A verdade sobre a ajuda humanitária

Relatório é usado como argumento para cortar auxílio

É FUNDADOR DA MICROSOFT, COPRESIDENTE DA FUNDAÇÃO BILL & MELINDA GATES, BILL, GATES, THE NEW YORK TIMES, É FUNDADOR DA MICROSOFT, COPRESIDENTE DA FUNDAÇÃO BILL & MELINDA GATES, BILL, GATES, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2012 | 03h04

Na semana passada, as organizações Oxfam e Save the Children divulgaram relatório em que afirmam que a ajuda de emergência para o Chifre da África chegou com meses de atraso, o que custou milhares de vidas e milhões de dólares. E as duas organizações concluíram que a assistência humanitária deve ser fornecida de modo diferente. O establishment contra a ajuda externa está utilizando esse relatório para dizer que a ajuda não funciona e deve ser totalmente cortada. O fato de US$ 2,1 bilhões terem sido doados para socorrer vítimas da fome atesta a generosidade do ser humano. Mas esta nossa generosidade também explica porque sinto-me tão frustrado pela crescente oposição à ajuda externa observada em muitos países ricos.

Sabemos que as pessoas se preocupam com o sofrimento dos outros. Não é só isso. Elas estão dispostas a expressar a sua preocupação fazendo importantes doações, mesmo em tempos difíceis. Portanto, o que as impede de apoiar os investimentos do governo para aliviar o sofrimento extremo?

De acordo com pesquisa de opinião pública, para muita gente, a ajuda oferecida ou é roubada por líderes corruptos ou desperdiçada em programas ineficazes. Naturalmente ninguém deseja fazer investimentos quando estão convencidos que não valem a pena.

Há também um outro argumento, de que a ajuda não produz resultado mesmo quando chega ao destino desejado. Uma alegação que também não convence. Nos últimos 50 anos, o número de crianças morrendo a cada ano caiu de 20 milhões para menos de 8 milhões. Por outro lado, a proporção de pessoas vivendo na extrema pobreza caiu mais do que a metade.

Esses avanços significativos se devem em grande parte a programas financiados pela ajuda externa para compra de vacinas e aumentar a produtividade dos agricultores.

Estou confiante de que podemos reduzir o preço dos medicamentos contra Aids para US$ 300 por pessoa, ao ano, num futuro muito próximo. Isso significa que cada doação de US$ 300 feita por um país para o Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária representa uma pessoa que continuará viva por mais um ano. E estes US$ 300 que não serão ofertados representam um ser humano que com certeza morrerá. Esta é uma maneira drástica, mas realista, de pensar sobre as nossas decisões quando debatemos os orçamentos da ajuda humanitária.

Minha esperança é de que possamos converter parte da generosidade no campo da ajuda humanitária em um maior apoio aos programas de ajuda externa.

Fome. Muitas das pessoas que estão sofrendo no Chifre da África estavam famintas antes de a região ser reconhecida como em situação de emergência. Na verdade, mais de um bilhão de pessoas no mundo não tem o suficiente para comer.

Uma das mais eficazes soluções para este problema é ajudar os agricultores pobres a extrair mais dos seus minúsculos pedaços de terra. Em partes do Sul da Ásia e da África subsaariana especialmente, os camponeses que dispõem apenas de sementes que não produzem grandes colheitas, a mudança climática está reduzindo ainda mais suas plantações e as doenças estão atacando seus campos.

Novas sementes e outros instrumentos podem ajudar esses agricultores a vencer esses desafios. Por exemplo, minha fundação ajudou a financiar o desenvolvimento de uma variedade de arroz que pode sobreviver a inundações e vai alimentar 30 milhões a mais de pessoas a cada ano em Bangladesh e na Índia.

Esta quantidade adicional de arroz não só vai prevenir as mortes por inanição, mas também ajudará os agricultores a ganhar mais para conseguir levar os filhos doentes ao médico e pagar a matrícula escolar.

A pergunta é como continuar fazendo a pesquisa necessária para desenvolver estes novos instrumentos. Os países pobres estão investindo mais nos seus próprios setores agrícolas, mas não possuem recursos para aplicar em pesquisa e desenvolvimento. A ajuda é uma peça fundamental do quebra-cabeças e exatamente agora o orçamento inteiro para a pesquisa do grupo responsável pela ciência agrícola aplicada aos mais pobres é de apenas US$ 300 milhões por ano. É uma vergonha observar que uma oportunidade de tamanha repercussão provoque tanta ambivalência.

Tenho orgulho de viver num mundo que se preocupa com o sofrimento de um estrangeiro. Mas a ajuda externa, a melhor maneira de aplacar esse sofrimento, tem uma legião, cada vez maior, de críticos.

Esta é uma contradição que precisamos corrigir e a melhor maneira para isso é falar a verdade sobre a ajuda. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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