Amit Dave/Reuters
Amit Dave/Reuters

A viagem por estrada de uma jornalista em plena pandemia na Índia

Barkha Dutt percorreu 23 mil quilômetros em 100 dias para narrar o sofrimento de seus compatriotas pobres

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2020 | 03h30

NOVA DÉLHI - A jornalista indiana Barkha Dutt, a bordo de seu Suzuki Ertiga, percorreu 23 mil quilômetros em 100 dias para narrar o sofrimento de seus compatriotas pobres em plena pandemia do coronavírus.

Desde que iniciou a missão ao lado de sua equipe em março, a veterana repórter de televisão percorreu toda a Índia para mostrar o impacto do vírus nas diferentes cidades e regiões. Ela descreve a viagem como "exaustiva". 

Ex-estrela do canal de notícias NDTV, ela registrou várias histórias de angústia e esperança, publicadas como reportagens em seu canal do Youtube Mojo. 

Do fim de março ao início de junho, a Índia aplicou um dos confinamentos nacionais mais severos do planeta para limitar a propagação do vírus. Todos os meios de transporte público foram paralisados repentinamente e os estados fecharam suas divisas. 

Dezenas de milhões de trabalhadores migrantes das zonas rurais, que ganhavam o sustento nas principais cidades da Índia, ficaram desempregados da noite para o dia.

Alguns tentaram retornar a suas localidades de origem custe o que custar, inclusive percorrendo centenas de quilômetros a pé, uma caminhada que custou a vida de dezenas de pessoas.

Em meio ao êxodo sem precedentes, a jornalista viu "crianças caminhando sem calçados sob um sol intenso e até a noite, com a lua como única luz para guiá-los".

A história mais importante de nossas vidas

Pouco depois da entrada em vigor do confinamento, em 25 de março, a jornalista entrou no carro com um produtor, um cinegrafista e um motorista para acompanhar "a história mais importante de nossas vidas".

A pequena equipe teve que negociar duramente para atravessar as divisas fechadas nos diferentes estados. Em alguns casos, eles pediram ajuda no Twitter para reparos em um país completamente parado.

No estado de Haryana, vizinho da capital Nova Délhi, a jornalista se reuniu com a família de um homem que vendeu o telefone celular por 2.000 rupias (23 euros) para conseguir dinheiro.

Ele gastou a maior parte da quantia para compra comida e um ventilador. Depois "entregou o resto do dinheiro a sua esposa e cometeu suicídio no dia seguinte", explica Dutt.

O confinamento "afetou violentamente nossos trabalhadores migrantes, milhões deles. Os pobres pagaram um preço elevado para manter a classe média e média alta a salvo", afirma a jornalista.

Suas reportagens também ilustraram as diferenças de situação em toda Índia, já que os estados do sul costumam ser mais solidários que os do norte.

Em Dharwad, Karnataka encontrou um funcionário municipal que transformou albergues em refúgios para migrantes e convenceu uma fábrica local a produzir roupas para estas pessoas.

No início de junho, Nova Délhi suspendeu o confinamento nacional para superar a grave situação econômica, mas a epidemia de covid-19 continua fazendo estragos no país e piorou nas últimas semanas.

Em tal contexto, Barkha Dutt deseja prosseguir com com a viagem. Mas antes, provavelmente dará um descanso a seu carro. /AFP

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