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A volta da energia nuclear

Ao anunciar a construção de usinas, retomando uso de tecnologia atômica para gerar energia, Obama responde aos desafios ambientais de hoje

PATRICK MOORE, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

O anúncio do presidente americano, Barack Obama, de que seu governo vai garantir empréstimos para a construção de duas usinas nucleares com projeto avançado, na Geórgia, foi uma boa notícia.

Esse envolvimento dá um novo impulso ao setor de energia nuclear dos Estados Unidos, quando começamos a compreender que a energia nuclear tem um papel substancial a cumprir no combate às mudanças climáticas e para a oferta de energia. Mais importante ainda é que, no curto prazo, o governo colocou a energia nuclear no centro de seus esforços para revitalizar a economia.

Em seu discurso sobre o Estado da União, Obama insistiu em uma "nova geração de usinas de energia nuclear limpas e seguras" para criar mais "empregos no setor da energia limpa". O governo deve triplicar as garantias de empréstimo federais para os novos reatores. E, ao anunciar os empréstimos para essas novas centrais na Geórgia, o presidente também exortou os americanos céticos a reexaminar suas ideias sobre a energia nuclear e entender a importância dessa tecnologia comprovadamente segura, para aumentar a estabilidade energética e a proteção do clima.

"Numa questão que afeta nossa economia, nossa segurança e o futuro do planeta, não podemos continuar emperrados nos mesmos e velhos debates entre a esquerda e a direita, entre ambientalistas e empreendedores", disse o presidente.

Essa declaração sensibilizou-me. Quando ajudei a fundar o Greenpeace, na década de 70, estava convencido de que os riscos do uso da energia nuclear eram maiores que os benefícios. O Greenpeace ainda adota a mesma tese, mas minha opinião mudou, em parte porque muitos dos riscos que me preocupavam foram descartados. Da mesma maneira, os conselhos editoriais dos jornais The New York Times e Washington Post concordam com o presidente que a energia nuclear deve ser parte do portfólio energético dos EUA à medida que o país se direciona para uma base energética com menos carbono.

Essa reviravolta pública e política oportuna está enraizada num histórico de segurança que tem décadas. Atualmente, as usinas nucleares fornecem um quinto da energia dos EUA. E ninguém até hoje foi vitimado por causa de algum problema em uma dessas usinas em território americano, nem há ocorrência de morte por radiação de algum trabalhador dessas usinas.

Graças às rigorosas normas de segurança de proteção dessa infraestrutura crítica, as usinas nucleares são bem protegidas contra ameaças potenciais à sua segurança.

Os desafios duplos da mudança climática e da crescente demanda de eletricidade exigiram que os Estados Unidos e outros países buscassem fontes de eletricidade com menos carbono e em larga escala. A energia nuclear é uma parte importante desse esforço global, uma vez que não tem equivalente quando o objetivo é produzir eletricidade livre de emissões tóxicas e em grande escala.

Ganhos. Os reatores nucleares produzem mais de 70% da eletricidade livre de carbono nos EUA. A Califórnia teria de retirar mais da metade de um milhão de carros de passageiros de suas estradas para eliminar o volume de dióxido de carbono evitado pelos quatro reatores nucleares do Estado.

Por mais atrativos que sejam os ganhos ambientais, os ganhos econômicos no caso de muitos Estados são ainda mais importantes. Os dois reatores a ser construídos na Geórgia devem criar 3.500 postos de trabalho durante a construção e 800 empregos permanentes quando estiverem em funcionamento.

Cerca de 21 mil empregos devem ser criados se todos os reatores nucleares em fase de planejamento forem construídos, segundo relatório da Clean and Safe Energy Coalition, uma aliança nacional presidida por mim, com a ex-diretora da Agência de Proteção Ambiental (EPA na sigla em inglês) Christine Todd Whitman. A CASEnergy é financiada pela indústria nuclear.

Embora alguns críticos estejam questionando os custos da construção dessas usinas, é importante analisar a questão em perspectiva. A título de comparação, para obter-se a energia produzida por um reator, a um custo de US$ 6 bilhões a US$ 8 bilhões, seria necessária uma fazenda eólica de 81 mil hectares e US$ 12 bilhões de capital de investimento, mais as usinas de gás natural para fazer funcionar as turbinas eólicas, que ficam ociosas a maior parte do tempo.

Encorajados pelos benefícios econômicos e ambientais propiciados pela energia nuclear, cada vez mais americanos aprovam a energia nuclear.

Esse consenso que vem surgindo será crucial para assegurar que a energia nuclear continue tendo um papel fundamental para atingirmos as metas ambientais e energéticas . Como Obama disse ao anunciar o primeiro empréstimo federal para projetos de energia nuclear, "este é apenas o começo".

A proposta do presidente de triplicar as garantias de empréstimos para o setor ajudará a financiar um número estimado de sete a dez novos reatores - um começo importante. O fato é que muitos outros reatores nucleares serão necessários apenas para manter os atuais 20% da produção de toda a eletricidade do país. O Electric Power Research Institute concluiu, recentemente, que pelo menos 45 novos reatores serão precisos como parte de um portfólio de tecnologias que ajudarão a reduzir as emissões de dióxido de carbono, de modo a chegarmos a uma redução de 42% de gases com efeito estufa em 2030, como pretende o Congresso.

No início deste ano, o secretário de Energia, Steven Chu, intensificou esses esforços, formando uma comissão de cientistas e outros especialistas para avaliar as opções políticas, incluindo uma pesquisa sobre a reciclagem de combustível nuclear. Cerca de 95% do conteúdo da energia permanece como urânio combustível depois de um único uso num reator.

Países como França, Japão e Grã-Bretanha já fizeram grandes avanços na extração da energia não utilizada resultante do combustível nuclear usado, reduzindo ao mesmo tempo o volume e a longevidade dos subprodutos não aproveitados. Empregando técnicas de reciclagem modernas, uma fabricação de combustível também avançada e novos projetos de reatores, conseguiremos transformar o que é hoje considerado lixo nuclear numa das mais valiosas fontes de energia no futuro.

Enquanto isso, os subprodutos com alto teor de radioatividade são armazenados de modo seguro em instalações autorizadas pela administração federal ou nos 64 locais onde se encontram os reatores em todo o país.

O novo mandato político do governo Obama que vai fazer da energia nuclear um elemento-chave da política ambiental e energética do país é bem-vindo, mas não é uma surpresa. O presidente já apoiava a energia nuclear durante sua campanha para a Casa Branca. Hoje, preocupações cada vez mais prementes sobre a economia e o meio ambiente estão chamando a atenção para a energia nuclear, ante a possibilidade de se criar dezenas de milhas de empregos bem remunerados e produzir uma energia livre de dióxido de carbono. Ao dar esse impulso para a produção de energia nuclear, o presidente colocou o país bem mais perto de realizar um futuro sustentável e com energia limpa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

PRESIDENTE E PRINCIPAL CIENTISTA DA GREENSPIRIT STRATEGIES LED. E COPRESIDENTE DA CLEAN AND SAFE ENERGY COALITION

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