A verdadeira lição da Primavera Árabe

O primeiro desejo de egípcios, liberais ou conservadores, é emprego; a política dos EUA seria mais esperta se enviasse professores em vez de drones

THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2012 | 03h07

Artigo

Algumas semanas atrás eu estava em Amã, na Jordânia, conversando com educadores quando conheci uma jovem americana que ajuda professores primários jordanianos a aprender como "ensinar pensamento criativo e solução de problemas" em suas classes. "Isso seria a verdadeira Primavera Árabe", eu disse. A decoreba ainda é o método educacional dominante na maioria das escolas públicas árabes.

O despertar árabe pode ter tido ou não sucesso em depôr os ditadores, mas ele não terá nenhuma chance de realmente capacitar a nova geração sem esse tipo de revolução na educação. O despertar árabe - no seu âmago - foi um evento não religioso, liderado por jovens frustrados por não terem o espaço, as oportunidades de emprego e as ferramentas educacionais para atingir seu potencial pleno. Essa foi a fonte de energia vulcânica que estourou a tampa de Egito, Tunísia, Síria, Iêmen e Líbia. Apesar de partidos islamistas terem aproveitado essa abertura para tomar o poder inicialmente, se eles não satisfizerem as aspirações desses jovens que quebraram a cabeça e depois atacaram as barricadas, serão, mais cedo ou mais tarde, varridos como os Mubaraks e Kadafis.

Dalia Mogahed conduz sondagens de opinião no mundo árabe para o Gallup. Desde janeiro, o apoio à Irmandade Muçulmana e aos salafistas no Egito diminui 20%. Por quê? Porque eles interpretaram mal sua vitória parlamentar como um mandato religioso/ideológico, diz ela, "e não foi". Quando uma parlamentar da Irmandade fez declarações sugerindo que a mutilação genital feminina não seria mais criminalizada, provocou uma reação contrária de egípcios preocupados de que era aí que estavam as prioridades da Irmandade.

O Gallup perguntou a egípcios que partido eles apoiavam e quais eram suas prioridades para o novo governo. A despeito do partido pelo qual votaram, disse Mogahed, "não houve diferença em geral - nem a mínima - entre liberais e conservadores sobre as prioridades para o próximo governo. São elas o emprego - a número 1 - e depois desenvolvimento econômico, segurança e estabilidade, e educação. Tire-se segurança e estabilidade, e eles parecem eleitores americanos.

Segundo a Pesquisa Burson-Marsteller da Juventude Árabe de 2012, "ganhar um salário justo e possuir uma casa" são hoje as duas maiores prioridades dos jovens no Oriente Médio - desalojando viver numa democracia como a maior aspiração da juventude regional. Democracia está em terceiro lugar. E isso não deve espantar. Quando não se é educado de maneira conveniente não se pode conseguir um emprego decente e comprar um apartamento - e, sem isso, não se pode casar.

Números recordes de jovens árabes estão vivendo hoje com seus pais após a universidade. Aliás, 25% de todos os árabes jovens de 15 a 24 anos estão desempregados. Mas o que torna essa multidão tão perigosa é que eles são os desempregados formados - que não estão na prática formados. A maioria das escolas públicas estatais árabes recebe pontuação muito baixa em comparações internacionais de matemática/leitura, em razão de um sistema que pede aos alunos que escrevam, vomitem o que aprenderam e paguem por uma instrução privada após a escola se quiserem algo remotamente melhor.

O empregador médio no mundo árabe precisa de nove meses para treinar um trabalhador novo. A coisa mais popular que os EUA poderiam fazer para respaldar a Primavera Árabe seria identificar seis ou sete campos de trabalho - na manufatura leve, têxteis, serviços, processamento de texto, etc - e estabelecer programas educacionais que possam fornecer competências reais para esses empregos.

Li outro dia que um avião não tripulado americano tinha matado "o número 2" da Al-Qaeda. Estou certo de que o mundo é um lugar melhor. Mas não creio que o presidente Barack Obama perceba quanto os ataques com aviões não tripulados americanos se tornaram a marca de sua política no Oriente Médio. O presidente Obama precisa se lembrar, disse Mogahed, de como foi radical o ato de sua eleição. Se não redirecionarem a ajuda externa árabe para a educação e o emprego, estarão sempre matando o número 2 da Al-Qaeda. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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