REUTERS/Abdalrhman Ismail
REUTERS/Abdalrhman Ismail

A vida sob cerco em Alepo

Moradores relatam dificuldades de se viver em meio à guerra civil na Síria, como obtenção de alimentos, água limpa, tratamento médico e educação

O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2016 | 07h33

Há algumas semanas, tropas governamentais impuseram novamente um cerco na parte oeste, e lançaram uma ofensiva para tomar o controle da cidade, com a ajuda de intensos bombardeios aéreos.

Ativistas alegam que a ação deixou centenas de civis mortos, mas o governo nega. Apesar disso, as pessoas que sobrevivem precisam lidar com as dificuldades que o cotidiano violento na região oferece. Segundo a rede britânica BBC, cerca de 275 mil indivíduos estão presos em Alepo. Veja abaixo como eles vivem.

Qualidade de vida depende da região

O controle da região leste de Alepo está dividido entre rebeldes apoiados pelos EUA e por aliados, jihadistas do grupo conhecido anteriormente como Frente Al-Nusra, e forças curdas, que dizem não apoiar nem o governo e nem a oposição. No distrito de Sheikh Maqsoud, controlado pelos curdos, os mercados estão bem abastecidos e os preços estão estáveis, segundo a organização Reach Initiative, que está em contato com a população para obter informações sobre as condições de vida.

Uma das rodovias de Sheikh Maqsoud foi aberta recentemente, permitindo a saída de pessoas e a entrada de novos produtos. Contudo, a região está cercada por pontos de verificação, o que significa que a população de outras áreas sob cerco não conseguem entrar e sair facilmente.

Em outras áreas de Alepo, a situação é mais urgente. Geradores estão ficando sem combustível, tornando esporádico o fornecimento de energia elétrica, e alguns abrigos - onde os cidadãos podem passar algumas horas, ou mesmo a noite toda, para fugir dos bombardeios - estão completamente sem luz.

Comida e água se tornaram armas de guerra

Agências de ajuda humanitária têm tido dificuldades para chegar ao lado leste de Alepo desde que o cerco à região foi retomado, no dia 4 de setembro. Tanto as Nações Unidas quanto o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) vêm fazendo apelos para que se abram corredores humanitários na região, mas os pedidos têm sido ignorados.

A Reach diz que ainda há alguns mercados abertos em algumas regiões de Alepo sob cerco, mas apenas para itens como ovos, farinha, vegetais, frutas, frango e óleo de cozinha. A organização afirma que as pessoas estão racionando os últimos produtos que ainda possuem, como pães secos e molhos de tomate.

Quanto aos alimentos que ainda podem ser encontrados nos mercados, o preço é muito alto. Antes do conflito, sete pedaços de pão custavam 15 libras sírias. Agora, eles vêm em pacotes de seis pedaços e custam 451 libras sírias, em média, um valor alto para uma cidade que vive sob cerco e onde muitos meios de se ganhar dinheiro desapareceram.

Água também se tornou uma arma na guerra civil do país, enquanto forças do governo tentam fazer com que os rebeldes e civis no leste de Alepo se rendam. Estações de bombeamento foram danificadas por bombardeios e grande parte da cidade - incluindo zonas do oeste controladas pelo governo, onde vivem 1,2 milhões de pessoas - está sem acesso à água potável.

Moradores da região obtêm água em poços privados e carregam baldes para suas casas. Muitos já alegaram que ela não tem um gosto bom e não há garantias de que esteja descontaminada.

É difícil dizer quantas pessoas já morreram de fome nas áreas sob cerco porque as organizações de ajuda humanitária não conseguem entrar nesses territórios e não são capazes de detectar o nível de desnutrição dos moradores.

Médicos são raridade

Muitos médicos saíram da cidade como refugiados ou foram mortos nos conflitos. No momento, há apenas 30 profissionais de saúde em Alepo. A partir da estimativa da ONU - de que há 275 mil pessoas presas na área -, isso significa que há um médico para cada 9,1 mil indivíduos.

Medicamentos para doenças do coração, diabetes e outras enfermidades também são difíceis de encontrar. Zulfiye Kazim, da Reach Initiative, disse que suprimentos médicos são frequentementes citados como os mais urgentes.

Artigos de higiene feminina, como absorventes, estão indisponíveis em Alepo, exceto na região controlada pelos curdos. As mulheres que estão em seu período de menstruação são forçadas a usar panos velhos ao invés dos produtos descartáveis. Como não se tem certeza de que a água esteja completamente limpa, elas ainda podem contrair algum tipo de infecção.

Centenas de pessoas deixaram suas casas

Em agosto, a Unicef estimou em 35 mil o número de pessoas que foram expulsas de Alepo - algumas se dirigiram a abrigos oficiais localizados em edifícios abandonados -, outras foram morar com parentes e amigos, e outras ainda têm que dormir em ruas e parques.

Não foram muitos os que conseguiram sair da cidade desde o início dos conflitos, e aparentemente o número de pessoas que não dormem em suas casas subiu. Para aquelas que conseguiram permanecer em seus lares, resta o medo e a insegurança.

Educação em zona de guerra

Quase metade das pessoas que vivem em Alepo têm menos de 18 anos. Muitas das escolas que elas frequentavam fecharam ou mudaram de endereço. Alguns prédios onde funcionavam centros educacionais foram bombardeados, enquanto outros são usados como abrigos para refugiados ou até mesmo por soldados, com propósitos militares.

É difícil imaginar qualquer criança voltando da escola enquanto bombas caem sobre o território. Mas mesmo fora das escolas, as crianças correm riscos ao brincarem nas ruas, em casa ou ao nadarem em crateras feitas por bombas.

Recentemente, uma das escolas na região foi reaberta e os alunos puderam voltar às aulas. Uma das meninas, Judy, caminhava entre destroços para chegar ao colégio. “Vou à escola todos os dias, menos quando escuto aviões”, diz ela.

O professor Wissam Zarqa trabalha em um colégio da região. Favorável aos rebeldes, ele diz: “Depois de todos esses crimes, nos sentiremos envergonhados se apenas formos embora. A próxima geração deveria ter um país melhor para viver.”

Veja abaixo: Regime sírio pode suspender ofensivas em Alepo

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