A volta de Berlusconi ao cenário político

Sempre que aparece na TV popularidade de ex-líder cresce

É JORNALISTA, RACHEL, DONADIO, THE INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE, É JORNALISTA, RACHEL, DONADIO, THE INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2013 | 02h07

Os ternos transpassados escuros são velhos conhecidos, mas agora o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi deu de usar um ocasional chapéu fedora que lhe confere um ar retrô e dissoluto no momento em que ele embarca no que muitos italianos, investidores estrangeiros e, sem dúvida, a chanceler alemã, Angela Merkel, gostariam que não ocorresse jamais: outra campanha eleitoral.

Nas últimas semanas, Berlusconi, um candidato de centro-direita, inundou as ondas aéreas com uma mistura teatral de populismo anti-establishment, isso de alguém que governou a Itália durante a maior parte da última década. Seus principais alvos são o premiê Mario Monti, um tecnocrata bem comportado que está disposto a manter seu cargo, e Merkel, qualificada por ele como a capataz da austeridade que está sufocando a Europa meridional.

Cada hora que ele aparece na TV Berlusconi cresce nas sondagens de opinião. Seu partido Povo da Liberdade está em segundo lugar, atrás do Partido Democrático de centro-esquerda e à frente do nascente bloco centrista. Analistas em geral concordam que há pouca chance de Berlusconi governar a Itália novamente após as eleições de fevereiro. Mas dizem que ele provavelmente ganhará assentos suficientes no Parlamento para alcançar seus objetivos: proteger seus interesses em questões como reforma do Judiciário, direitos de TV digital e legislação sobre grampos telefônicos - e enfraquecer o Partido Democrático de centro-esquerda e Monti.

"É um tempo muito confuso", disse Giuliano Ferrara, editor do diário conservador Il Foglio e consultor ocasional de Berlusconi. "As pessoas não querem o de dentro", ele disse de Berlusconi, "e não querem o de fora", sobre Monti.

'De fora'. Berlusconi, um político bom de campanha, qualificou a si como alguém de fora enquanto fazia de Monti um "de dentro", ele que foi celebrado quando assumiu o cargo em novembro de 2011 precisamente por ser visto como apolítico. Apesar de seus imbróglios legais e do desempenho tétrico da economia italiana sob a sua liderança, Berlusconi mantém uma popularidade residual decorrente do domínio da mídia e da falta de partidos concorrentes fortes.

Na semana passada, Berlusconi esteve num programa de TV apresentado por um velho inimigo. Questionado sobre o número de políticos com registros criminais eleitos na chapa de seu partido ao longo dos anos, Berlusconi disse que não os tinha procurado: "Você pega 100 padres e não encontra 100 santos".

"Este país é ingovernável!" disse jovialmente, somente para ser lembrado que seu governo tivera a maior maioria na história italiana do pós-guerra. Em outro momento, Berlusconi se levantou ultrajado e ameaçou sair, mas acabou se acalmando, tirando com destreza um lenço branco para esfregar acadeira antes de se sentar de novo. O programa atraiu nove milhões de espectadores.

"Ele é um ex-primeiro-ministro que está fazendo gags de comediante na televisão", disse Marco Damilano, um correspondente político de L'Espresso, uma revista semanal de esquerda cuja cabeça Berlusconi pretendeu jocosamente atingir com um pôster num programa de televisão na terça-feira.

Populista esperto que é, Berlusconi tem vociferado contra as políticas de consolidação fiscal defendidas pela Alemanha, não soando muito diferente do partido esquerdista Syriza da Grécia, que lidera nas pesquisas de opinião de seu país. Ele também deu de citar o colunista Paul Krugman do New York Times, um crítico da austeridade.

Sua mensagem atingiu um nervo na Itália e ajudou a colocar Monti, o queridinho da Europa e dos Estados Unidos, que acalmou a especulação financeira e recolocou a Itália no cenário mundial, na defensiva, na televisão, um meio que Berlusconi domina como Fred Astaire dominava um palco de dança.

Aparecendo no programa de entrevistas mais assistido da Itália na segunda-feira à noite, Monti, que rotineiramente trata seu antecessor com discreta ironia, disse que Berlusconi, como um flautista de Hamelin, está enfeitiçando a Itália, mas a conduziria à morte.

Muitos analistas dizem que, apesar de Monti ter ajudado a tirar a Itália da beira do abismo, ele superestimou sua popularidade como político. Muitos italianos estão descontentes por ele ter aumentado a idade de aposentadoria e criado um imposto predial impopular que muitos dizem que não podem pagar (Berlusconi tinha dito que eliminaria alguns impostos sobre propriedade prediais como promessa de campanha antes de vencer a eleição de 2008).

Como senador vitalício, Monti não precisa vencer a eleição, mas ele é basicamente um candidato sem partido, chefe de um grupo incoerente de centristas sem atuação política forte.

'Terceira roda'. "Ele poderia ser um fator de estabilidade, mas está rapidamente se tornando outro fator de instabilidade", disse Damilano. Ao concorrer para ajudar a "condição" dos outros partidos e não para vencer, disse ele, Monti "já perdeu suas aspirações políticas e corre o risco de se tornar uma terceira roda", apanhado entre a esquerda e a direita.

O grande medo, acrescentou Damilano, é que as eleições não consigam produzir um governo estável, como ocorreu na Grécia em junho último antes da realização de um segundo turno.

Os analistas dizem que não se deve ignorar o Movimento Cinco Estrelas de Grillo, que ficou em primeiro lugar nas eleições regionais na Sicília e é popular entre os jovens fartos da classe política italiana. Ele é basicamente um partido sem líder, já que Grillo não pode ser eleito, pois foi condenado por homicídio culposo num acidente de carro em que três pessoas morreram.

A campanha de Berlusconi é amplamente vista como de tentativa de recapturar eleitores que desertaram para Monti e Grillo. Analistas dizem que as aparições do ex-premiê na mídia tiveram um efeito importante: ajudaram a pôr seu partido em primeiro lugar nas pesquisas na poderosa região da Lombardia, depois que ele fez as pazes com um ex-aliado, a Liga do Norte, para apoiar seu candidato para presidente regional. Uma vitória da centro-direita na Lombardia poderá privar o Partido Democrático de uma clara maioria no Senado, onde os assentos são determinados, em parte, pelos resultados regionais. Isso significa que a esquerda não poderia formar um governo sem se aliar com os centristas de Monti.

"Paradoxalmente, Monti se beneficia da campanha de Berlusconi", disse Stefano Folli, um comentarista político de Il Sole 24 Ore, um jornal de negócios diário.

Muitos italianos dizem que não têm ideia sobre como vão votar no próximo mês. Ludovico Purgatori, de 20 anos, um estudante de cinema em Roma, disse que Berlusconi tinha "perdido toda credibilidade", mas não estava certo se Monti era "crível como político". Grillo, disse ele, era "o mais perigosos de todos eles. Tudo que ele sabe fazer é gritar e criticar". "Gostaria de ver mais políticos jovens e menos dinossauros", acrescentou. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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