A virada coletiva

Agora, Obama escolheu uma equipe e pôs liberalismo à mostra

É COLUNISTA, DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2013 | 02h02

Os melhores discursos de posse propõem alguma coisa. O segundo do presidente Barack Obama, que certamente deve figurar entre os melhores do último meio século, propõe um progressismo pragmático e patriótico.

Seus críticos às vezes o acusaram de ser um outsider, mas Obama teceu sua visão com um fio entranhado no passado da nação. Ele contou uma história americana que começou com a Declaração de Independência e, em seguida, mencionou a legislação ferroviária, a Era Progressista, o New Deal, a legislação rodoviária, a grande sociedade, Seneca Falls (convenção em 1848 sobre direitos da mulheres), Selma (palco de grandes manifestações por direitos civis) e Stonewall (manifestações pelos direitos de gays).

Voltando ao presente, Obama argumentou que a América precisa mudar sua atitude se quiser continuar a progredir. Problemas modernos como globalização, mudança tecnológica, aumento da desigualdade e estagnação salarial nos compelem a adotar novas medidas coletivas se quisermos perseguir os velhos objetivos de igualdade e oportunidade. Obama não foi explícito sobre por que não conseguimos enfrentar esses desafios. Mas sua crítica foi implícita. Houve "eu" demais - um excesso de individualismo e narcisismo, um recuo excessivo para a esfera privada. Não houve "nós" o suficiente, uma ação comunitária satisfatória para o bem comum.

O presidente descreveu, então, alguns lugares onde uma ação coletiva é necessária: enfrentar o aquecimento global, fortalecer a classe média, defender o sistema de saúde e a previdência social, garantir uma remuneração igual para as mulheres e direitos iguais para gays.

Durante seu primeiro mandato, Obama foi inibido por seu desejo de ser pós-partidário, pela necessidade de não ofender os republicanos com quem estava negociando. Agora ele está liberado. Agora ele escolheu uma equipe e pôs seu liberalismo à mostra.

Não sou um liberal como Obama, por isso fiquei espantado com o que ele deixou fora de sua incursão pela história americana. Eu também celebraria Seneca Falls, Selma e Stonewall, mas também mencionaria Wall Street, State Street (holding de serviços financeiros), Menlo Park e Vale do Silício. Eu enfatizaria que os Estados Unidos prosperaram porque temos um gênio decentralizador.

Quando os europeus nacionalizaram suas religiões, nós decentralizamos e produzimos um grande florescimento de denominações empresariais.

Quando a Europa organizou universidades estatais, nossas diversas comunidades organizaram universidades privadas. Quando os europeus investiram em Estados de bem-estar nacionais, as localidades americanas investiram em capital humano.

As maiores inovações e bênçãos comerciais dos Estados Unidos não foram previstas por aqueles nos escritórios centrais nacionais. Elas emergiram de baixo para cima de improvisadores e gente de fora dos negócios que jamais tinham atraído a atenção de um presidente ou de alguma comissão de investimento público-privada.

Eu teria sido mais respeitoso com esse gênio da descentralização do que Obama foi, mais reticente sobre descartá-la para o bem de uma ação coletiva, mais preocupado de que a centralização levará à estultificação, como levou em qualquer outra instância histórica.

Também penso que Obama não compreende muito bem este momento. As leis de Era Progressista, New Deal e grande sociedade foram passadas quando os Estados Unidos ainda eram uma nação jovem e em crescimento. Foram passadas numa nação que era vibrante, crua, pouco institucionalizada e precisava ser domada.

Já não somos essa nação. Somos agora uma nação madura com uma população que está envelhecendo. Longe de estarmos pouco institucionalizados, estamos atolados num sistema político inchado, um código fiscal confuso, um código legal bizantino e uma dívida esmagadora.

Revigoração. A tarefa de revigorar uma nação madura é fundamentalmente diferente da tarefa de civilizar uma jovem e turbulenta; requer alguma ação coletiva: investir em capital humano. Mas, em outras áreas, envolve também despojar - racionalizar as sinecuras de interesses especiais que se acumularam ao longo dos anos e liberar a ousadia privada.

Revigorar uma nação madura significa usar o governo para dar às pessoas as ferramentas para competir, mas depois abrir um campo amplo para que elas o façam de maneira viva e criativa. Significa gastar mais aqui, mas desregular mais ali. Significa enfrentar o fato de que temos de escolher entre os benefícios atuais para idosos e o investimento em nosso futuro. Fingir que não enfrentamos essa escolha, como Obama fez, é de fato sacrificar o futuro pelo passado.

Obama defendeu sua posição lindamente. Ele se destacou como progressista, prudente, não populista. Mas não estou certo de que ele instigou o debate. Ainda temos um partido que fala a língua do governo e um que fala a língua do mercado. Não temos nenhum partido que esteja confortável com a sociedade civil, nenhum partido que compreenda as maneiras como governo e mercado podem, ambos, esmagar ou nutrir a comunidade, nenhum partido com novas ideias sobre como essas coisas poderiam se combinar.

Mas ao menos o debate começou. Talvez cheguem os novos ventos. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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