segundo a antropóloga Patricia Márquez, os pobres apoiaram Chávez porque era "um deles", um oficial do Exército de pele escura da aldeia de Sabaneta de Barina, onde as colinas meridionais dos Andes descem até as vastas savanas que constituem a fronteira muitas vezes violenta com a Colômbia.

Especulações. Hoje, enquanto Chávez se encontra muito doente em Havana depois de sua quarta cirurgia para a retirada de tumores recorrentes no abdome, especula-se sobre a possibilidade de seu possível regresso a Caracas para prestar juramento e dar início a um novo mandato presidencial, contrariando as advertências dos médicos segundo os quais ele não sobreviveria à viagem. O colunista Nelson Bocaranda, do jornal de Caracas El Universal, que violou o sigilo oficial e divulgou os problemas de saúde de Chávez, descreveu a situação do presidente como "estável com tendência a melhorar num quadro de extrema gravidade", depois de sofrer um enfarte e receber a extrema unção de um capelão militar venezuelano em dezembro.

Bocaranda noticiara anteriormente que "um câncer que começou na região pélvica espalhou-se para os ossos, pâncreas e rins nos 18 meses após sua primeira cirurgia, em junho de 2011".

O talento de Chávez de motivar psicologicamente seus seguidores não encontra eco entre seus assessores mais próximos, que se reuniram em Havana com o alto comando da Revolução Cubana nos dias que antecederam a posse programada para o dia 10 de janeiro a fim de decidir o que fariam a seguir. O vice-presidente venezuelano, Nicolás Maduro, esteve pelo menos cinco vezes com o presidente cubano, Raúl Castro, e com o vice-presidente Ramiro Valdés, que durante muitos anos chefiou o aparato de segurança do regime castrista.

Valdés supervisiona atualmente grande parte dos 40 mil cubanos enviados à Venezuela: médicos, treinadores, especialistas em planejamento, assessores militares e agentes da inteligência, muitos dos quais passaram a atuar nas Forças Armadas venezuelanas, nos ministérios do Exterior e das Finanças, nos portos, na grade de eletricidade, no banco central e no Departamento de Inteligência do país. Os cubanos obtiveram ainda contratos para confeccionar passaportes e carteiras de identidade eletrônicos que contêm os dados pessoais de 30 milhões de venezuelanos. Muitos dos serviços prestados pelo governo cubano são pagos em dinheiro vivo e em espécie, em troca de mais de 100 mil barris diários de petróleo bruto venezuelano vendidos a Cuba a preços extremamente favorecidos, o que salvou do colapso a economia socialista de Cuba, que afundava a níveis de mera subsistência.

'Cubanização'. Embora os venezuelanos se oponham abertamente à "cubanização", como mostram várias pesquisas de opinião, a questão permaneceu latente até que Maduro e outros entre os principais partidários de Chávez foram para Havana, no início de janeiro, para deliberar com a liderança cubana sobre o que fazer com a questão da posse de Chávez.

A Suprema Corte, então, anunciou que Chávez não precisaria prestar um juramento formal, pois ganhara as eleições em outubro garantindo um novo mandato, e poderia convalescer indefinidamente fora da Venezuela. Mas a série de reuniões sobre a crise venezuelana em Cuba, em dezembro e janeiro, entre os partidários de Chávez e os principais expoentes do regime de Castro, provocou acusações por parte dos líderes da oposição, segundo os quais a capital operacional da Venezuela fora transferida de Caracas para Havana.

A ideia de uma incipiente "Cubazuela" é uma questão sensível, principalmente entre os militares venezuelanos, apesar dos expurgos entre as altas patentes com a finalidade de afastar os que consideram ofensiva a interferência cubana na liderança das Forças Armadas. Na confusão cada vez maior, não podemos esquecer de que a tendência à conspiração está no DNA dos militares venezuelanos. O melhor exemplo disso é a carreira de Chávez, conspirador em série desde a época em que era um jovem oficial na década de 70, até liderar um golpe fracassado em 1992, graças ao qual começou sua ascendência política.

