Imagem Mac Margolis
Colunista
Mac Margolis
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A volta de Honduras

No próximo domingo, os eleitores de Honduras irão às urnas. Aqueles que gostam de arroubos ideológicos e partidarismo febril estão bem servidos. Dos quatro candidatos a presidente, dois têm chances reais de vencer: o ultraconservador Juan Orlando Hernández e a socialista abrasada Xiomara Castro. Ambos juram, ao seu modo, refundar o país. Mas, parar de afundá-lo, já seria um trunfo.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2013 | 02h05

Em uma região de portentos, pesa pouco essa pequena nação com 8 milhões de habitantes que tem o PIB do Espírito Santo. No entanto, Honduras é vitrine para um canto particular do inferno latino-americano que há anos consome vidas, fortunas e sonhos. A sucessão presidencial tem elo estreito com o destino do marco civilizatório nesse flanco das Américas, onde a democracia é minada diariamente por bandidagem transnacional, política fratricida e anemia institucional.

Há quatro anos, Honduras estava em polvorosa. O presidente da época, Manuel Zelaya, destituído pela Suprema Corte, fora preso em casa por militares e posto de pijama em um avião, com passagem só de ida para a Costa Rica.

Seguiram-se sete meses de caos, marcados por confrontos violentos nas ruas, crise diplomática pelas Américas e o retorno na moita de Zelaya para agitar sua volta ao poder. Não conseguiu, mas passou meses aos uivos, sob a guarida da diplomacia brasileira, que lhe deu abrigo e palanque na sua embaixada em Tegucigalpa.

Zelaya se disse vítima de um golpe. Seus desafetos negaram. Golpista, para eles, foi o próprio presidente, que baixou o espírito bolivariano do ex-comandante Hugo Chávez e convocou um plebiscito ilegal, com intenção de concorrer à reeleição, vetada pela Constituição.

Os juristas esmiúçam até hoje esses sete meses de discórdia em Honduras, que alguns viram como quebra da ordem democrática e outros, como zelo constitucional. Vale ressaltar que a Carta hondurenha tem apenas três cláusulas pétreas, que nem a legislação ordinária e muito menos o poder Executivo pode mexer: as fronteiras geográficas do país, a forma republicana do governo e a duração do mandato presidencial. Também vale lembrar que qualquer país que remove seu presidente eleito a ponta de fuzil, para enviá-lo ao exílio, dificilmente se credencia como uma democracia constitucional.

Agora, os constitucionalistas curvam-se aos palanques e todos prendem a respiração. Embora as pesquisas apontem um empate técnico, com 27% das intenções de voto para Xiomara e 28% para Hernández, é ela que desponta como ligeira favorita na campanha.

A seu favor estão a desordem galopante no país, com a pior taxa de homicídios no mundo (86 assassinatos por cada 100 mil habitantes) e o fato de ela ser esposa de Zelaya, ainda visto por muitos como um mártir político. De quebra, ela ganhou o endosso do ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, o novo cabo eleitoral dos candidatos da esquerda latina.

Como ela pretende conduzir o país descarrilado ainda é um mistério. Será ela um cavalo de Troia para seu marido e sua versão hondurenha do chavismo, com confisco de empresas privadas e calote da dívida?

De fato, Xiomara mostra sinais de temperança. Seu braço direito, Hugo Pino, é um respeitado ex-ministro da Fazenda de perfil moderado. Ciente da pane econômica em curso (rombo fiscal de 6%), ela já acenou para um possível acordo com o Fundo Monetário Internacional, o bicho-papão da esquerda.

Combater a onda de violência que avança sobre o país é um desafio ainda maior. No palanque, ela culpa o governo de Porfírio Lobo, que não conseguiu estancar a sangria. Em terra firme, ela sabe que Honduras é destino predileto de criminosos transnacionais, que, para fugir da cerca mexicana contra o narcotráfico, migram para o istmo centro-americano.

Em Honduras, eles encontram instituições débeis, corrupção política e conivência policial - a tempestade perfeita para o crime que nenhum governo nacional sozinho dá conta. Seja quem for o vencedor no domingo, a lua de mel do próximo presidente hondurenho será breve.

É COLUNISTA DO 'ESTADO',

CORRESPONDENTE DO SITE

THE DAILY BEAST E EDITA O SITE

WWW.BRAZILINFOCUS.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.