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A vida na Síria em tempos de guerra

Sírios estão vendo a banalidade do dia a dia dar lugar ao medo da violência generalizada

Janine Di Giovanni, do New York Times,

23 de julho de 2012 | 20h56

DAMASCO - Qual é a sensação trazida pelo início de uma guerra? Quando é que a vida como a conhecemos implode de vez? Como sabemos quando é chegada a hora de juntar os pertences, reunir a família e deixar o país? Ou, para os que decidem ficar, que motivo têm? Para as pessoas comuns, a guerra começa com um choque: um belo dia estamos ocupados com a rotina de marcar consultas no dentista e a cortina cai.

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Barricadas são erguidas. Soldados são recrutados e vizinhos trabalham para formar sua própria defesa. Ministros são assassinados e o país mergulha no caos. Pais desaparecem. Os bancos fecham, a vida e a cultura desaparecem por completo. Em Damasco, esse momento chegou.

Passei duas semanas na Síria no começo do mês. Tive o privilégio e a sorte de obter um visto, porque há no país um bloqueio total à mídia. O temor era palpável. Carros-bomba explodiam nas ruas. Na semana seguinte à minha estada em Damasco, a Cruz Vermelha declarou que os 17 meses de levante tinham se convertido numa guerra civil.

Durante o período em que estive na Síria, a vida cotidiana se desenrolou como ocorre em todo o mundo. Assisti óperas num dos melhores teatros do Oriente Médio, participei de festas dionisíacas, fui a casamentos, nos quais os casais celebravam elaboradas cerimônias sunitas e xiitas, e acompanhei os maquiadores empregando sua magia no rosto de atrizes para o ensaio fotográfico de uma revista. Todas essas atividades fazem parte de uma vida que está prestes a sumir, tornando-se apenas uma lembrança.

Pouco abaixo da superfície das festividades havia uma corrente de tensão, um temor tangível de que o conflito pudesse transbordar para as ruas. As pessoas começaram a deixar Damasco quando cheguei. Eram organizadas festas de despedida e as embaixadas estavam fechando.

Os bairros de Barzah e Midan são agora áreas de circulação proibida. Eu me pergunto quantas das pessoas que vi há duas semanas estão deixando a Síria, cruzando a fronteira com o Líbano. Conheço a velocidade da guerra. Em todas que já cobri, os momentos nos quais tudo muda têm uma qualidade semelhante.

Certa vez em Abidjã, Costa do Marfim, em 2002, fui dormir depois de jantar num elegante restaurante francês. Quando acordei, não havia serviço telefônico e nenhuma emissora de rádio da capital estava transmitindo. Em 24 horas, entre a paz e a guerra, tive tempo o bastante para apanhar o passaporte, o computador, as fotos e fugir para um hotel no centro da cidade.

Em 1992, uma amiga caminhava por Sarajevo, de minissaia e salto alto, indo trabalhar num banco, quando viu um tanque descendo a rua. Tiros foram disparados. Ela se agachou, trêmula, protegendo-se atrás de uma lixeira, com a vida alterada para sempre. Poucas semanas depois, ela entregou seu bebê para um desconhecido que fugiu para outro país. Anos se passaram antes que ambos se reencontrassem.

O general Robert Mood, da Noruega, líder da equipe de monitores da ONU enviada a Damasco, me disse que, na guerra, não existe um modelo a ser seguido. Mas, ao ler as notícias do vilarejo de Tremseh e ver os refugiados deixando Homs com crianças nos carros, é difícil não se lembrar dos erros das últimas décadas.

Enquanto a Rússia continua a vetar os esforços do Conselho de Segurança para aplicar sanções, amigos na Síria relatam os assassinatos e as torturas. É difícil não enxergar uma nova Bósnia. Sírios, que há pouco tempo se identificavam como sírios, agora dizem ser alauitas, cristãos, sunitas, xiitas, drusos.

A diplomacia está fracassando. Kofi Annan manteve-se à uma distância segura e observou os genocídios na Bósnia e em Ruanda, quando era ele o encarregado da operação de paz. Agora, ele negocia com Assad um cessar-fogo. Em todas as guerras que cobri, cessar-fogo foi apenas sinônimo para ganhar tempo e prosseguir o massacre.

