A verdade inconveniente afegã

Recentes retrocessos no Afeganistão - da queda de Kunduz ao erro do bombardeio americano que atingiu um hospital na mesma cidade - trazem novamente a pergunta: por que, após 14 anos de esforços militares americanos, a situação continua tão frágil? O Afeganistão tem um governo democraticamente eleito visto por todos como legítimo. Seguidas pesquisas de opinião indicam que o Taleban é impopular. O exército afegão luta com bravura e lealdade. Ainda assim, o Taleban sempre ressurge.

FAREED ZAKARIA, THE WASHINGTON POST

12 Outubro 2015 | 02h03

A resposta pode ser encontrada num perfil do novo líder do grupo, Akhtar Mohamed Mansour. Sua casa fica em Quetta, onde passa parte do tempo, de acordo com o New York Times, "num enclave onde ele e outros líderes do Taleban construíram seus lares". O antecessor dele, Mulá Omar, morreu em Karachi há dois anos, como sabemos agora. E todos nos lembramos que Osama bin Laden viveu por muitos anos num complexo em Abbottabad. As três cidades ficam no Paquistão.

Não podemos solucionar o problema do Afeganistão sem reconhecer que a insurgência contra o governo é moldada, auxiliada e armada do outro lado da fronteira por um dos exércitos mais poderosos do mundo. Periodicamente, alguém dentro ou fora do governo americano aponta esse fato. Mas ninguém parece saber ao certo o que fazer e o tema é varrido para baixo do tapete. Não se trata de coincidência. O elo é fundamental e, se não for confrontado, o Taleban jamais será derrotado. Sabemos que nenhuma campanha de combate à insurgência teve sucesso enquanto os rebeldes dispusessem de refúgio. Nesse caso, têm um patrocinador armado com bombas nucleares.

O Paquistão se tornou mestre na arte de fingir ajudar os EUA enquanto oferece apoio a seus adversários mais mortíferos. Tomemos como exemplo os esforços recentes americanos para começar um diálogo com o Taleban. Estávamos falando com fantasmas. Mulá Omar já estava morto quando autoridades paquistanesas facilitavam "contato" e "negociações" com ele. Tudo isso faz parte do padrão de comportamento. Autoridades do Paquistão, do ex-presidente Pervez Musharraf até o fim da hierarquia, negaram categoricamente que Bin Laden ou Omar estivessem no país - apesar do ex-presidente afegão, Hamid Karzai, ter afirmado isso publicamente várias vezes.

O exército paquistanês tem sido descrito como "padrinho" do Taleban. Talvez isso não dê conta de descrever sua influência. O Paquistão serviu como base dos mujahedin apoiados pelos EUA que combateram a URSS nos anos 80. Depois que a URSS se retirou do Afeganistão em 1989, os EUA também se retiraram com igual rapidez, e o Paquistão se inseriu nesse vácuo. O país promoveu o Taleban, grupo de jovens jihadistas pashtuns que aprenderam o islamismo radical nas madrassas paquistanesas. Agora a história está se repetindo. Conforme os EUA tentam reduzir a presença de suas forças, o Paquistão tenta novamente expandir sua influência.

Por que o Paquistão apoia o Taleban? O ex-embaixador do Paquistão nos EUA, Husain Haqqani, cujo livro Magnificent Delusions é guia essencial, explica que o "Paquistão sempre temeu que, na ordem natural, o Afeganistão ficasse sob influência da Índia, gigante do subcontinente. O Exército paquistanês passou a crer que só seria possível exercer influência no Afeganistão por meio de fanáticos religiosos".

O que os EUA devem fazer? Primeiro, diz Haqqani, precisam abrir os olhos para a realidade. "Quando desmascaramos uma mentira e não respondemos à altura, estamos incentivando novas mentiras". Ele defende que Washington precisa endurecer o discurso diante do Exército paquistanês e deixar claro que a duplicidade nas negociações precisa acabar. Isso seria bom para o Afeganistão e para a estabilidade da região, mas também seria bom para o Paquistão.

O Paquistão é uma bomba-relógio esperando para explodir. Sua economia é a 43.ª maior do mundo, de acordo com o Banco Mundial, mas o Exército do país é o sexto maior do planeta. Seu arsenal nuclear é o que cresce mais rapidamente e o que apresenta menos transparência. O país mantém elos com alguns dos terroristas mais brutais do mundo. Seu Exército consome 26% de toda a arrecadação fiscal, de acordo com certas estimativas, enquanto o país tem 5,5 milhões de crianças fora das escolas - segunda maior população mundial. Enquanto esse Exército e sua mentalidade não forem confrontados e reformados, os EUA enfrentarão um colapso estratégico ao retirar suas forças da região./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

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