AFP PHOTO /John MACDOUGALL
AFP PHOTO /John MACDOUGALL

A volta do nazismo ao Exército alemão

Governo da Alemanha entra em alerta para casos de extremistas infiltrados entre soldados

Jami Chade, Enviado Especial / Berlim, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2017 | 05h30

BERLIM - Philipp Liesenhoff serviu no Exército alemão entre 2006 e 2007. Era um soldado das Forças Especiais, uma unidade da Infantaria de Montanha. Ali, usando as mesmas casernas da 2.ª Guerra, presenciou incontáveis atos de apologia ao nazismo. As referências à Wehrmacht eram comuns. “Estávamos nas mesmas cidades e, em vários locais, nas mesmas estruturas usadas nos anos 30”, disse ao Estado

Gilles Lapouge: Direita sobe na Áustria

Liesenhoff deixou o Exército há quase dez anos e hoje é um pesquisador do German Marshall Fund, centro de pesquisa euro-americano. O que mais o espantava não era a reverência de seus pares à era nazista, mas a naturalidade da presença de símbolos nazistas entre seus companheiros.

“Nas casernas, lojas vendiam adesivos e chaveiros com frases da era nazista”, contou. Soldados ainda usavam camisas com frases escritas com tipologia característica do regime de Hitler, enquanto produtos eram oferecidos com um dos slogans do Exército nazista: “Não se queixe, lute”.“Se olhássemos de forma superficial, diria que os elementos de extrema direita eram normais naquele local”, diz Liesenhoff.

Segundo um relatório do Ministério da Defesa, de setembro, a situação parece ter se agravado. O governo admitiu que analisou 391 casos suspeitos de infiltração de extremistas nas casernas nos últimos anos. Autoridades em Berlim reconhecem o desafio de lidar com neonazistas dentro do Exército alemão. 

Nas últimas eleições, em 24 de setembro, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) teve 12,6% dos votos e tornou-se a terceira bancada da Câmara Baixa, o Bundestag, com 94 parlamentares. Em abril, o caso ganhou contornos de conspiração. A polícia descobriu que um tenente do Exército se passava por refugiado sírio. O homem, identificado como Franco Albrecht, conseguiu asilo e ajuda financeira. Foi preso pela polícia dias antes de executar um atentado, justamente contra imigrantes sírios. A imprensa revelou que ele já reverenciava símbolos nazistas desde 2014. A ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, disse que houve uma “falha grave das Forças Armadas da Alemanha”.

A imprensa revelou ao menos uma dúzia de casos de extremistas nas Forças Armadas. Também informou que alguns dos incidentes eram conhecidos. A falta de ação de Berlim foi questionada pelo comissário militar, Hans-Peter Bartels. “Fazer a saudação a Hitler não é uma questão de gosto”, disse Bartels, uma espécie de ombudsman das Forças Armadas. “Soldados devem defender a democracia.”

A real dimensão do problema ainda é uma incógnita. Em um dos relatórios de Bartels, de janeiro, há investigações sobre redes sociais e até grupos de WhatsApp de militares. Num dos casos, um recruta compartilhou uma imagem com cerca de 40 pessoas que mostrava um soldado da SS e uma frase: “Juventude alemã adere voluntariamente à SS”. “O recruta foi exonerado e recebeu uma multa”, diz o informe, obtido pelo Estado

O depoimento de Liesenhoff mostra que a leniência dos superiores contribui para esse tipo de comportamento. Entre os colegas de Exército dele, pelo menos quatro eram identificados como tendo tendências de extrema direita. “Um deles era um dos meus superiores”, afirma Liesenhoff. Esse chefe, segundo ele, ouvia músicas de bandas neonazistas. 

Para Liesenhoff, existia uma falta generalizada de educação política entre os soldados. Ele diz que, quando havia algum tipo de questionamento sobre a simpatia aos nazistas, o comando alegava que os elementos herdados do período de Hitler se limitavam aos valores da disciplina e técnica, que não havia uma ligação ideológica. 

A explicação para o fenômeno tem raízes históricas. Com 178 mil homens, o Exército alemão foi criado dez anos após a 2.ª Guerra. Sem homens suficientes para formar novos batalhões, as Forças Armadas aceitaram que oficiais e soldados que haviam lutado por Hitler integrassem o Exército. 

Fontes do governo alemão afirmam que o fim do serviço militar obrigatório, em 2011, foi fundamental para o crescimento de facções extremistas no Exército. “Isso abre caminho para grupos altamente motivados ideologicamente”, disse ao New York Times Michael Wolffsohn, professor de história da Universidade das Forças Armadas da Alemanha, em Munique. “Temos de nos perguntar se podemos nos dar ao luxo de deixar aberto o caminho para extremistas. Não apenas de direita. Mas islâmicos e também de esquerda”, alertou.

Hoje, Liesenhoff trabalha para o Conselho Alemão para Relações Exteriores e teme que o problema cresça nos próximos anos. “Com o fim do serviço obrigatório, os voluntários frequentemente vêm de fraternidades nacionalistas e conservadoras, mais suscetíveis à ideologia do AfD, principalmente na Alemanha Oriental, de onde muitos dos soldados chegam”, disse. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.