Treze anos atrás, Annan apresentou um relatório à Assembleia Geral sobre o fracasso da comunidade internacional em evitar o massacre de bósnios em Srebrenica. Ele descreveu o episódio como "um horror sem paralelo na história da Europa desde a 2.ª Guerra". Mas, novamente, os países mostram falta de vontade para deter o massacre de mulheres e crianças.

É esse o aspecto do início de uma guerra civil. Nos dias que passei na Síria, conversei com o maior número possível de pessoas. Queria ver como os defensores de Assad relatavam a história daquilo que estava ocorrendo. E queria depoimentos dos que sofreram sob o regime.

Nas duas horas de viagem de Damasco a Homs, passei por oito postos de controle do governo. Do lado de dentro, a metade da cidade que não fora arrasada pelos tanques estava parcialmente funcional. Num centro de refugiados lotado, conheci uma mulher chamada Sopia, que tinha visto pela última vez o filho Mohamed, de 23 anos, num leito de hospital em Homs em dezembro. Ela disse ter chegado certo dia ao leito, que estava vazio.

Os médicos explicaram que o filho fora transferido para um hospital militar. Dez dias depois, ela encontrou o corpo de Mohamed no hospital militar. O cadáver tinha sinais de tortura: havia duas balas na cabeça, marcas de choques nas solas dos pés, tornozelos e queimaduras de cigarro nas costas.

Para Sopia, a manhã na qual ela viu o corpo do filho foi o momento em que ela se deu conta de que estava numa guerra. Ela me disse que o filho era um homem simples, sem elo com os rebeldes. Mas Sopia e sua família moravam em Baba Amr, região de Homs que era reduto de opositores, e supõe-se que jovens de certa idade sejam combatentes do Exército Livre da Síria.

Em Homs, conheci um menino que ficava sentado jogando cartas. Para ele, a guerra começou em março de 2011. Então, seus pais o proibiram de sair de casa. Agora, há um atirador de elite no fim da rua em que ele mora e, à noite, o som das granadas ecoa pela escuridão, ganhando intensidade conforme avança a madrugada.

O menino mora perto das ruínas de Baba Amr e o ar do lado de fora de sua varanda ainda traz o aroma do jasmim, das oliveiras e dos botões de laranja. Se ele entrasse e fechasse os olhos, seria possível imaginar que não havia guerra nenhuma do lado de fora.

A família do menino não apoia Assad, mas eles não pretendem deixar o país. Por quê? A mãe do garoto me disse que eles ficarão porque é ali o seu lar. A vida que levam já equivale à de um prisioneiro. O menino tem um único DVD, uma cópia pirata de Esqueceram de Mim, que ele assiste sempre que há eletricidade. Ele sente falta dos amigos que já deixaram a Síria.

Fui a um ensaio da Orquestra Infantil da Síria e ouvi uma versão desafinada da Prece Noturna da ópera Hansel e Gretel. Vendo as crianças e seus rostos enquanto tocavam oboés e flautas, me perguntei quantas morreriam, quantas deixariam o país, quantas ficariam na Síria e lutariam nos dias vindouros.

Diz-se que, na guerra, a verdade é a primeira a morrer. Conforme a guerra avança na Síria, as pessoas buscam pela verdade. Em Homs, Sopia procura uma resposta para o assassinato de seu filho ferido. Em Damasco, enquanto tomamos uma xícara de café, uma jovem ativista me diz que não tem medo de ser presa por participar de manifestações. Ela usa um nome falso e muda de endereço com frequência. "Acredito naquilo que estou fazendo", disse. Ela quer morar num país que seja verdadeiro e livre.

Num escritório do governo, perto da estrada de Mezze, um funcionário cristão diz ter crescido num país que, como a Bósnia, misturava grupos étnicos, refugiados vindos da Armênia, cristãos, xiitas, sunitas e seguidores da Igreja Ortodoxa. Ele diz que o levante mudará tudo. "Todos que acreditaram no modelo sírio foram traídos", disse.  

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