A vitória relativa dos partidos britânicos

Trabalhistas evitam derrota humilhante; tories tornam-se maior bancada, mas não obtêm maioria; e liberais convertem-se em fiel da balança, mas perdem cadeiras

Jonathan Freedland, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2010 | 00h00

THE GUARDIAN

Para a tribo política, de costumes primitivos, o momento em que o relógio soa as dez badaladas da noite no dia das eleições é de uma intensidade urgente, quase física.

Eles assistem a tudo com atenção, enquanto o sumo sacerdote tribal - o apresentador de TV David Dimbleby - mostra os números das pesquisas de boca de urna, como se exibisse as entranhas de um bode que acabara de ser sacrificado. Os membros da tribo, os políticos e aqueles que os seguem, reúnem-se para analisar e interpretar o que veem.

Na noite de quinta-feira, as pesquisas de boca de urna trouxeram notícias que confirmaram algumas expectativas - e sugeriram uma previsão tão chocante que lançou dúvidas a respeito da credibilidade de todo o processo.

A previsão das pesquisas de boca de urna, indicando a formação de um Parlamento sem maioria, com os conservadores ocupando o maior número de cadeiras entre os partidos, estava de acordo com aquilo que a maioria dos aldeões de Westminster esperava.

A reviravolta ocorreu quando a BBC mostrou projeções segundo as quais os liberais ficariam com apenas 59 cadeiras, 3 a menos do que nas últimas eleições.

Será que isso se confirmaria? Teria sido tão grande o estrago provocado pelo estouro da bolha da "cleggmania" a ponto de fazer o partido dele perder espaço, em vez de ampliar sua participação?

Até Dimbleby, o grande pajé, pareceu incrédulo. No mínimo, essas interpretações significavam uma longa noite, com a tensão estendendo-se até a manhã, à espera não dos cálculos de um modelo computadorizado, mas dos resultados em si: a voz do povo.

Antes das 22 horas, a tribo teve de lidar com augúrios menores. No começo do dia, seus membros voltaram os olhos para os céus em busca de presságios. Onde brilhasse o sol poderia haver um sinal: a sabedoria ancestral do clã dizia que o tempo bom favorecia os trabalhistas, pois esses eleitores de renda mais baixa, que não possuem carros, seriam afastados das urnas em caso de chuva.

Como era de se esperar, surgiram rumores de uma presença maior nas urnas. Havia filas diante de algumas zonas eleitorais, e mesários relatando atividade mais intensa do que o normal em outros distritos.

O universo do Twitter agitava-se com a sugestão de que algo estaria acontecendo. Mas o quê?

Otimistas, trabalhistas adivinharam que seriam eles próprios os beneficiados. Afinal, é este o significado habitual de uma forte presença nas urnas. Mas e se neste ano as coisas fossem diferentes?

Alguns disseram que o grande número de eleitores era decorrência da presença dos votantes mais jovens, que enfatizam as cadeiras concedidas aos estudantes.

Isso, sem dúvida, significaria um momento de sucesso para os liberais, sinal de que Nick Clegg não apenas atraiu jovens previamente apáticos para sua campanha, como também conseguiu arrastá-los para as urnas.

Se essa interpretação se mostrasse correta, o resultado poderia ser uma safra de cadeiras especialmente rica para os liberais ou - talvez mais provavelmente - poderia simplesmente dividir o eleitorado anticonservador, prejudicando os trabalhistas e ajudando os conservadores. Ou, talvez, significasse o oposto.

As coisas ficaram assim durante horas: os obsessivos trocando rumores, palpites e pressentimentos. Outros preferiram deixar de lado a especulação e dedicar-se à conspiração.

Para os trabalhistas, isso significou comentários previsíveis feitos pelos seus líderes: "Seria ruim se Gordon Brown deixasse o cargo imediatamente? Será que ele tentará permanecer como primeiro-ministro? Será que anunciará sua renúncia? Ou dirá que pretende fazê-lo posteriormente?"

Outros trabalhistas, preferindo se expressar por meio de sussurros, começaram a falar na vida pós-Gordon Brown: quem seriam os nomes do novo governo? Não era possível encontrar muitos trabalhistas - nenhum, na verdade - que acreditassem na capacidade do partido de obter uma vitória, por mais magra que fosse.

Quanto aos conservadores, eles não sabiam ao certo o que pensar.

Quando foram conhecidos os resultados das pesquisas de boca de urna, os tories não sabiam se deveriam comemorar a previsão de que superariam os trabalhistas como o maior partido no Parlamento ou chorar por não terem conseguido formar uma maioria - apesar de estarem enfrentando um governo com o desgaste natural de 13 anos no poder, liderado por um primeiro-ministro extremamente impopular.

Até o fim da noite de ontem, apesar da intensa movimentação dos líderes partidários, a situação política do país seguia indefinida. Se a tribo esperava por clareza, o sumo sacerdote a desapontou. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA DE POLÍTICA EXTERNA

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