A visita de Hollande a Argel

Desde o fim da guerra da Argélia, há 50 anos, a viagem à ex-colônia é um exercício obrigatório para todo novo presidente francês. Um exercício obrigatório, mas cheio de espinhos e venenos. Giscard d'Estaing, Mitterrand, Chirac e Sarkozy quebraram a cara ali. Será que François Hollande, que chegou ontem a Argel para uma visita de dois dias, se sairá melhor do que seus predecessores? Citam-se com frequência como exemplo as relações entre a França e a Alemanha. Eis dois países que travaram três guerras no espaço de um século, que se degolaram aos milhões. Um belo dia, após 1945, dois homens, o francês Charles de Gaulle e o alemão Conrad Adenauer, disseram: "Basta de mortos, basta de trevas, de ódios, Agora, nós nos amamos!" E os alemães e franceses, que até ali acreditavam se detestar, perceberam que na verdade se amavam.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2012 | 02h11

Não é assim entre a França e a Argélia. A Argélia foi colonizada durante mais de um século e, em 1954, travou uma guerra de libertação contra a França que durou sete anos e terminou com sua independência da antiga metrópole. Depois, nada a fazer: nenhuma reconciliação. É bem verdade que a guerra franco-argelina foi atroz. Tanto os argelinos como os franceses desceram ao fundo do poço e às vezes, à ignomínia, mas, enfim, os combates entre a Alemanha e a França (na Guerra Franco-Prussiana e nas duas guerras mundiais) não foram tampouco mais amenos e isto não impediu a reaproximação.

François Hollande, homem de boa vontade, vai tentar vencer onde seus antecessores fracassaram. Evidentemente, ele não se entregará ao duvidoso exercício do "arrependimento" que alguns argelinos lhe cobram, mas se empenhará para desfazer a enorme quantidade de contenciosos, de mal-entendidos, de lembranças cruéis ou malsãs, de vaidades e narcisismos, que erguem uma formidável barreira entre franceses e argelinos.

Memória. Um exemplo entre vários: em 1996, muito depois da guerra, sete monges trapistas franceses, homens que permaneceram na Argélia para operar a reconciliação, foram degolados e enterrados perto de seu mosteiro em Tibhirine. Uma vilania. Os argelinos deram prontamente uma explicação, no que foram corroborados pelos franceses: naquela época, os islamistas delirantes do Grupo Islâmico Armado (GIA) semeavam o terror na Argélia.

Foram eles que assassinaram os sete "homens de Deus".

Mais tarde, porém, outras hipóteses graves foram apresentadas. Segundo algumas testemunhas, o sequestro dos trapistas, e depois, seu assassinato, teriam sido planejados pelos militares do Exército argelino e executados em seguida por um comando do GIA. Os militares teriam a intenção de obrigar os monges, que haviam se tornado incômodos, a abandonar aquela região inóspita.

Segundo outros, teria sido uma "mancada" do Exército argelino. Os soldados argelinos teriam confundido os monges com os terroristas do GIA, e os teriam abatido de seus helicópteros. Em seguida, eles teriam maquilado seu equívoco para fazer crer que a chacina fora cometida pelo GIA. Esta teria sido a razão para os soldados argelinos terem cortado as cabeças dos monges e feito desaparecer os corpos crivados de balas.

Passados 13 anos, ainda não se sabe nada. O juiz francês encarregado do inquérito nunca recebeu as autorizações para realizar um inquérito aprofundado, e, em particular, uma exumação das cabeças. Por quê?

Hoje, as famílias dos sete monges martirizados pedem a François Hollande para obter do presidente argelino Abdelaziz Bouteflika "sua inteira cooperação na busca da verdade". Será que ele vai consegui-la? Essa é uma das questões em jogo e uma das condições para eventuais "reconciliações" entre o antigo colonizado e o antigo colonizador. Há muitos outros contenciosos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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