A virada no poder americano

Classe média não é mais decisiva como foi para a economia e a identidade dos EUA

Fareed Zakaria, O Estado de S. Paulo

04 Janeiro 2016 | 03h00

Por que a classe média americana suburbana e conservadora dos EUA está se matando? O fato, provavelmente a maior descoberta das ciências sociais em anos, já está redesenhando a política. Jeff Guo, do jornal Washington Post, observa que as pessoas que formam esse segmento da sociedade são “amplamente responsáveis pela liderança de Donald Trump na corrida pela indicação republicana à presidência”. 

A pergunta-chave é por quê, e seu aprofundamento traz respostas sugerindo que o ódio dominante na política americana vai apenas piorar as coisas que já estão ruins. 

Por décadas, as populações de países ricos viveram mais. Mas, em um já famoso estudo, os economistas Angus Deaton e Anne Case descobriram que nos últimos 15 anos um grupo – brancos americanos de meia-idade – vem apresentando uma tendência alarmante. Essas pessoas estão morrendo em números recordes. 

E as coisas parecem muito piores para aqueles que têm apenas diploma secundário, ou menos. Há algumas dúvidas quanto aos cálculos, mas mesmo os principais críticos do estudo concordam em que, seja qual for a mensuração, “a mudança, comparada com o que ocorre em outros países e grupos, é imensa”. 

As principais causas das mortes são tão impactantes quanto o próprio fato – suicídio, alcoolismo, overdose de remédios controlados e drogas ilegais. “As pessoas parecem estar se matando, devagar ou rapidamente”, me disse Deaton. O quadro é geralmente causado por estresse, depressão e desespero. O único pico semelhante de mortes registrado num país industrializado ocorreu entre homens russos na sequência do colapso da União Soviética, quando o alcoolismo disparou. 

Razões. Uma explicação convencional para esse estresse e ansiedade da classe média é que a globalização e as mudanças tecnológicas vêm aumentando a pressão sobre o trabalhador médio das nações industrializadas. No entanto, a tendência não existe em nenhum outro país ocidental – é um fenômeno exclusivamente americano. 

Os EUA estão, hoje, relativamente isolados das pressões da globalização, com um vasto e autossuficiente mercado interno. O comércio responde por apenas 23% da economia americana, em comparação com 71% na Alemanha e 45% na França. 

Deaton sugere que, talvez, o maior bem-estar social da Europa possa estar diminuindo alguns dos medos associados às rápidas mudanças. 

Ele certamente acredita que, nos EUA, médicos e empresas farmacêuticas sejam muito mais afoitos para lidar com dores físicas e psicológicas receitando remédios – incluindo opiáceos poderosos e indutores do vício. A introdução de drogas como Oxycontin, um analgésico semelhante à heroína, no mercado coincide com o início do aumento das taxas de morte. 

Mas o que explica o fato de não observarmos tal tendência em outros grupos étnicos americanos? Enquanto a mortalidade entre brancos de meia-idade aumenta ou permanece estável, as taxas entre hispânicos e negros decrescem significativamente. Esses grupos vivem no mesmo país e sofrem maiores pressões econômicas que os brancos. Por que não caem em desespero semelhante? 

A resposta pode estar nas expectativas. A antropóloga Carolyn Rouse, de Princeton, sugeriu, numa troca de e-mails, que outros grupos podem não ter as mesmas expectativas de que sua renda, padrão de vida e status social vão melhorar constantemente. Não têm também a mesma confiança em que, se trabalharem duro, com certeza vão progredir. 

Métodos. De fato, diz Rouse, após séculos de escravidão, segregação e racismo, os negros desenvolveram uma série de meios de lidar com o desapontamento e as injustiças da vida – meios como família, arte, discursos de protesto e, sobretudo, religião. 

“Vocês são os veteranos do sofrimento criativo”, disse Martin Luther King aos afro-americanos em seu discurso “Eu Tenho um Sonho”, de 1963. “Continuem trabalhando com a fé em que o sofrimento imerecido redime”.

Luther King explicou em termos pessoais o discurso, escrito em 1960: “Conforme meu sofrimento aumentava, percebi que havia dois modos de lidar com a situação: reagir com amargura ou tentar transformar o sofrimento em força criativa. Assim, como o apóstolo Paulo, posso dizer, humilde, mas orgulhosamente, que ‘trago em meu corpo as marcas do Senhor Jesus’.” 

A experiência hispânica e dos imigrantes nos EUA é diferente, claro. Poucos nesses grupos, no entanto, também creem que seu lugar na sociedade esteja assegurado. Minorias, por definição, vivem à margem. Não acreditam que o sistema tenha sido desenhado para elas. Trabalham duro e com esperança de sucesso, mas não esperam que seja norma isso acontecer. 

Os EUA vivem uma grande mudança no poder. Brancos da classe trabalhadora não se veem como grupo de elite. Mas, se comparados aos negros, hispânicos, americanos nativos e sobretudo aos imigrantes, certamente eles são. 

O segmento foi decisivo para a economia americana, sua sociedade, a própria identidade do país. Não é mais. Donald Trump prometeu que mudará isso e o fará novamente vencedor. Só que ele não pode. Ninguém pode. No fundo, os brancos da classe trabalhadora sabem disso.

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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