A vitória de um intocável na Índia

Hari Pippal, que pertence à casta mais baixa do país, lutou contra o preconceito e tornou-se um milionário

Renata Miranda, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2019 | 00h00

Hari Pippal é um empresário indiano que conseguiu ganhar seu primeiro milhão de dólares montando uma fábrica de sapatos. Sua história poderia ser comum a qualquer outra de sucesso empresarial na Índia de hoje não fosse um pequeno detalhe: Pippal, de 58 anos, é um intocável. Ele pertence ao patamar mais baixo do sistema de castas da sociedade indiana, os párias ou dalits (leia abaixo), o que torna sua escalada social incomum e um exemplo a ser seguido. "Eu sou um intocável e tenho orgulho de ser quem sou. Sempre trabalhei muito para conseguir chegar ao topo", disse Pippal, por telefone, ao Estado.No hinduísmo, os párias são discriminados por não terem uma casta específica. Eles são chamados de "intocáveis" porque são vistos como sujos. Basta o contato com eles para tornar impuro um integrante de uma casta superior. Os dalits têm esse estigma por exercerem trabalhos considerados "imundos" pela sociedade, como lavar roupa, limpar banheiros ou recolher o lixo. A discriminação com os intocáveis ainda é muito forte, por isso a trajetória de sucesso de Pippal no mundo dos negócios é tão incomum.O indiano conta que o início de sua vida não foi fácil. Aos 16 anos, o pai do empresário - que era sapateiro - sofreu um acidente e ficou paralisado. Sem ter como trabalhar, o pai pediu a Pippal para que ele suspendesse seus estudos para trabalhar e ajudar a sustentar sua mãe, oito irmãos e seis irmãs. Mesmo sem ter completado a escola, Pippal fala seis idiomas - entre eles, inglês, russo e alemão. "Um dos meus hobbies é estudar. Gosto de aprender sozinho."Ele conta que decidiu ser empresário há 30 anos. "Eu morava em uma casa alugada de cerca de 12 metros quadrados junto com minha mulher, meus cinco filhos e minha filha." Segundo ele, o espaço era tão pequeno que ele tinha de dormir no chão. "Foi aí que vi que tinha de trabalhar muito e investir principalmente na educação dos meus filhos." Decidido a mudar de vida, Pippal conseguiu um empréstimo em um banco para dar início a sua fábrica de sapatos. Hoje, ele é dono de quatro empresas - uma revendedora de carros Honda, uma exportadora, uma fábrica de sapatos e um hospital na cidade de Agra, onde fica o Taj Mahal - e tem seu patrimônio avaliado em cerca de US$ 4 milhões.PRECONCEITONa Índia, pessoas de castas diferentes são normalmente identificadas pelo sobrenome. Assim, quando Pippal abriu sua exportadora decidiu dar o nome de People?s Export (Exportadora do Povo) porque temia que seu negócio fosse prejudicado se usasse seu nome. "Não queria que minha empresa fosse vista apenas como o ?negócio de um dalit?. Então, escolhi People porque tem o som parecido ao do meu sobrenome", explica.Quando inaugurou seu hospital, em 2004, o empresário teve muita dificuldade em recrutar médicos para trabalhar com ele. "Sofri muito preconceito por ser um pária", conta. "Nenhum médico de castas superiores queria trabalhar comigo." Foi então que o indiano decidiu procurar médicos fora de Agra. "Eu tinha de provar para todos que poderia ser bem-sucedido mesmo sendo considerado inferior pela sociedade."Hoje, o Heritage Hospital é um dos hospitais mais respeitados da região. Segundo Pippal, agora, os médicos de castas superiores o procuram pedindo emprego. "Eu não guardo ressentimentos. O que não entendo é por que não vieram trabalhar comigo antes." Ele conta que seu hospital tem muitos médicos dalits. "Convidei médicos da minha própria casta e alguns deles são melhores do que médicos de outras castas." No entanto, Pippal afirma que seu hospital não separa seus pacientes de acordo com o sistema de divisão hindu. "Eu nunca penso que esse é um hospital de intocáveis ou um hospital de gente superior. Amo todas as pessoas e acredito que todos devam ser tratados de maneira igual."Além de suas empresas na Índia, Pippal abriu recentemente um escritório na Alemanha para administrar suas exportações. O indiano afirma que quer expandir seus negócios ao redor do mundo. Para os empresários brasileiros, ele deixa um recado: "Quero mandar meus sapatos para o Brasil e fazer negócios com vocês."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.