Praticamente todas as mudanças na estrutura política da Venezuela nas últimas sete décadas - em 1945, 1948, 1958 e 1992, em que o país passava abruptamente da ditadura para democracia e vice-versa - foram precipitadas por levantes militares. Segundo um provérbio inspirado nessas experiências, lembrado ainda hoje, o próximo golpe será liderado por jovens oficiais ou sargentos que não são conhecidos pelo establishment.

Qualquer que seja o resultado imediato, no futuro previsível a Venezuela continuará sendo uma sociedade polarizada e o chavismo continuará competindo na política venezuelana, assim como o peronismo persiste como força vital na Argentina, 70 anos depois da derrubada de Juan Domingo Perón, em 1955.

No entanto, a Venezuela agora está ameaçada por uma grave inflação, por ter gasto US$ 1 trilhão, na maior parte de suas receitas petrolíferas e empréstimos, desde que Chávez assumiu a presidência, há 14 anos. A inflação ao consumidor, apesar dos controles dos preços e dos amplos subsídios às importações, deverá superar consideravelmente a taxa anual oficial de 20%. As estimativas do déficit fiscal chegaram a 17% do Produto Interno Bruto (PIB), além do problema das enormes verbas extraorçamentárias acessíveis apenas a Chávez e a seus assessores mais próximos. Até Chávez voltar a Cuba, em dezembro, para a sua última cirurgia, as autoridades planejavam uma ampla desvalorização da moeda, enquanto o câmbio paralelo para os escassos dólares hoje é quase quatro vezes a taxa oficial.

Até o momento, a Venezuela se salvou do colapso econômico graças à alta dos preços do petróleo da última década. Embora possua as maiores reservas mundiais, a produção petrolífera caiu de 3,2 milhões de barris diários, em 1998, para 2,4 milhões hoje, em razão da politização, má administração e corrupção do setor petrolífero do país controlado pelo Estado.

A PDVSA criou oito novas subsidiárias entrando no ramo da construção de imóveis residenciais e na produção, importação e distribuição de alimentos, o que contribuiu para expandir sua folha de pagamento de 39 mil para 115 mil funcionários desde 2002, apesar da demissão de 22 mil, até mesmo dos níveis técnico e administrativo, que entraram em greve em 2002 em protesto contra a politização da PDVSA.

A Venezuela tornou-se um dos maiores importadores de gasolina e diesel dos Estados Unidos depois de uma série de graves incidentes em suas refinarias e outras instalações, atribuídos à manutenção mal feita, que também é relacionada aos apagões crônicos em todo o país. O principal sintoma de perturbação social é a epidemia de assassinatos e sequestros, que tornaram Caracas uma das cidades mais perigosas do mundo, onde a taxa nacional de homicídios triplicou desde 1998, para mais de 50 por 100 mil habitantes.

Mas a Venezuela não está totalmente em ruínas. O país ainda produz atletas fantásticos, rainhas de beleza, uma orquestra sinfônica de jovens (Sistema) aplaudida internacionalmente, financiada pelo governo, e até o novo presidente do MIT, Rafael Reif. Entretanto, o lamentável disso tudo é que nos anos 70 e 80 ela se tornara um polo de democracia estável numa região que na época era assolada pelas ditaduras militares.

Agora, a Venezuela tornou-se um alerta para o restante da América Latina quanto ao custo da degradação e do fracasso de instituições públicas. A história da Venezuela mostra os efeitos do aumento das receitas petrolíferas em instituições fracas, agravados pela rápida urbanização. Quando Chávez se for, a Venezuela continuará assoberbada pela pobreza e pelos conflitos, enquanto não forem criadas iniciativas coerentes no longo prazo para vencer a desordem e a polarização. Por enquanto, a economia está em frangalhos enquanto muitos dos sucessores em potencial, civis ou militares, competem para assumir um legado duvidoso. Parte deste legado consiste na fragmentação das tendências democráticas na América Latina entre regimes populistas que exploram instituições frágeis - como na Venezuela, Bolívia, Argentina e Equador - e repúblicas mais cautelosas - como Chile, Peru, Colômbia e México - que lutam pela estabilidade, o crescimento e a justiça social por meio de um engajamento mais profundo na economia mundial. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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