Andres Stapf|Reuters
Andres Stapf|Reuters

A vida e a época de Fidel Castro

Após o fim da União Soviética, muitos achavam que o regime cubano cairia, mas o governo de Fidel Castro resistiu 

The Economist, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2016 | 05h00

Fidel Castro era marxista por conveniência, nacionalista por convicção e caudilho por vocação. Seu herói era José Martí, o cubano que se levantou contra o domínio espanhol, mas que temia, com acerto, as ambições dos EUA em relação a Cuba. Na Guerra Hispano-Americana de 1898, os EUA sequestraram a revolta pela independência iniciada por Martí e transformaram Cuba numa neocolônia. 

De acordo com a tristemente afamada Emenda Platt, os EUA se reservavam o direito de intervir na ilha a qualquer momento. O dispositivo foi revogado na década de 30, mas o domínio dos americanos sobre a economia e o vital setor açucareiro perdurou até a revolução. A presença dos americanos incentivou o desenvolvimento, incluindo a formação de uma grande classe média; mas também produziu forte desigualdade.

Fidel adotou o nacionalismo e o anti-imperialismo de Martí, mas não sua crença na democracia. Encontrou no comunismo instrumento útil para concentrar um poder mais absoluto que o desfrutado por tiranos comuns, já que vinha, enquanto durou a Guerra Fria, sob o escudo da proteção soviética. O embargo comercial dos EUA lhe foi ainda mais útil: permitiu atribuir ao inimigo imperialista a responsabilidade pelo fracasso econômico de seus esforços de planejamento central.

O comunista ortodoxo era seu irmão Raúl (5 anos mais jovem), que também foi o responsável por transformar, nos dois anos seguintes à revolução, um pequeno grupo guerrilheiro num disciplinado Exército de 300 mil homens. As teses marxistas, por sua vez, ficavam a cargo do companheiro de armas de Fidel, o argentino Ernesto “Che” Guevara.

Nos primeiros tempos, pelo menos 550 (e talvez 2 mil ou mais) opositores foram executados. Como muitos eram asseclas do ditador Fulgencio Batista, sua eliminação foi bem recebida pela população. Com a revolução assegurada, Fidel instaurou um regime repressor, mas não especialmente cruel. Seu poder não podia ser diminuído por nada nem ninguém. “Não há ninguém neutro”, declarou. “Há apenas os que apoiam a revolução ou são seus inimigos.” E a revolução, obviamente, era Fidel.

Muitos acreditam que o líder cubano deixou que Che fosse morto na Bolívia ―– ou que poderia ter feito mais para tentar salvá-lo –, transformando um subordinado incômodo e desobediente num mito útil. Fidel também dava dor de cabeça aos soviéticos. Aceitava sua ajuda financeira, mas nem sempre seguia seus conselhos. Embarcou inicialmente num esforço concentrado de industrialização, mas não tardou a substituí-lo por um programa voltado para a produção de safras de 10 milhões de toneladas de açúcar.

Ambas as iniciativas resultaram em graves reveses econômicos. Ainda que vez por outra se convencesse a descentralizar a condução da economia (coisa que normalmente estimulava o crescimento), sempre acabava voltando a concentrar o poder em suas mãos.

Fidel deu aos cubanos uma educação e um sistema de saúde de primeiro mundo, e não se importava com os custos disso para a economia. Mas não oferecia oportunidades ou prosperidade, e muito menos liberdade. Os dissidentes se viam diante de uma escolha difícil: ou arriscavam a perigosa travessia para a Flórida, ou ficavam sujeitos a serem trancafiados nas celas do gulag cubano. A maioria optava pelo silêncio. Por fim, Fidel resolveu abrir uma válvula de segurança, permitindo que os potenciais causadores de problemas se transferissem para o exterior.

Detalhista. Fidel era o líder motivacional, o homem de ação, o estrategista de primeira, o detalhista obsessivo que queria controlar tudo, das medidas com que a população se preparava para a chegada de um furacão ao cultivo de batatas. E era, acima de tudo, um sujeito incansável. Em sessões intermináveis, que eram frequentemente iniciadas à meia-noite e não terminavam antes do amanhecer, interrogava os visitantes sobre todos os aspectos da situação política de seus países. Adorava pormenores – das estatísticas sobre a produção de alimentos em cada uma das províncias cubanas às características das panelas de arroz elétricas fabricadas pelos chineses. Decorava essas informações e então as citava em discursos que se estendiam por horas a fio.

Tomava o cuidado de desencorajar um culto mais escancarado a sua personalidade. Mantinha sua vida pessoal, a maioria de seus nove filhos e Dalia del Soto Valle, com quem se casou, em 1980, longe dos olhos do público. Prestigiava homens mais jovens, mas os descartava quando davam mostras de querer suceder-lhe. 

Levando a revolução para outros países, Fidel atuou no palco mundial como nenhum outro líder latino-americano havia feito desde os dias de Francisco Miranda e Simón Bolívar, os heróis da independência sul-americana de dois séculos atrás. Tornou-se ator importante no conflito mundial entre os EUA e a União Soviética, entre a democracia capitalista e a ditadura comunista. A ideia de buscar a proteção de mísseis soviéticos fez dele o líder que mais perto chegou de tornar um confronto ideológico numa guerra nuclear.

