A Venezuela sem Chávez

Diminuição da produção de petróleo tende a limitar papel de Maduro como líder regional

WHITNEY, EULICH, CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2014 | 02h04

Os latino-americanos ou amavam ou odiavam Hugo Chávez. Em se tratando do presidente venezuelano, não havia um meio termo. Mas, quando sua morte foi anunciada, em março, depois de semanas de rumores sobre seu estado de saúde, as Américas se uniram momentaneamente questionando o que poderia ocorrer na nação andina economicamente atribulada e numa região onde Chávez, durante 14 anos, foi o representante da política de esquerda.

Chávez irrompeu no cenário político em 1992, com um golpe de Estado fracassado, e foi eleito presidente em 1998. Em 2000, lançou o seu "socialismo do século 21", utilizando as enormes reservas de petróleo do país para consolidar o programa social que se tornou a pedra angular do seu governo. Isso o transformou no herói de uma população por longo tempo ignorada, mas um demônio esbanjador dos recursos aos olhos das classes mais altas.

Uma figura política peculiar com petrodólares para gastar dentro do seu país e no exterior, Chávez possuía o carisma para governar uma nação dividida, acossada pela violência crescente e uma inflação cada vez mais alta. Com sua morte, o movimento de esquerda na região perdeu seu centro de gravidade econômico e ideológico. Não está ainda claro se o sucessor escolhido por Chávez, Nicolás Maduro, conseguirá assumir a incumbência.

Eleito em abril por menos de dois pontos porcentuais numa eleição contestada, Maduro tem se apoiado muito na evocação de lembranças de Chávez. Analistas especulam que essa tem sido uma tentativa de ocultar a falta de capacidades que seu predecessor tinha em abundância, como carisma, instinto político e, talvez, o mais importante, dinheiro do petróleo.

A produção anual diminuiu drasticamente durante o governo de Chávez e as exportações caíram à metade num país em que o petróleo representa 95% das receitas. Ao contrário de outros movimentos políticos duradouros, como o peronismo na Argentina, o chavismo não se institucionalizou da maneira que muitos esperavam com a morte de Chávez.

A economia venezuelana entrou numa fase cada vez mais atribulada, com uma escassez crônica de produtos de primeira necessidade, um déficit orçamentário cada vez maior e uma inflação que alcança os 54% - a maior numa década.

Segundo alguns analistas, se as condições não melhorarem, a Venezuela poderá enfrentar revoltas violentas. No plano regional, a emblemática aliança da Petrocaribe - em que a Venezuela fornece petróleo para 17 nações aliadas do Caribe e da América Latina em condições preferenciais - já mostra sinais de hesitação.

Apesar das promessas feitas pelo governo de que a aliança persistirá, a Guatemala anunciou sua saída do grupo pelos custos elevados. A Venezuela, silenciosamente, já reduziu a quantidade de petróleo que envia para outros países e há rumores de que o governo pensa em modificar as condições de pagamento. Essas medidas afetarão profundamente os pequenos países habituados a escorar suas economias com o petróleo venezuelano barato.

Quem assumiria a vaga de Chávez como líder regional? Alguns apontam para a presidente Dilma Rousseff como alguém a ser observado. Ela demonstrou destemor ao enfrentar os EUA na questão envolvendo espionagem realizada pela Agência de Segurança Nacional americana, e tem mantido um diálogo com os diversos líderes de toda a região. Mas, até agora, Dilma não mostrou nenhum interesse em assumir tal papel. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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