A verdade sobre o colapso soviético

Documentos dos seis anos do governo Gorbachev guardados em sua fundação ilustram o período final da experiência comunista

Christian Neef, Der Spiegel, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2011 | 00h00

Há um momento - uma decisão - pelo qual alguns recriminam Mikhail Gorbachev, ainda hoje, 20 anos depois. Gorbachev, o último líder do Partido Comunista da União Soviética, o último presidente da União Soviética, sua mulher e seus assessores mais próximos sobreviveram à tentativa de golpe da KGB, das lideranças militares e do ministro do Interior. Depois de permanecerem em prisão domiciliar na casa de veraneio de Gorbachev, no resort de Foros, na Crimeia, eles retornaram de avião a Moscou, onde chegaram às 2h15, em 2 de agosto de 1991.

Nos três dias anteriores, cerca de 60 mil pessoas permaneceram reunidas diante da sede do Parlamento das Repúblicas Soviéticas, que se tornara o reduto dos partidários de Gorbachev. Ao ouvir pelo rádio que ele tinha sido posto em liberdade, a multidão aplaudiu aos gritos de "Presidente, Presidente", e ficou aguardando a chegada de Gorbachev, na época com 60 anos.

Gorbachev - que só tinha sido solto porque os líderes do golpe ficaram com medo do povo e não ousaram invadir a sede do governo - decepcionou os russos que pretendiam recebê-lo com festa. Em vez de pedir para ser levado do aeroporto diretamente para onde estavam seus partidários, e em vez de saborear o momento de vitória e comemorar a derrota dos conspiradores, ele ordenou ao motorista que o levasse para sua dacha (casa de campo). Ele passou a noite ali e na manhã seguinte foi trabalhar no Kremlin dirigindo.

Abalo. Segundo os padrões atuais, a gafe dele foi sem igual em matéria de relações públicas. Mas os três dias de prisão domiciliar na Península da Crimeia não só confundiram o país, como também abalaram o equilíbrio de Gorbachev - e particularmente o da mulher dele, Raíssa.

Ela pagou o preço mais alto por aqueles três dias. Foi obrigada a deitar no chão durante a viagem até Moscou. Teve hematomas nos olhos, sua fala ficou prejudicada e ficou paralisada num lado do corpo. Os médicos diagnosticaram um derrame, mas mais tarde constatou-se que ela teve uma grave crise de hipertensão.

O estresse daqueles dias, quando a União Soviética estava chegando ao fim depois de quase 69 anos de existência, foi excessivo para o casal. Não era mais o chefe do Kremlin, mas seu antigo protegido, Boris Yeltsin, que agora brilhava como nova estrela política em Moscou.

Imediatamente depois do golpe, Yeltsin proibiu todas as atividades do Partido Comunista Soviético, do qual Gorbachev fora secretário-geral até aquele momento. E como continuava o movimento de secessão entre as repúblicas soviéticas não russas, Gorbachev tornou-se um presidente sem um Estado. Logo, a única república que restava da União Soviética seria a Rússia, sobre a qual Gorbachev já não tinha controle.

Raíssa passou aqueles dias depois do golpe na varanda da dacha do presidente. Foi num desses dias que ela resolveu apagar parte do seu passado, queimando 52 cartas que o marido havia escrito para ela durante suas viagens oficiais. Eram "cartas da nossa juventude", como Gorbachev comentaria posteriormente. Mas após sua experiência em Foros, ela passou a ter medo, até mesmo daqueles que mais tarde subiriam ao poder. Chorando, ela colocou fogo nas cartas que conservara com tanto carinho, dizendo ao marido que não queria que estranhos vasculhassem a intimidade da vida deles.

Gorbachev, que também ignorava o que aconteceria à sua família e ao país nas semanas seguintes, e respeitava as opiniões de Raíssa, seguiu o exemplo dela e queimou outros documentos.

Ele jogou no fogo 25 cadernos de anotações, com observações que havia feito quando estava no poder, detalhes sobre a vida política de todos os dias, descrições de políticos e vários planos. O único caderno que guardou foi seu diário particular. Quase 20 anos passariam antes que ele voltasse a falar do incidente, em uma entrevista concedida em fevereiro, à Novaya Gazeta, o jornal que ele publica.

Os documentos oficiais relativos aos quase seis anos que ele ocupou o mais alto cargo do país foram preservados. Gorbachev levou-os quando anunciou sua renúncia à presidência soviética no final daquele ano, e os doou à fundação que traz o seu nome. Dez mil documentos foram guardados na sede da fundação na Leningrad Prospect 39, em Moscou. Eles incluem os arquivos pessoais do assessores de política externa, Vadim Zagladin e Anatoly Chernyaev.

Conteúdo. Os papéis ilustram o período final da experiência comunista. Há memorandos nos quais o líder soviético é aconselhado a pôr fim à guerra no Afeganistão ou a tratar com os judeus que queriam emigrar, ou explicando os motivos pelos quais ele deveria recusar um encontro com o líder palestino Yasser Arafat ("Não se deve esperar dele nada de concreto"). Há relatos de informantes de dentro da chefia do Partido Comunista da Alemanha Oriental descrevendo as péssimas condições do país e explicando em detalhes em quem ainda se poderia confiar no Politburo de Berlim Oriental. E há ainda relatos meticulosos sobre o que a revista francesa Paris Match escrevera sobre Raíssa.

A leitura dos documentos é uma volta ao passado. Eles revelam imediatamente os inúmeros problemas do sistema calcificado, no qual camponeses e mineiros estavam se rebelando e os intelectuais reivindicavam eleições democráticas. A população dos países bálticos, da Geórgia e da Moldávia também se revoltava contra os russos, enquanto o fim da "Doutrina Brejnev" - a política externa da União Soviética segundo a qual os países não podiam abandonar o Pacto de Varsóvia - começava a aparecer na Europa Oriental.

Gorbachev, que tinha sido um funcionário provincial em Stavropol, estava na direção deste país, observando-o enquanto afogava em consequência do seu imenso tamanho e da recusa dos burocratas em modificar seu curso. Os documentos mostram também que mesmo sob Gorbachev a burocracia continuou tão ineficiente quanto sempre fora.

O assessor de Gorbachev, Anatoly Chernyaev, por exemplo, queixa-se de líderes incompetentes no movimento comunista global, como o líder do Partido Comunista francês, Georges Marchais ("um cavalo morto"). Mas Moscou ainda pagava milhões para financiar seus representantes no mundo todo.

Mais tarde, Gorbachev usou alguns dos documentos em seus livros. Mas muitos papéis continuam tabu até hoje, em parte porque dizem respeito a decisões ou pessoas sobre as quais Gorbachev ainda não está disposto a falar. Mas, acima de tudo, porque não se coadunam com a imagem que Gorbachev pintou de si mesmo, de um reformista que seguiu em frente com determinação, introduzindo gradativamente importantes mudanças neste enorme país segundo suas ideias.

Durante uma visita de pesquisa à Fundação Gorbachev, o jovem historiador russo Pavel Stroilov, que hoje mora em Londres, copiou secretamente 30 mil páginas do material arquivado e as forneceu à revista.

Os documentos revelam algo sobre o que Gorbachev prefere não falar: que foi levado a agir em razão dos desdobramentos no moribundo Estado soviético e chegou várias vezes a perder o controle da situação no meio do caos da época. Também mostram que ele agiu de maneira incongruente e, ao contrário do que declarou, às vezes fez acordos com a linha dura no partido e os militares. Em outras palavras, o líder do Kremlin fez o que muitos estadistas aposentados fazem: enfeitou consideravelmente sua imagem como a de honesto reformista. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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