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A volta do fundamentalismo e o silêncio da arte

O retorno do Taleban ao poder no Afeganistão ameaça a música, o jornalismo independente e o entretenimento

Claudia Trevisan, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 05h00

Mohamed Salman é um dos milhares de afegãos que acreditaram na ilusão vendida pelos americanos de que seu país poderia ter uma sociedade mais democrática, inclusiva e tolerante. Fã dos Beatles e de Bob Dylan, ele me disse, em 2014, que sonhava em compor músicas que congregassem ritmos tradicionais do Afeganistão à batida pop. 

Com a volta do Taleban ao poder, a própria existência da música no cotidiano da população está ameaçada. Em cidades capturadas pelo grupo islâmico antes de Cabul, as rádios foram proibidas de transmitir ritmos sonoros, em um retorno ao silêncio musical que imperou no país de 1996 a 2001, os anos em que o Taleban ficou no poder.

Eu passei duas semanas no Afeganistão em setembro de 2014, como enviada do Estadão. Em maio, o então presidente dos EUA, Barack Obama, havia anunciado a intenção de concluir as ações de combate das tropas americanas do país no fim daquele ano. Os soldados remanescentes teriam apenas função de aconselhamento das Forças Armadas afegãs.

Como Salman, milhares de habitantes das cidades, em particular a capital, abraçaram a amplitude de movimento trazida por instituições transplantadas dos EUA: cotas para mulheres no Parlamento, divórcio, Judiciário (em tese) independente, direitos humanos e (relativa) liberdade de expressão, para mencionar algumas. 

Com o retorno do Taleban, eles correm o risco de se tornarem alvo de um fundamentalismo islâmico que rejeita o estilo de vida urbano adotado por muitos dos moradores de Cabul e das grandes cidades do país. Diante dessa perspectiva, é possível compreender o desespero dos que tentavam embarcar em aviões no aeroporto da capital e a decepção dos que se consideram traídos pelos EUA e seus aliados.

Em entrevista ao podcast do New York Times, uma jornalista afegã identificada apenas pela inicial “R” relatou aos prantos seu sentimento de devastação ao ver a ausência de reação internacional ao avanço do Taleban. “O mundo todo está assistindo isso acontecer.”

A mulheres são de longe o grupo que mais tem a perder com o retorno do fundamentalismo islâmico. Quando estive na Universidade de Cabul, entrevistei cinco estudantes do sexo feminino. Todas usavam véus e roupas longas e de mangas compridas, o que representava um avanço em relação à burca que imperava no período do Taleban e deverá retornar juntamente com o grupo. Reportagem da Bloomberg relatou que lojas de burcas ao redor do país estão vendo um influxo de novos clientes.   

Manizha Zahary tinha 18 anos na época, estudava jornalismo e queria escrever livros que inspirassem as mulheres afegãs a serem bem-sucedidas. Matriculada no curso de literatura turca, Feiroze Iskhalas se considerava privilegiada. Segundo a estudante, a realidade das mulheres nas zonas rurais do Afeganistão era bem distinta da vivida por ela na Universidade de Cabul. Muitas eram sujeitas à violência familiar e podiam ser queimadas, espancadas ou mortas em crimes de honra.

Uma de minhas visitas em Cabul foi a um abrigo de mulheres que fugiam de seus maridos, pais ou irmãos. De lá, muitas das que eram casadas tentavam obter o divórcio, direito que passou a ser exercido com mais frequência depois da queda do Taleban, mas que continuava marcado pelo tabu. É difícil imaginar a sobrevivência do abrigo com o retorno do grupo ao poder.

Jornalistas e trabalhadores da indústria de informação e entretenimento se tornaram vulneráveis com a volta do Taleban. Durante o governo de 1996 a 2001, os afegãos tinham acesso a uma única estação de rádio, na qual música era inexistente. A televisão era estritamente proibida.

Nos 20 anos desde a invasão americana, o número de emissoras de rádio e de TV, jornais e plataformas na internet explodiu. De acordo com dados de 2019, só em Cabul havia 96 canais de televisão nacionais e internacionais, 65 estações de rádio e 911 publicações impressas. A líder em audiência na telinha é a Tolo TV, que pertence ao Moby Group, criado em 2002 pelo empresário afegão-australiano Saad Mohseni. Filho de um diplomata, ele integrou o movimento de afegãos que retornaram ao país para participar do esforço de reconstrução depois da queda do Taleban.

Em 2014, estive na sede da Tolo e entrevistei seu diretor, Massood Sanjer, que havia sido locutor do Voice of Sharia, programa em inglês criado pelo Taleban como uma versão local do Voice of America. Sob seu comando, a emissora testava os limites do conservadorismo islâmico com a transmissão de novelas turcas e indianas nas quais mulheres apareciam sem véu e com roupas que revelavam mais curvas que o aceito nas ruas de Cabul.

Também conversei com Lotfullah Najafizada, diretor da Tolo News, o canal de notícias do grupo. “A televisão está mudando o país de várias maneiras, fazendo com que as pessoas pensem além dos limites tradicionais da geografia, família e etnia”, disse Najafizada, na época. 

Ontem, quem visitou a Tolo News foram representantes do Taleban, de acordo com um post da emissora retuitado por Najafizada. “O Taleban entrou no complexo da Tolo News em Cabul, conferiu as armas dos seguranças, recolheu armas distribuídas pelo governo e concordou e manter o complexo em segurança”, dizia o texto.

A conta no Twitter da Tolo News permaneceu ativa durante o dia 16, mas não está claro o que acontecerá com sua programação nem com o restante das emissoras controladas pelo Moby Group.

Em entrevista à BBC concedida em um estúdio na Inglaterra, Saad Mohseni, fundador do Moby Group, disse “suspeitar” que as transmissões de suas emissoras não continuarão sob o Taleban, em particular as de entretenimento.

Na semana passada, tentei entrar em contato com Salman, o fã dos Beatles, por telefone e pelo Facebook, sem sucesso. Sua última passagem pela rede social ocorreu no dia 19 de julho, dia de seu aniversário. Mas continua lá o lema que ele próprio criou e indica o contraste entre sua irreverência e a rigidez do Taleban: “Não seja tão desesperançado, pelo menos você tem o seu dedo do meio”.

É JORNALISTA, EX-CORRESPONDENTE DO ‘ESTADÃO’ NOS EUA E NA CHINA 

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