Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A visionária Merkel

A chanceler alemã, Angela Merkel, não é uma sentimental. É uma mulher racional, pudica, pragmática e melhor para ler estatísticas bancárias ou algoritmos do que para fazer apelo aos sentimentos. Seu discurso, normalmente, é isento de qualquer lirismo ou desses arroubos "político-históricos" que pautam a afetação dos políticos italianos ou franceses.

Gilles Lapouge , O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2015 | 02h03

Mas Merkel é a única dirigente na Europa que se mostra à altura da trágica provação imposta ao continente com a chegada das multidões de imigrantes vindos da vasta zona que começa no Paquistão e vai até a Tunísia e a África Subsaariana.

Muito bem, Merkel é a única (entre os políticos) que entendeu que há um movimento que extrapola a categoria do político e encontra seu lugar definitivo - o da "grande migração". Ela compreendeu isso.

Visionária, Merkel também está em busca de soluções. E quando um responsável político compreende a dimensão desse fenômeno é para estabelecer regras de comportamento catastróficas. Os partidos fascistas, por exemplo a Frente Nacional, na França, mas também na Inglaterra, Itália, Áustria, depois de dar gritos de horror, explicam que a Europa tem de se proteger atrás de imensas cercas de arame farpado contra os perturbadores da ordem, os esfomeados, os humilhados, os desesperados, cujas hordas vêm à afortunada Europa.

Entre os "humanistas", do gênero socialista, não se fala em devolver os migrantes ao mar, mas sugerem que a Europa adote soluções responsáveis, bruscas, enérgicas, prudentes - em resumo, soluções "realistas", como se diz. Mas onde está o "real" no caso desta hemorragia de dois continentes sobre um terceiro: África e Ásia sobre a Europa (hemorragia, aliás, provocada pelos erros cometidos pela Europa)?

Merkel utiliza outra linguagem. A da história. Da memória deste continente que foi a Europa: "Os direitos civis universais, afirma, eram até agora associados à Europa e à sua história. Se a Europa fracassar na questão dos refugiados, esta não será mais a Europa da forma como nós a representamos".

E faz um alerta. Evocando aqueles que desejam - para solucionar o problema dessa grande migração - que seja abolido o Espaço Schengen, Merkel retruca que se a Europa fracassar diante desse desafio então, sim, deverá abolir Schengen, mas essa será uma enorme derrota da Europa.

Ela resume a questão de uma maneira bela: "Não quero agora tirar para fora todos os instrumentos de tortura. Queremos encontrar uma solução, como bons camaradas". E sua voz se eleva como o de uma professora de escola um pouco prussiana ao se dirigir aos insanos da extrema direita. "Não devemos ter nenhuma tolerância com aqueles que questionam a dignidade de outros homens."

Como esse discurso da chanceler alemã foi ouvido na França, o país mais amigo da Alemanha? A França, há muito tempo desviava o olhar do problema. Mas o drama ganhou força. Paris, por fim, declarou que a França compartilha dos pontos de vista da Alemanha. Ou seja, a generosidade, o sentimento de solidariedade, o respeito à dignidade do ser humano. Antes tarde do que nunca.

Na realidade, há bastante tempo a Alemanha se mostra mais humana do que a França com relação aos refugiados. A Alemanha não só acolhe mais refugiados, mas sobretudo lhes reserva uma acolhida mais generosa. Na França é com o rosto crispado que entreabrimos a porta para os migrantes. Depois, os encurralamos e abandonamos em terrenos baldios abomináveis como em Calais, autêntica vergonha da humanidade.

Claro que há países piores que a França. A Hungria acaba de erguer um muro, como se para conceder uma vitória póstuma aos muros que a União Soviética tanto apreciava. A maior parte dos países da Europa oriental é contra os migrantes. E, desnecessário dizer, a Grã-Bretanha continua a campeã em egoísmo político. Com certeza, muita gente dirá que os discursos, mesmo o de Merkel, embora menos mentirosa do que seus colegas europeus, não convencem ninguém. Os atos são importantes. A Alemanha, este ano, acolherá 800 mil requerentes de asilo! / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.