A vitória dos tesouros destruídos

Ao massacrar as esculturas do Museu de Mossul, jihadistas reconheceram que elas os afetavam

GILLES LAPOUGE , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

01 Março 2015 | 02h00

O Daesh, isto é, o Estado Islâmico (EI), que se instalou há alguns meses no norte do Iraque e no norte da Síria, já não se contenta em assassinar homens, mulheres, crianças. Na manhã de quinta-feira, ficou-se sabendo que homens do EI - que em junho haviam tomado Mossul, a grande cidade do norte do Iraque - não se contentaram com o sangue de seres humanos. Eles cometeram um outro crime: quebraram os tesouros do Museu de Mossul, estátuas, afrescos, pinturas. Uma porção imensa da história humana foi aniquilada.

Nos dois casos (o massacre dos humanos ou o massacre das estátuas), os fanáticos do EI, longe de esconder suas infâmias, tomaram o cuidado de celebrá-las ruidosamente, ignobilmente. E, nesses dois casos, as mesmas justificativas: o profeta Maomé foi insultado, vilipendiado, incompreendido. É preciso, pois, vingá-lo matando homens e quebrando estátuas.

Qual foi o crime cometido por essas estátuas quebradas do Museu de Mossul? Seu pecado foi terem sido esculpidas antes que o profeta Maomé entrasse na história, no século 7.º. São objetos que datam do começo dos tempos, alguns com 15 séculos de idade, e celebram divindades que os muçulmanos consideram imposturas. Por exemplo, divindades assírias. Essas estátuas não passam de ídolos. É preciso quebrá-las.

Em 2001, uma infâmia parecida já nos havia revoltado. No Afeganistão, em Bamiyan, homens do Taleban atacaram duas esculturas de Buda numa falésia de arenito. Esses Budas eram imensos. Um deles tinha 53 metros de altura. Eles foram talhados na falésia entre os anos 300 e 700. OS militantes do Taleban os haviam suprimido em virtude de um dos preceitos do Islã: toda representação humana é proibida.

A destruição dessas obras-primas mobilizou recursos de grande porte. Os Budas foram bombardeados com tiros de canhão por mais de 20 dias. O chefe do Taleban, mulá Omar, felicitou suas tropas: "Estou orgulhoso por vocês terem suprimido os traços de uma religião de degenerados".

Mais perto de nós, em 2010, a cidade de Timbuctu, no Saara, sofreu as mesmas afrontas. Timbuctu é uma cidade santa. Apelidada "cidade dos 333 santos", ela brilha há séculos com os soberbos monumentos e sepulturas edificados em homenagem a esses santos muçulmanos. E foi com grito de "Allahu Akbar" (Deus é o maior) que os jihadistas do deserto botaram abaixo essas sepulturas sublimes. As justificativas? Um mausoléu para os restos de um santo muçulmano é um culto da personalidade. O Alcorão proíbe.

O Taleban ou os jihadistas do EI não inventaram nada: o ódio a imagens, a livros, a estátuas acompanha a história da humanidade. Nos meandros do tempo, o clarão dos incêndios de livros, o estrondo dos tiros de canhão disparados nas esculturas do Buda e o sangue dos crimes de Mossul se respondem.

Seria possível escrever a história universal seguindo o caminho dos profanadores, depois dos piratas que atacaram as argilas de Creta, 11 séculos antes de Jesus Cristo, até os canhonaços que abateram as efígies monumentais de Buda, no Afeganistão, sob nossos olhos.

Como dizer o desprezo que esses soldados do nada merecem? E como não ver, ao mesmo tempo, que, ao quebrar estátuas, os imbecis do Museu de Mossul e os energúmenos que canhonearam os Budas reconheceram, eles mesmos, com voz tonitruante, sua derrota?

Paradoxalmente, ao jogar no deserto objetos, livros, esculturas ou pinturas, eles prestam homenagem aos tesouros que massacram, eles reconhecem a vitória deles.

Ossip Mandelstam, um dos maiores poetas soviéticos, foi deportado, em 1934, e morreu, em 1938, na região de Vladivostok. Ele havia escrito alguns panfletos contra o regime. Mas, principalmente, era a poesia que estava sendo visada por seu carrasco.

Quando estava no exílio, e já muito fraco, ele recebeu a visita de sua mulher, Nadejda. Ela chorou. Ela compreendeu que Mandelstam não resistiria àquele tratamento. E Ossip Mandelstam, com voz doce, lhe disse: "Você vê, Nadejda, Stalin, ao menos, leva a poesia a sério". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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