A Venezuela e a região

Grisalho, meio calvo e sessentão, Guillermo Cochez não tem perfil de homem-bomba. No entanto, sua fala, na quarta-feira, na Organização dos Estados Americanos (OEA), dificilmente escapa da definição de um atentado suicida. Sem dúvida, o advogado e político panamenho - até a semana passada embaixador do Panamá na OEA - desconfiava do alvoroço que provocaria e, em consequência, temia sua própria demissão. Entretanto, quando pediu a palavra para falar sobre a crise da democracia na América Latina, sentiu uma onda de mal estar que tomou conta da região.

É COLUNISTA DO ESTADO, , CORRESPONDENTE DA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS, MAC MARGOLIS, É COLUNISTA DO ESTADO, , CORRESPONDENTE DA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS, MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2013 | 02h06

Durou apenas oito minutos, um piscar de olhos na interminável assembleia de quase quatro horas, mas sua intervenção, firme e pausada, não só sacudiu o salão nobre da sede da OEA, em Washington, como também eletrificou as manchetes de Toronto a Santiago.

Do que adianta fazer juras aos princípios democráticos, afirmou Cochez, se não as seguimos nem defendemos democracia? Uma mistura de desabafo e réquiem, Cochez lamentou o abandono da Carta Democrática Interamericana - outrora, "razão de ser" da OEA, organização hoje "violentada diariamente por alguns que estão aqui representados".

Ele culpou os países-membros que, para preservar seus "interesses econômicos", fazem vista grossa à violação das práticas democráticas enquanto outros até a comemoram.

Colchez pronunciou apenas uma vez o nome de seu país-alvo e falou discretamente da doença de "seu líder". No entanto, ao bom entendedor latino-americano, meia patada basta. Naquele mesmo dia, afinal, a cúpula do governo postiço venezuelano, que assumiu o país sem que tenha sido empossado, anunciara seu novo ministro das Relações Exteriores, Elías Jaua. Inovaram os chavistas no seu drible à democracia constitucional ao alegar que o próprio presidente, Hugo Chávez, teria feito a indicação, lá de seu leito hospitalar em Havana. Logo ele, de quem não se sabe nada, nem se está vivo ou morto, muito menos se voltará algum dia para Caracas.

Cochez falou da vulgarização da democracia, lembrando o caso do ditador Alfredo Stroessner, o generalíssimo paraguaio, que insistiu em se chamar de democrata por ter vencido oito vezes as eleições presidenciais e ainda convivido com o Parlamento e a Justiça do Paraguai. "É a democracia de alguns contra a democracia dos outros", declarou Cochez.

Quem passou recibo foi o embaixador venezuelano, Roy Chaderton Matos, que, em sua réplica virulenta, tomou o triplo do tempo de seu adversário panamenho e, mesmo assim, não respondeu a nenhum dos pontos-chave do debate. Em vez de defender a democracia e a constitucionalidade venezuelana, Matos apelou para o melhor estilo de bullying do recreio escolar. Chamou Cochez de "ignorante" e "tosco", acusou-o de falta de "colhões". Disse que se preparava em artes marciais para enfrentá-lo no braço. Por fim, chamou o panamenho - que o recebera em sua casa, em Washington, para uma exposição de pinturas - de "péssimo pintor".

Foi um espetáculo patético. No entanto, de certa forma, apropriado para um fórum que há muito tempo se presta a arroubos ideológicos e a declarações anódinas. A OEA acaba de convalidar todo o rito enviesado da sucessão venezuelana, ou seja, a posse do "povo" no lugar da do presidente, o líder ausente, mas milagrosamente no comando - a cúpula que governa sem ter sido eleita.

"Se é para não fazer nada contra essa violação potencial de claros preceitos da Carta Democrática", concluiu Cochez, "sugiro que busquemos encerrar, de forma ordeira e para sempre, essa organização."

Foi sua última fala como embaixador. No mesmo dia, foi desautorizado pelo governo panamenho e, no dia seguinte, demitido do cargo. Assim é quando se transforma um túnel de vento, que é a OEA, em um fórum de debate real, o que ela já foi um dia. Cochez não se arrepende. "Defender a democracia pode ser custoso", disse ele ao Estado. "Mas só que mais custoso ainda é deixá-la como está."

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