A verdade, nada além da verdade

Mentiras têm sido contadas, mas é hora de Obama explicar o que é mesmo necessário para tirar os EUA da estagnação

Thomas L. Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2011 | 00h00

Kishore Mahbubani, ex-diplomata de Cingapura, publicou um provocante ensaio na edição de segunda-feira do Financial Times, que começava mais ou menos assim:

"Os ditadores estão caindo. As democracias estão ruindo. Uma curiosa coincidência? Ou será, talvez, um sinal de que algo de fundamental foi alterado nas engrenagens da história humana? Acredito nesta possibilidade. Como os ditadores sobrevivem? Contando mentiras. Muamar Kadafi foi um dos maiores mentirosos de todos os tempos. Ele afirmava que seu povo o amava. Ele também controlava o fluxo das informações que chegavam ao seu povo para evitar que qualquer outra narrativa fosse contada. Então, algo tão simples quanto o celular permitiu que as pessoas se comunicassem. A verdade espalhou-se rapidamente para afogar todas as mentiras que o coronel transmitia pelas emissoras. Mas por que as democracias estão ruindo neste mesmo momento? A resposta simples: também as democracias andaram contando mentiras".

Mahbubani destacou que "o projeto da zona do euro foi criado com base numa grande mentira", segundo a qual os países poderiam manter ao mesmo tempo uma união monetária e a independência fiscal - sem nenhum sofrimento. Enquanto isso, nos Estados Unidos, acrescentou Mahbubani, agora coordenador da Faculdade de Políticas Públicas Lee Kuan Yew da Universidade Nacional de Cingapura, "nenhum líder americano tem a coragem de dizer a verdade a seu povo. Todos os seus pronunciamentos têm como base a suposição de que a "recuperação" está próxima.

Implicitamente, estão dizendo que esta não passa de uma recessão normal. Mas as coisas não são assim. Não haverá solução indolor. Será necessário fazer "sacrifícios", e o povo americano sabe disso. Mas nenhum político americano ousa enunciar a palavra "sacrifício". Verdades dolorosas não podem ser ditas".

É claro que existe uma grande diferença entre os EUA e a Líbia. Podemos expulsar nossos mentirosos pelo voto, diferentemente do que ocorre em certos países árabes - e asiáticos.

Ainda assim, a comparação feita por Mahbubani é merecedora de certa reflexão esta semana, que coincide com o 10.º aniversário do 11/9 e o discurso do presidente Barack Obama sobre o desemprego. Trata-se de uma excelente semana para se dizer algumas verdades.

Quem consegue se lembrar da última vez em que um líder dos EUA olhou o povo americano nos olhos e disse-lhe que não há solução fácil para seus principais problemas, que chegamos a este ponto lamentável porque fomos indulgentes ou ideologicamente obcecados por mais de duas décadas e agora precisamos passar os próximos cinco anos arregaçando as mangas e compensando nossos excessos por meio do trabalho, possivelmente aceitando um padrão de vida inferior?

Mensagem. Para mim, esta é a mensagem mais importante a ser transmitida tanto no aniversário do 11/9 quanto na véspera do discurso de Obama sobre o desemprego. Afinal, uma coisa está entrelaçada à outra.

Por que esta foi uma década perdida? Uma resposta pode ser encontrada numa comparação simples: a forma como a Guerra Fria foi usada por Dwight Eisenhower e seus sucessores e a forma como o 11/9 foi usado por George W. Bush. Os EUA tinham de enfrentar os russos na Guerra Fria. Os EUA tinham de responder ao 11/9 e à ameaça da Al-Qaeda. Mas a grande diferença entre estes dois momentos foi a seguinte: a partir da presidência de Eisenhower e prosseguindo num certo nível com cada governo da Guerra Fria, os americanos usaram a Guerra Fria e a ameaça dos russos como uma razão e um fator de motivação para realizar grandes e árduos feitos nos EUA - envolvendo-se num esforço doméstico de construção nacional.

Bush fez o oposto. Ele usou o 11/9 como pretexto para reduzir os impostos, dar início a duas guerras que - pela primeira vez na história americana - não foram financiadas pelo aumento nos impostos, e para criar uma caríssima cláusula concedendo aos cidadãos atendidos pelo Medicare auxílio para comprar remédios controlados.

Imagine como estaríamos se, na

manhã do 12/9, Bush tivesse anunciado (como foi defendido por alguns de nós) um "Imposto Patriótico" de US$ 0,25 por litro de gasolina para pagar o custo da educação, da infraestrutura e das pesquisas do governo, para ajudar a financiar as guerras e reduzir nossa dependência em relação ao petróleo do Oriente Médio. Em 11 de setembro de 2001, o litro da gasolina custava em média US$ 0,41 nos EUA.

Mas, em vez de usar o 11/9 para convocar os americanos a se envolverem num esforço de construção nacional, Bush usou o momento como um pretexto para festejar - acelerando a adoção de uma pauta de cortes agressivos nos impostos pagos pelos mais ricos que, além de prejudicar o padrão de vida da maioria dos americanos, ainda nos deixou agora com imensos grilhões ao redor dos tornozelos. E, posteriormente, em lugar de pedir a cada americano que fizesse uma contribuição para a guerra, ele a terceirizou para 0,5% do povo americano. Quanto aos demais - podem se divertir à vontade.

Usamos a Guerra Fria para alcançar a Lua e criar novas indústrias. Usamos o 11/9 para criar máquinas de raio X mais poderosas nos aeroportos. Esta será lembrada como uma das maiores oportunidades desperdiçadas por uma presidência - em todos os tempos.

Torço muito para que, na quinta-feira, Obama dê o exemplo e conte a verdade como ela é, difícil e dura. Enquanto as soluções difíceis não forem colocadas na mesa, será o nosso lento declínio nacional que continuará nessa mesma mesa. Ao menos uma vez, senhor presidente, vamos abrir um debate contando a verdade. Diga-nos aquilo que você realmente acha que será necessário para nos tirar desta estagnação, qual o tipo de esforço coletivo necessário e por que isso poderá nos levar não apenas à superação deste momento difícil e sim à restauração da grandeza americana. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA E ESCRITOR

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