A volta de um velho rei a um país devastado

O rei do Afeganistão, Zaher Shah, está de volta a Cabul. Termina assim para o monarca afegão um exílio de 23 anos em Roma. Durante esse tempo, o velho reino onde imperava a felicidade transformou-se em um verdadeiro inferno. Primeiro, os soviéticos invadiram o país; depois, veio o Taleban com seu regime de terror; e por fim, a guerra contra Bin Laden.Não é hora ainda de fazer prognósticos. Contudo, o velho rei, embora não tenha partilhado no exílio em Roma do suplício de seus súditos, conserva uma imensa popularidade. Muitos afegãos acham que esse pashtun (que, curiosamente, não fala o idioma de sua gente) é o único homem com autoridade suficiente para pacificar e unificar um país fragmentado por um mosaico de etnias (pashtuns, tajiques, usbeques, etc.) e pelos "senhores da guerra".A população, que tanto esperou por esse retorno e pelo próximo Loya Jirga (Grande Conselho), aclamará satisfeita Zaher Shah em plebiscito. Já os políticos se mostram mais reticentes.É um retorno arriscado, já que além das rivalidades internas, o Afeganistão sofre também as conseqüências de uma outra praga: as feridas ainda abertas da guerra recente e a presença insistente e atuante da Al-Qaeda.As informações fornecidas pelos americanos são escassas e confusas.Vigora uma paz frágil no país. Os combates prosseguem no leste do Afeganistão contra a Al-Qaeda e o Taleban. Há um mês, os EUA lançavam uma ofensiva decisiva contra a região. Como resultado da campanha, 18 americanos perderam a vida em uma emboscada.Um pouco antes, os EUA concluíam a operação Anaconda, que teria eliminado os últimos elementos da Al-Qaeda. Setecentos talebans morreram na ocasião. Atônitos, os jornalistas exigiram provas, e o que lhes mostraram foram três sepulturas. Hoje, até mesmo os americanos reconhecem que a terrível ofensiva contra as cavernas incrustadas nas montanhas de Tora Bora, onde se escondiam os membros da Al-Qaeda, fracassou.Quanto a Bin Laden, sua morte anunciada já por dez vezes, é cada vez menos provável. É verdade que há poucas semanas um míssil atingiu três homens, um dos quais teria sido imediatamente identificado como Bin Laden, já que era muito alto. Os três homens ficaram carbonizados, e o suspeito de ser o líder terrorista era simplesmente um camponês.O Afeganistão é uma nave sem piloto. Seu líder interino, também pashtun, veste-se com apuro, já sua autoridade é nula até mesmo dentro do governo. Aliás, ele estaria mais seguro fora do que dentro do país.Só a capital, Cabul, ostenta uma aparência de ordem. Em todos os outros lugares, o que se vê são facções locais, quadrilhas, dissidentes, senhores da guerra, islâmicos e territórios sem lei.Não há nenhum projeto para a formação de um exército profissional em meio a todos esses grupos conflitantes. Se o governo interino quiser que sua autoridade se estenda para além de Cabul, será preciso arregimentar uma força de ataque de 70 mil homens.Não há como financiar isso. As doações da comunidade internacional têm como objetivo a reconstrução do país, jamais sua segurança. Evidentemente o processo de reconstrução será dispendioso. As primeiras avaliações dos estragos causados pelos foguetes americanos já estão em andamento, embora de modo ainda bastante precário.As perdas civis são impressionantes. Eles continuam e continuarão a morrer porque os aviões americanos despejaram milhares de bombas de fragmentação, isto é, grandes bombas repletas de 200 pequenas bombas do tamanho de uma garrafa de Coca-Cola. Acontece que muitas dessas bombas menores ainda não explodiram. Acredita-se que existam 36 mil unidades espalhadas pelo território afegão prontas para explodir.Esse tipo de informação já começa a abalar certos segmentos da opinião pública americana que, sem querer julgar o acerto da operação desencadeada em resposta aos atentados perpetrados pela Al-Qaeda, lamenta a agressividade da estratégia americana.Alguns políticos vão ainda mais longe. O deputado democrata Dennis Kucinich se pergunta se foi correto vingar o sangue dos inocentes mortos nas torres gêmeas de Nova York com o sangue dos camponeses afegãos, também eles inocentes. Infelizmente, este é o quadro que Zaher Shah tem à sua frente. O rei, por outro lado, já não é jovem, uma vez que governou o país de 1933 a 1973.

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