Fredrik Sandberg/TT News Agency via Reuters
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'A vida tem que continuar': como a Suécia enfrentou o vírus sem confinamento

Quando o governo desafiou a recomendação convencional e se recusou a determinar um isolamento geral para 'achatar a curva' da epidemia de coronavírus, as autoridades de saúde pública apontaram a confiança como justificativa central

Thomas Erdbrink e Christina Anderson, The New York Times

30 de abril de 2020 | 03h00

 ESTOCOLMO - Ela estava encostada na bengala, descansando brevemente entre dezenas de jovens suecos que aproveitavam um dos primeiros dias ensolarados de primavera do ano.

"Estou tentando não me aproximar muito das pessoas", disse Birgit Lilja, de 82 anos, explicando que havia saído de casa para pegar pessoalmente uma nova carteira de identidade. "Mas eu confio que eles fiquem atentos a mim."

A confiança é alta na Suécia - no governo, nas instituições e nos colegas suecos. Quando o governo desafiou a recomendação convencional e se recusou a determinar um isolamento geral para "achatar a curva" da epidemia de coronavírus, as autoridades de saúde pública apontaram a confiança como justificativa central.

Eles disseram que podiam confiar que os suecos ficariam em casa, seguiriam protocolos de distanciamento social e lavariam as mãos para retardar a propagação do vírus - sem ordens obrigatórias. E, em grande parte, a Suécia parece ter tido tanto sucesso no controle do vírus quanto a maioria dos outros países.

A taxa de mortalidade da Suécia de 22 a cada 100.000 pessoas é a mesma da Irlanda, que recebeu elogios pela maneira como está lidando com a pandemia e muito melhor do que na Grã-Bretanha ou na França.

No entanto, nesse dia quente de primavera, pelo menos, havia poucas evidências de que as pessoas estavam seguindo os protocolos - acrescentando mais mistério ao aparente sucesso da Suécia em lidar com o flagelo sem um isolamento economicamente devastador.

Ao redor de Lilja, ao longo da Rua Skanegatan, no bairro de Sodermalm, em Estocolmo, os suecos mais jovens lotaram bares, restaurantes e um parque na semana passada, tomando sol.

Eles riam e se deliciavam com liberdades consideradas normais em muitas partes do mundo não muito tempo atrás, antes que os confinamentos por coronavírus, quarentenas e restrições em massa alterassem as normas sociais. À medida que outros países da Europa começam a considerar reabrir suas economias, a experiência da Suécia parece argumentar com menos cautela, não o contrário.

"Meus sentimentos pelos que morreram, mas estamos fazendo algo certo aqui na Suécia", disse Johan Mattsson, de 44 anos, enquanto tomava um drinque em um café na rua Skanegatan.

O consultor de restaurantes elogiou as liberdades que tinha na Suécia em comparação com outras nações. "Não estou vendo estatísticas muito diferentes em muitos outros países", disse ele. "Estou feliz por não termos entrado em confinamento. A vida tem que continuar."

Enquanto outros países pisavam no freio, a Suécia mantinha suas fronteiras abertas, permitia que restaurantes e bares continuassem funcionando, deixava escolas seguirem o ritmo normalmente e não impunha limites para o transporte público ou passeios em parques locais. Cabeleireiros, estúdios de ioga, academias e até alguns cinemas permaneceram abertos.

Reuniões com mais de 50 pessoas são proibidas. Os museus fecharam e os eventos esportivos foram cancelados. No final de março, as autoridades proibiram visitas a casas de repouso.

Basicamente foi isso. Quase não há multas e os policiais só podem pedir que as pessoas sigam as recomendações. Os pedestres que usam máscaras geralmente são encarados como se tivessem acabado de desembarcar de Marte.

No domingo, cinco restaurantes foram fechados por não seguirem os requisitos de distanciamento social. Eles não foram multados, no entanto, e poderão reabrir após passarem por uma inspeção, disse Per Follin, autoridade médica da região do Departamento de Controle e Prevenção de Doenças Transmissíveis.

Durante a crise, a Suécia teve unidades de terapia intensiva (UTI) suficientes para lidar com pacientes com covid-19, disse a ministra da Saúde e Assuntos Sociais, Lena Hallengren, em entrevista, referindo-se à doença causada pelo vírus. "Temos 250 leitos vazios agora."

Uma compilação de números de mortalidade do The New York Times constatou que muitos países estavam subestimando as mortes de covid-19 aos milhares, enquanto a Suécia registrou 400 mortes a mais do que o esperado entre 9 de março e 19 de abril.

Isso não quer dizer que a Suécia tenha escapado completamente das consequências mortais da covid-19.

A Autoridade Sueca de Saúde Pública admitiu que os idosos do país foram atingidos com força, com o vírus se espalhando por 75% das 101 casas de repouso em Estocolmo. Os funcionários das residências reclamam da falta de equipamentos de proteção individual (EPI).

A autoridade anunciou na semana passada que mais de 26% dos 2 milhões de habitantes de Estocolmo estarão infectados até 1º de maio. Mas até mesmo esse número foi apresentado como uma vitória: várias infecções que podem limitar futuros surtos, alcançadas sem sofrer um número excessivo de mortes.

A abordagem mais livre não isolou totalmente a economia da Suécia, principalmente porque o país depende de exportações, disse a ministra das Finanças, Magdalena Andersson. Ela disse que a economia deve encolher 7% este ano, "mas é claro que cabeleireiros, restaurantes e hotéis são menos afetados em comparação com outros países".

Desde os primeiros sinais da pandemia, a Autoridade Sueca de Saúde Pública decidiu que determinar o confinamento seria inútil. "Depois de começar um isolamento, é difícil sair dele", disse o epidemiologista do país, Anders Tegnell. “Como você reabre? Quando?"

Cientistas como Tegnell, que se tornou uma celebridade na Suécia, e não os políticos, conduziram o debate sobre a resposta ao coronavírus.

"Basicamente, estamos tentando fazer a mesma coisa que a maioria dos países está fazendo - diminuir a propagação o máximo possível", disse ele. "Simplesmente usamos ferramentas um pouco diferentes de muitos outros países".

Quando as respostas forem avaliadas após a crise, reconhece Tegnell, a Suécia terá que enfrentar seu amplo fracasso com pessoas acima de 70 anos, que respondem por 86% das 2.194 mortes do país até hoje.

Na ausência de recomendações da Autoridade de Saúde Pública, uma casa de repouso judia perto de Estocolmo decidiu unilateralmente proibir visitantes, disse Aviva Kraitsik, chefe de operações, que pediu que o nome da instalação não fosse mencionado devido às ameaças anteriores que recebeu.

A autoridade de saúde chegou ao ponto de ordenar a remoção das sinalizações com “proibido visitas”. Aviva recusou. "Eu disse que eles poderiam me colocar atrás das grades", disse ela. "Eu estava preparada para aceitar minha punição para proteger nossos residentes".

Mas era tarde demais. O vírus já havia entrado e acabou matando 11 dos 76 moradores.

Somente depois que a casa exigiu que os funcionários usassem máscaras e protetores faciais ao trabalhar , assim como todos os moradores, mesmo os que não apresentavam sintomas, é que conseguiu impedir a propagação da infecção, disse Aviva.

A ministra da Saúde e Assuntos Sociais, Lena, reconheceu que houve uma escassez de EPIs, embora ela também tenha observado que "muitas pessoas no setor de saúde para idosos não estão acostumadas a trabalhar com EPI".

 

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