A vida recomeça para os ex-siameses egípcios

Com os pés balançando numa piscina de bolas coloridas, os gêmeos de dois anos Mohamed e Ahmed Ibrahim deliciam-se em mandar um punhado delas para o ar, quando as chutam. Rindo e gargalhando, os meninos que nasceram ligados pelo topo da cabeça, agora movem-se e brincam como querem, esquecidos de um momento marcante de suas vidas: faz quatro meses, hoje, que os cirurgiões deram-lhes a chance de viver vidas separadas.?Todo dia eles fazem algo que nunca tinham feito antes?, diz Linda Biesanz, uma das terapeutas das crianças.Nascidos numa cidade pequena no Egito, em 2 de junho de 2001, eles foram separados no dia 12 de outubro do ano passado, no Children´s Medical Center Dallas, durante uma cirurgia que durou 34 horas. Cerca de um mês depois da cirurgia, eles voltaram para o North Texas Hospital for Children at Medical City, onde viveram até chegar a Dallas, em junho de 2002.Quando estavam ligados, os meninos levantavam os braços sobre as cabeças para tocarem-se e comunicarem-se, uma vez que não conseguiam olhar para lado nenhum, a não ser para cima e para baixo. Agora, Ahmed e Mohamed podem olhar-se face a face.Na manhã da sessão de terapia, preenchida com músicas, palmas e risadas, Ahmed experimenta alguns sabores ? primeiro um pirulito verde, depois um biscoito cracker seco, que ele rola com ceticismo na língua. Num corredor, Mohamed está pronto para mover-se. Com a ajuda de um andador, o aparelho nas pernas e uma terapeuta, ele dá um passo após o outro, chutando alegremente um carro colorido de brinquedo à sua frente, com os tênis de um azul brilhante.?Agora que não estão limitados à ligação entre os dois, podem aprender e explorar sozinhos?, diz o fisioterapeuta JacobMakkappallilOs gêmeos ficaram com o lado direito do corpo enfraquecido depois da cirurgia e é nisto que os terapeutas têm trabalhado, além de ajudá-los a serem crianças normais.?Todos nós estamos tentando fazê-los falar como crianças de sua idade e comer e brincar como garotos dessa idade?, diz Makkappallil.Os meninos ? que sabem palavras em inglês e árabe ? aprendem rápido a repetir palavras e cantar com os terapeutas musiquinhas em inglês como ?Row, row, row your boat ...? Essa capacidade de recuperar-se de uma cirurgia tão invasiva foi possível por causa de sua idade, diz Kenneth Salyer, o cirurgião cuja Fundação Mundial Crânio-facil, sem fins lucrativos, trouxe os gêmeos para Dallas para a operação, que levou um ano para ser planejada. O risco de danos cerebrais era preocupante, mas Ahmed e Mahomed parecem estar indo bem ? ?intelectualmente, totalmente bem?, ele assegura.Ao mesmo tempo que cada dia traz um novo progresso, uma coisa não mudou ? a personalidade dos meninos, garante Ibrahim Mohammed Ibrahim, o pai.Mohamed é ainda o mais atirado, mas desejoso de pular e tentar algo novo. Ahmed, o filósofo, como é chamado, é mais cauteloso, olhando e observando antes de fazer algo.?Ahmed é muito calmo e não nos dá trabalho?, diz Ibrahim. ?Mohamed é um menino muito ativo. Temos de ficar de olho nele o tempo todo. Esperamos que ele vá dormir para poder relaxar.?Mohamed agora anda com ajuda e senta-se sozinho. Ahmed foi retardado por ter um dreno no cérebro para escoar líquido e por isso e outras cirurgias menores. Está treinando sentar e levantar.Os gêmeos vão passar por outra cirurgia em cerca de seis meses para reconstruir seus crânios, segundo Salyer. A reconstrução dos cérebros com ossos agirá como um vigamento e ajudará a estimular seus corpos a criar novos ossos. Por enquanto, seus cérebros estão cobertos por camadas de tecido e pele e quantidades de cabelos negros encaracolados estão nascendo. Ahmed está até mesmo conseguindo regenerar alguns ossos sozinho.Depois que seus crânios forem reconstruídos, eles poderão retornar ao Egito, possivelmente ainda este anos, acredita Salyer.Enquanto isso, os meninos ? que ainda são alimentados por tubos no estômago ? passam os dias em terapias física e de fala. Seus pais e o irmão de cinco anos, Mahmoud, juntaram-se a eles, oferecendo ajuda e encorajamento. A irmã de sete, Asma, ficou no Egito com parentes, porque está na escola.Os pais dizem que ao ver seus filhos se desenvolverem e aprenderem, sentem que o risco que assumiram ao separá-los valeu à pena.?Quando olho para eles, diz a mãe, de 24 anos, Sabah Abu el-Wafa, ?sinto que vou chorar de alegria.?

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.