A vocação para tolerância da América Latina

O fascismo ao estilo europeu, que não só discrimina, mas também persegue e até extermina, tem sido exceção na região

ENRIQUE, KRAUZE, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2014 | 02h06

Antes de cada partida da Copa do Mundo no Brasil, os jogadores se alinhavam diante de uma bandeira que dizia "Diga Não ao Racismo". A mensagem era particularmente dirigida aos estádios de futebol da Europa, onde têm ocorrido muitos casos de insulto racial e agressão física por torcedores hostis contra jogadores africanos e outros negros.

Apesar de um astro latino-americano (o psicologicamente perturbado uruguaio Luis Suárez) ter proferido uma ofensa racial pesada em 2011 quando jogava num clube inglês, os estádios da América Latina têm estado, em sua grande maioria, livres deste fenômeno, mesmo com o fervoroso nacionalismo e fanatismo dos torcedores.

A América Latina teve, é claro, sua dose de racismo violento ao longo dos anos: os argentinos virtualmente exterminaram seus índios, e mesmo no Brasil, nosso país racialmente mais integrado (que só aboliu a escravidão em 1888), a população negra ainda enfrenta preconceitos e obstáculos ao poder. Mas o fascismo ao estilo europeu - que não só maltrata e discrimina, mas também persegue e, no pior dos casos, tenta exterminar outros em razão de sua etnia - tem sido a exceção e não a regra na América Latina moderna.

A questão do racismo varia de país para país. Em lugares onde a mistura de etnias (mestiçagem) e culturas prevaleceu sob os impérios espanhol e português - países como México, Colômbia e Brasil - as atitudes e práticas racistas foram bem menos pronunciadas. Onde as populações indígenas permaneceram física e culturalmente separadas dos espanhóis - no Peru, Bolívia, Equador, Guatemala e norte do Chile - a discriminação racial contra os índios foi mais forte e, em alguns casos, persiste até nossos dias. Num país como a Venezuela, com uma pequena população indígena, uma enorme mistura de ex-escravos africanos e uma minoria de crioulos (de descendência espanhola não miscigenada), é comum um linguajar depreciativo com base na cor da pele. Uma das realizações de Hugo Chávez (o ex-presidente venezuelano era mestiço) foi afirmar as pretensões a um tratamento justo pela maioria da população de pele escura, chegando a inventar uma linhagem afro-americana para o libertador crioulo de boa parte da América Latina, Simón Bolívar.

O escritor americano John Reed, que cavalgou com Pancho Villa em 1913, observou que os mexicanos pareciam pouco preocupados com a cor da pele (em grande contraste com o racismo nos Estados Unidos).

Reed obviamente conheceu o México em tempo de guerra e de camaradagem entre soldados revolucionários; traços mais sutis da cultura (como a maior incidência de sentimento racista entre algumas famílias crioulas) escaparam da sua experiência. Mas a história mexicana ainda comporta suas observações gerais sobre raça.

Benito Juárez, talvez o maior presidente que o México já teve e que presidiu o país na guerra e na paz de 1858 a 1872, era um índio zapoteca. Em outros lugares da América Latina, o único outro índio eleito para o mais alto cargo de um país é o atual presidente da Bolívia, Evo Morales. No México, porém, desde a era Juárez, somente três presidentes foram crioulos, enquanto os demais foram mestiços de ancestralidade mista. Existe de fato um elemento de tolerância racial na própria base da cultura mexicana. Ele deriva de uma corrente dentro da Igreja Católica, exemplificada pelo grande apóstolo dos índios, Bartolomé de las Casas, que persuadiu o rei da Espanha de que os índios tinham alma e não deveriam ser formalmente escravizados.

Embora esta posição não tenha sido universalmente apoiada e honrada pelos proprietários coloniais espanhóis, foi um forte elemento de dissuasão a uma maior degradação da população indígena da Nova Espanha, já dizimada por doenças importadas da Europa. Infelizmente, Las Casas não defendeu o valor (ou talvez a existência) de almas africanas e insistiu para os índios escravizados nos trabalhos mais extenuantes (plantações de cana-de-açúcar e minas) serem substituídos por escravos africanos, uma sugestão que ele mais tarde lamentaria e rejeitaria.

Escravidão. Estimados 200 mil a 500 mil africanos escravizados foram trazidos para Nova Espanha. Mas graças em parte a um corrente subterrânea de igualdade entre diferentes etnias, a escravidão africana na Nova Espanha foi um pouco menos degradante do que nos Estados Unidos. Ela foi declarada ilegal pela primeira vez em 1810 pelo padre Miguel Hidalgo, que liderou uma insurreição de curta duração contra os governantes coloniais, e depois formalmente abolida em 1821 após uma vitória duramente alcançada na luta pela independência mexicana que teve dois mestiços parcialmente africanos entre seus líderes mais proeminentes, José María Morelos e Vicente Guerrero. A igualdade e liberdade de todos os mexicanos foi então inscrita nas primeiras constituições do país e os últimos escravos foram emancipados em 1829. Antes da emancipação, os escravos africanos teriam desfrutado de mais privilégios do que os indígenas.

Eles podiam comprar sua liberdade e circular pela Nova Espanha com alguma liberdade. Embora algumas ocupações lhes fossem vedadas, a maioria não era, e eles com frequência prosperaram em vários comércios e profissões, contribuindo, assim, para a inclusão social dos mestiços.

O problema persistente do México é o da aguda diferença de classes - "classismo" em vez de racismo - embora seja errado negar que o racismo para com os índios continue pesando em algumas partes do país. O México é um lugar complexo, mas suas identidades regionais, culturais e étnicas não estão todas em conflito umas com as outras. Desde os tempos da Conquista espanhola, a sociedade mexicana sempre favoreceu a mistura e o sincretismo. Ninguém usa a palavra mestiço na fala ordinária pela simples razão de que quase toda a população tem origem mista - espanhola, índia e africana. É a inclusão cultural presente na religiosidade, arte, comida e até nos nomes das e cidades do México que determina e fortalece a maneira como os mexicanos encaram o mundo moderno.

Há uma mancha atroz na história moderna do México: a perseguição e morte de imigrantes chineses no norte do México nas primeiras décadas do século 20. Mas, em geral, a América Latina recebeu e abrigou muitas nacionalidades que fugiam da fome e de perseguições - e o México esteve na linha de frente desta receptividade e abertura. Este é um traço nacional que os americanos deveriam reconhecer e valorizar quando julgarem sobre o atual aumento do número de imigrantes que chega do México e da América Central. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É HISTORIADOR, EDITOR DA REVISTA LITERÁRIA 'LETRAS LIBRES' E AUTOR DE 'OS REDENTORES: IDEIA E PODER NA AMÉRICA LATINA'

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