A verdadeira demanda árabe

Jovens querem regimes competentes e responsabilizáveis

É DIRETOR EXECUTIVO DA OXFORD , ANALYTICA, ESCRITOR, NADER, MOUZAVIZADEH, THE NEW YORK TIMES, É DIRETOR EXECUTIVO DA OXFORD , ANALYTICA, ESCRITOR, NADER, MOUZAVIZADEH, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2013 | 02h02

Dois anos na vida do despertar árabe já parecem um século desgastante, com o pêndulo oscilando entre a empolgação e o medo extremo. Acertos de contas com a tirania, considerados inimagináveis há meros cinco anos, ocorreram por todo o norte da África, enquanto a Síria descamba para uma guerra civil selvagem, o caos se estabelece no Iêmen, a violência no Líbano e terremotos ainda por vir provocam tremores em virtualmente cada canto da região.

Tudo mudou no exercício do poder no Oriente Médio. Mas, em muitas capitais às voltas com sua nova condição, nada mudou. Ante a pressa para renomear a Primavera Árabe de dois anos como um "Outono Árabe" ou mesmo, entre aqueles com memória extremamente curta, um "Inverno Árabe", convém relembrar o que foi realmente esse movimento revolucionário.

Deixemos de lado a narrativa ocidental simplista de levantes árabes representando o desenrolar final de um anseio universal por democracia. Muito mais ameaçador para o legado desse momento é a maneira como líderes árabes de toda a região tentam redirecionar a paixão de um público engajado para rumores e quimeras, novos e velhos.

As raízes do despertar árabe são tão explosivas como diretas: a demanda de um governo que seja legítimo em sua relação com os governados e tenha de prestar contas de suas ações. Meu governo ganhou o direito de exercer o poder, então não posso removê-lo se achar que ele não cumpriu suas promessas de maior segurança, oportunidade e prosperidade? São essas as questões existenciais colocadas hoje por homens e mulheres árabes - unidos finalmente em sua busca por viver como cidadãos e não como meros súditos.

Mas, em vez de procurar atender às reivindicações de seus povos, muitos líderes árabes estão apostando numa mistura de medo, inércia e confusão para mudar o súdito. Mestres das manobras, eles estão tentando trocar os álibis de antigamente - "resistência" à ocupação israelense da Cisjordânia e ressentimento do poder dos Estados Unidos -, instigando medos novos e muito mais perigosos.

Irã. Em primeiro lugar, o Irã e seu desafio ao status quo regional de 30 anos dominado pela Arábia Saudita e seus aliados apoiados pelos EUA. Em segundo, e relacionado ao primeiro, o chamado "crescente xiita", que emerge das ruínas da invasão do Iraque e se espalha para oeste pela Síria e Jordânia até o Líbano. Em terceiro, o surgimento de um Islã político como um movimento transnacional conquistador.

Não se enganem: o Irã está jogando um papel perigoso e destrutivo por meio de cada agente delegado a sua disposição. Um crescente sectarismo xiita e sunita ameaça provocar uma nova onda de conflito por todo o Oriente Médio e a experiência do Islã político no poder (leia-se o Irã) não inspira confiança em sua capacidade de respeitar as regras de um governo legítimo.

Legitimidade é o espectro que hoje assombra os salões do poder por todo o Oriente Médio. Por mais que os controvertidos líderes da região desejem enganar seus aliados no Ocidente e seus povos, dizendo que tudo isso tem a ver com uma Pérsia pérfida, com o sectarismo xiita ou com o Islã político (como ameaça ou salvação), a realidade é muito mais simples: os jovens árabes querem regimes competentes, receptivos e responsabilizáveis.

Se for adequadamente entendida, esta é uma oportunidade para os dirigentes árabes - incluindo reis e xeques. Por mais difícil que lhes possa parecer um ajuste às reivindicações públicas de prestação de contas e de eficiência, eles estão muito menos preparados para lidar com as inevitáveis consequências de instigar uma guerra sectária em seus países ou um confronto maior com o Irã. Eles e seus apoiadores no Ocidente fariam bem em considerar se não estariam numa posição muito mais forte para lidar com as novas ameaças se governassem com o respaldo de seus cidadãos.

Há dez anos, como assessor do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, participei de uma reunião no Cairo com o então presidente do Egito Hosni Mubarak. A reunião transcorria como sempre até que, em resposta a uma manifestação de preocupação com abusos dos direitos humanos, Mubarak mudou abruptamente de atitude e lançou seu ultimato padrão: era ele ou a Irmandade Muçulmana.

Mubarak estaria com a razão? Sim, mas somente até certo ponto. E somente porque ele deixara as coisas daquela maneira ao assegurar que a única oposição efetiva a seu regime fosse canalizada pela mesquita.

No mês passado, ao deixar uma reunião no Cairo com deputados e diplomatas egípcios que procuravam definir seus papéis sob um governo da Irmandade Muçulmana, entrei numa abarrotada Praça Tahrir onde se preparava mais um protesto. Só que agora os slogans eram contra o presidente Mohamed Morsi.

A finalidade do poder nunca foi tão contestada ou tão contingente quanto é hoje no Oriente Médio. Hoje, a legitimidade genuína precisa ser conquistada e reconquistada por meio de um exercício do poder responsabilizável. Ela é, em certo aspecto, uma grande ameaça aos líderes da região - tanto para os novos governos islâmicos quanto para as monarquias e repúblicas não reformadas.

No entanto, o mais importante é que ela é uma oportunidade para os líderes visionários na região criarem uma base sustentável para seu regime - uma que não tenha como base um jogo de ameaças e de desculpas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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