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A vingança de Uribe

Na política latino-americana, as luas de mel duram pouco. Menos ainda quando a economia encolhe, como é o caso da região, onde o crescimento anual caiu de 5%, na década passada, para 3,6%, em 2012. Menos PIB, mais desemprego, o que deixa inseguros os eleitores, especialmente as novas classes médias, cuja ascensão é o orgulho dos governos de plantão. E menos benesses para remediar as alianças governantes, sempre prontas para se desfazerem quando a torneira oficial se fecha.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2013 | 03h00

Quem consegue chegar ao segundo mandato, normalmente, pena para terminá-lo. Com sua aprovação raspando os 30% e a saúde fragilizada após uma cirurgia de emergência, Cristina Kirchner é o retrato dessa equação impiedosa. Afastada do páreo, arrisca-se em perder sua maioria parlamentar nas eleições legislativas do próximo domingo.

Com oito eleições presidenciais na agenda regional até o fim de 2014, os mandatários que seu cuidem. Chama a atenção o tombo de Juan Manuel Santos, hoje reprovado por quase 70% dos colombianos. Há três anos, ele entrou abençoado na Casa de Nariño. Herdeiro de Álvaro Uribe, a quem serviu como de ministro da Defesa, Santos surfou na popularidade do padrinho, mas logo o superou.

E fez de forma ousada. Fez as pazes com Hugo Chávez, arqui-inimigo de Uribe. Afastou-se de Washington, aliado histórico de Bogotá, e anunciou uma nova rodada de negociações com a mais tinhosa guerrilha da região, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Santos acertou em cheio nos primeiros dois itens. A trégua com Caracas acabou com a guerra fria que paralisava o comércio bilateral. Sem as importações de comida e mantimentos colombianos, a economia bolivariana dificilmente evitaria o colapso. O gelo com Washington, embora mais retórico que real, agradou a ala antiamericana na região e forrou a mesa da negociação com a guerrilha.

No entanto, foi essa última tentação, a quimera de paz com as Farc, que pode ser a ruína de Santos. Iniciada em Cuba, no ano passado, a conversa com a guerrilha atolou. Analistas deram aos negociadores de Bogotá seis meses para selar a paz. Passaram-se 11 e governo e guerrilha só concordaram com um dos cinco itens na pauta, a reforma agrária, e não se entendem mais.

Seria melhor insistir na negociação paralisada, romper o diálogo ou suspendê-lo para ganhar tempo? Enquanto o governo não decide, desgasta a paciência colombiana. "Juan Manuel Santos não estuda nem planeja: improvisa. E esquece-se de que já improvisou, de modo que volta a improvisar em cima do improvisado", afirmou outro dia o normalmente comedido Antonio Caballero, na revista Semana.

É tudo o que o uribismo queria ouvir. O ex-mandatário não pode voltar à presidência, mas sob escudo de seu novo partido, o Uribe Centro Democrático, arquiteta a revanche. Montou sua lista de candidatos apadrinhados e lançou-se para uma vaga no Senado, em 2014, com a promessa de dificultar a reeleição de Santos.

Semana passada, pesquisa da Datexco concluiu que os uribistas podem subtrair mais de 2 milhões de votos das três principais bancadas do Congresso. A mais atingida deve ser a legenda santista, o Partido de la U, outrora partido de seu padrinho, agora inimigo mortal.

Enfraquecidas, as Farc ainda não conseguiram sua meta maior, trocar as armas pela participação garantida no sistema eleitoral. No entanto, mesmo de fora, influem no jogo. Semana passada, Santos aumentou a aposta ao se dizer disposto a sacrificar sua reeleição para conseguir um acordo de paz. Falta saber se os colombianos ainda aceitam bancá-lo.

É COLUNISTA DO 'ESTADO',

CORRESPONDENTE DA REVISTA 'NEWSWEEK' E EDITA O SITE

WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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