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A vitória de Santos

A vitória de Juan Manuel Santos no segundo turno da eleição colombiana, no dia 15, foi notável por vários motivos.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2014 | 02h02

Primeiramente, porque o presidente conseguiu virar a mesa. Surpreendeu parte dos analistas políticos ao sufocar seu rival, o ex-ministro da economia, Óscar Iván Zuluaga, por 50,89% a 45,06%, que vinha subindo na preferência dos eleitores na mesma velocidade que o acossado presidente caía.

Em segundo lugar, porque, ao se reeleger, Santos sustou o projeto de poder de Álvaro Uribe, seu antecessor e ex-mentor político. De guru, Uribe tornou-se o arqui-inimigo de Santos e fez de tudo para descredenciá-lo nos últimos quatro anos. Impedido de concorrer novamente à presidência, Uribe resignou-se com o papel de eminência parda, escalando Zuluaga, seu candidato "laranja". E fracassou.

Mais impressionante, Santos apostara seu primeiro mandato numa quimera. Propôs encerrar o mais longo conflito armado nas Américas não pelas armas, mas pela conciliação. Mais ousado, quis fazê-lo numa mesa de negociação em Havana, cujo regime esbanjava simpatia pela causa das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as temidas Farc.

É tentador ler a reeleição de Santos como uma consagração. "Esse é o fim de mais de 50 anos de violência no nosso país e o começo de uma Colômbia com mais justiça e inclusão social", exaltou o vencedor no seu discurso de vitória. Ainda levantou a mão, com a palavra "paz" escrita na palma.

Ao vencedor, o salto alto. E pudera. Santos impressionou com sua habilidade na campanha. Conquistou um bloco de votos da vacilante esquerda, com o endosso do ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa e o apoio de Clara López, a quarta colocada no primeiro turno. Ao entoar um tom cordial nos debates nacionais, conseguiu distender o rancor que envenenou o primeiro turno e ainda desmontou o discurso agressivo de Zuluaga, sempre teleguiado por Uribe.

Mas seu canto de galo é precoce. Santos testou a paciência dos colombianos com seu plano de paz, que se arrasta sem acordo, nem rendição dos rebeldes desde outubro de 2012. Por isso, apenas 42% dos eleitores inscritos votaram no primeiro turno, um recorde de abstenção.

Melhorou no segundo turno, quando 48% do eleitorado compareceu. Mesmo assim, 619 mil colombianos votaram em branco. Ao todo, Santos recebeu 900 mil votos a menos do que conseguiu na sua primeira eleição, em 2010.

E para o país? Não ganhou nem a esperança, como Santos afirmou, nem o "santismo". Quem venceu foi mesmo o medo - e em dose dupla. Medo de que voltar ao campo de batalha, como Zuluaga acenou, seria pior do que insistir numa conciliação débil. Triunfou também o medo do desconhecido: o risco de empossar uma marionete, que dançaria de acordo com o mestre Uribe mexendo as cordas por trás dos panos em Bogotá. É um desafio de dimensões andinas para esse país de 45 milhões de habitantes, que vive há meio século na zona cinzenta entre a guerra franca e a paz. A jovem democracia latino-americana, que sobreviveu à ditadura, mas ainda luta para domar as memórias vivas de convulsões sangrentas, conhece bem esse script.

Segundo o cientista político Carlos Pereira, estudioso da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, os países que melhor resolveram seu passado indigesto inventaram mecanismos para trazer os outsiders - bandidos, guerrilheiros e paramilitares - para dentro do jogo eleitoral. Brasil, Chile, Peru, Argentina e Uruguai são exemplos. El Salvador e Guatemala ainda tentam. Em todos, houve e ainda há a tentativa de criar um equilíbrio delicado entre o anseio de desvendar atrocidades passadas sem reabrir feridas mal curadas. Na Colômbia, o conflito nunca terminou e todas as feridas ainda estão abertas. Santos que o diga.

*Mac Margolis é colunista do 'Estado' e chefe da sucursal brasileira do portal de notícias 'Vocativ'

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