Sob seu comando, Cuba, uma ilha de apenas 10 milhões de habitantes, tornou-se uma “Esparta latino-americana” (nas palavras do mexicano Jorge Castañeda, um crítico da revolução). Nos anos 1960, Fidel ajudou uma geração de jovens idealistas latino-americanos, que embarcaram em malsucedidas aventuras guerrilheiras, cujo maior feito foi contribuir para pôr seus países sob o domínio de ditaduras militares anticomunistas. 

Uma década depois, Fidel enviou tropas para a África, a fim de combater o apartheid, mas também para apoiar regimes corruptos ou repressivos (mas antiamericanos) em países como Etiópia e Angola. Nos anos 1980, armou e auxiliou revolucionários esquerdistas na América Central. Nas últimas duas décadas, com o fim da Guerra Fria, em vez de soldados, Cuba passou a mandar médicos para o exterior, inicialmente para que eles atuassem como missionários da revolução de Fidel, e, mais recentemente, para servirem como fonte dos recursos em moeda estrangeira de que o país tanto necessita.

A queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética deixaram Cuba extremamente empobrecida. A economia encolheu mais de 30%. Muitos acharam que Fidel e sua revolução não resistiriam. Com relutância, Fidel permitiu que os cubanos montassem pequenos negócios, como restaurantes. Também legalizou as transações com dólar e buscou investimentos estrangeiros, em particular no segmento de turismo. As remessas de dinheiro dos cubano-americanos, o turismo e as minas de níquel, exploradas por uma empresa canadense, passaram a ser os pilares da economia da ilha, ocupando o lugar do açúcar. 

Economia. O sistema de saúde e a educação também começaram a servir como fonte de moeda forte, com o desenvolvimento da biotecnologia e do turismo médico. As estatais receberam maior autonomia para administrar seus orçamentos e fazer negócios. Todas essas medidas ajudaram os cubanos a sobreviver à crise, mas geraram novas desigualdades e ressentimentos, e relaxaram o controle do regime sobre a vida cotidiana da população. Então, inesperadamente, surgiram novos benfeitores: a Venezuela de Hugo Chávez e, em menor medida, a China, com seu crescimento acelerado.

Os subsídios venezuelanos foram aumentando até se equiparar à velha generosidade soviética. Com a economia novamente se expandindo, Fidel reverteu ou freou muitas das reformas econômicas e adotou postura mais seletiva em relação ao investimentos estrangeiros. Como já acontecera em outras ocasiões depois da vitória da revolução, teve uma recaída jacobina e pôs-se a recrutar jovens pobres para atuarem como “trabalhadores sociais”, a fim de combater a corrupção. 

Em 2013, aproveitando que as atenções estavam voltadas para a invasão americana do Iraque, promoveu nova onda repressiva, detendo e impondo longas penas de reclusão a 78 ativistas que lutavam pela democracia. Também mandou executar três cubanos que haviam sequestrado uma balsa, numa tentativa desesperada de chegar à Flórida. Dois anos mais tarde, decretou o fim do Período Especial.

Em julho de 2006, Fidel anunciou que se submeteria a uma cirurgia abdominal e, por essa razão, estava delegando seus poderes para uma coletivo de líderes, chefiados por Raúl. Em 2008, Raúl substituiu formalmente Fidel como presidente. 

Raúl anunciou reformas econômicas que eliminaram muitas das pequenas restrições que prejudicavam a vida dos cubanos, que agora podem comprar e vender casas e carros, adquirir telefones celulares e acessar a internet. A ilha vem fazendo um movimento inexorável rumo a uma economia mista. Alguns dos assessores de Raúl falam com entusiasmo dos modelos de China e Vietnã.

Fidel não compartilhava dessa animação. Em sua opinião, a China era uma sociedade consumista decadente, que abrira mão de seus valores e de seu compromisso com a igualdade. Por outro lado, num lapso, admitiu a um visitante estrangeiro que “o modelo cubano já não funciona nem para nós”. 

Fidel evitava criticar em público os novos rumos. Por algum tempo manteve uma coluna no Granma, jornal oficial do Partido Comunista, mas os textos se limitavam a discorrer, com incoerência crescente, sobre os problemas apocalípticos com que o mundo se defrontava. Fidel tornou-se uma figura espectral em sua residência, situada no bairro de Siboney, onde ficam as mansões dos barões do açúcar que ele expropriou. Era ocasionalmente fotografado com líderes estrangeiros, parecendo cada vez mais debilitado 

Fidel sobreviveu a dez presidentes americanos e a todos os seus inimigos e viveu o bastante para ver sua revolução começar a ser desmantelada. Viu Cuba reatar relações diplomáticas com os EUA, em 2015, e viu o presidente americano Barack Obama visitar Havana e instar o povo da ilha a “escolher seus governantes em eleições livres”. É claro que não aprovou isso. “O presidente de Cuba tomou decisões em conformidade com suas prerrogativas e poderes”, escreveu numa carta publicada em 2015. Mas, acrescentou, “não confio na política dos EUA, e não troquei uma única palavra com seus líderes”.

Nenhum outro homem do século 20 governou por tanto tempo e, com um misto de carisma e tirania, dominou tão completamente seu país. Numa noite quente de verão, nos tempos de penúria que se seguiram ao colapso da União Soviética, uma multidão de jovens insatisfeitos ocupou a orla de Havana e ameaçou investir contra a polícia. Fidel apareceu no meio da noite e os apaziguou. Era alguém que inspirava respeito e assombro mesmo nos cubanos.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER 

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TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO 

ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM. 

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