Abaixo os protestos simples

Na Primavera Árabe, era o povo contra o ditador; no caso de Venezuela, Ucrânia e Turquia há elementos autoritários que as tornam democracias híbridas

CHRISTIAN CARYL, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2014 | 02h05

Nos dias da Primavera Árabe, os otimistas previam um futuro auspicioso para os levantes democráticos em todo o mundo. Mas em lugares como Ucrânia, Venezuela, Turquia e Tailândia a realidade é muito mais complexa.

A Ucrânia não é o único país onde os manifestantes travaram verdadeiras batalhas contra o governo. Na Venezuela, 28 pessoas foram mortas durante semanas de grandes manifestações contra o governo do presidente Nicolás Maduro. Na Turquia, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, que sobreviveu a meses de intenso descontentamento popular, luta para preservar sua vida política. E embora o líder dos protestos na Tailândia tenha decidido acabar com o bloqueio armado pelos seus partidários em Bangcoc, o confronto final está longe do fim.

De algum modo, todas estas rebeliões parecem extensões da Primavera Árabe que começou há três anos. Os mesmos motivos que levaram os manifestantes para a Praça Tahrir e para as ruas de Túnis e de Trípoli continuam preponderantes. Cidadãos irados revoltam-se contra a corrupção, a péssima gestão da economia, e os abusos autoritários - os mesmos fatores que também deram origem a poderosos protestos no ano passado em países tão diferentes quanto Brasil, Camboja e Bulgária. Poderíamos incluir os importantes comícios realizados pela oposição em grandes cidades de toda a Rússia em 2012 - ou talvez o surpreendente movimento pelo poder popular que na Bósnia mês passado.

Estamos testemunhando o "efeito dominó" tantas vezes previsto´? É o florescimento de uma nova era de reivindicações pela responsabilidade democrática? É possível. A velocidade com que as informações correm mundo indubitavelmente contribui para inspirar as massas: quando vemos grandes multidões no noticiário da noite gritando slogans contra seu próprio governo, nossa primeira reação é: "Por que nós não podemos fazer a mesma coisa aqui?"

Olhando mais de perto, logo fica evidente que existe um enorme fosso entre as revoluções potenciais de hoje e as que ocorreram durante a Primavera Árabe. A principal diferença diz respeito à natureza dos regimes que os movimentos de oposição tentam combater. A população no Egito, na Líbia e na Tunísia estava se opondo a ditadores que se mantinham há muito tempo no poder. Manifestantes na Turquia, Tailândia e Venezuela lutam contra líderes eleitos que ainda têm o apoio de grandes segmentos. E é o que ocorre na Ucrânia também.

A corrupção é um dos principais elementos na incessante batalha política que se trava na Turquia. Gravações e documentos que implicam o primeiro-ministro Erdogan em várias formas de abusos inspiraram uma nova rodada de protestos. O primeiro-ministro (que nega as acusações) promete contra-atacar. Recentemente, ele começou a falar em proibir o Facebook e o YouTube. O movimento de protesto turco começou no ano passado com uma série de decisões oficiais tirânicas, que levou grande parte da população a acusar Erdogan de adotar um comportamento cada vez mais ditatorial. O maior problema prático com o qual o movimento de oposição turco se defronta é sua profunda fragmentação: nenhum partido ou grupo teria condições de constituir uma força aglutinadora. O primeiro-ministro ainda dispõe do apoio do seu Partido Islamista AK, uma máquina política bem organizada com forte respaldo popular. Não surpreende que o desafio mais efetivo ao poder de Erdogan venha agora não dos manifestantes, mas de obscuros rivais islamistas no governo.

Na Venezuela, os manifestantes enfrentam um governo que sobreviveu por pouco à forte votação recebida pelo líder da oposição Henrique Capriles na eleição geral do ano passado. O descontentamento por escassez de produtos, taxas vertiginosas de criminalidade e elevada inflação não afetou, aparentemente, o apoio das bases ao presidente Maduro entre seus partidários nas favelas e nas comunidades rurais pobres. Aqui, como nos outros países, os manifestantes enfrentam a nada invejável tarefa de desalojar um líder que pode exigir um certo grau de legitimidade. Mas o número crescente de vítimas entre os manifestantes venezuelanos deveria ser um motivo muito forte para Maduro parar. O exemplo da Ucrânia mostra com que rapidez um mandato popular pode evaporar quando um líder dá a ordem de dispersar seus críticos pela força.

O ex-presidente Yanukovich indubitavelmente tornou a vida mais fácil para os críticos com sua corrupção escancarada e seus esforços óbvios para acumular poder em suas próprias mãos. Mesmo assim, o fato de a "revolução democrática" ter vencido em Kiev ainda mostra as complicações que podem surgir. A maior parte dos postos-chave no novo governo provisório foi para o partido da ex-líder da oposição Yulia Tymoshenko, cujo passado político (e riqueza questionável) a tornou consideravelmente impopular entre os manifestantes da Praça da Independência de Kiev. Essas divisões na oposição poderão tornar o governo instável durante os próximos meses.

Do mesmo modo, um Parlamento sem representação, convocado depois que muitos partidários de Yanukovich fugiram, aprovou rapidamente leis (sobre a língua e outras questões) calculadas para afastar os eleitores cativos de Yanukovich no leste, onde predomina o russo. Os russos talvez tenham aproveitado a oportunidade para se apoderar da Crimeia - mas o fato de os revolucionários não terem sabido conduzir a nova situação favoreceu o jogo de Moscou.

Quando os manifestantes que tomam as ruas têm o direito de derrubar um governo democraticamente eleito - e quando não? Em que altura um líder eleito dilapida - por corrupção, incompetência ou excessos de autoritarismo - a legitimidade que lhe foi conferida pelos votos? Quando os conflitos entre classes ou facções políticas ultrapassam os limites da saudável competição política inerente às democracias?

Até certo ponto, o fato de precisarmos levantar essas questões reflete uma era em que muitas sociedades não são ditaduras claramente definidas nem claramente democracias liberais, mas algo intermediário: "democracias não liberais" ou "regimes híbridos" que combinam as armadilhas da democracia com mecanismos autoritários. Foi relativamente fácil tomar partido na Primavera Árabe, que oferecia uma disposição de forças relativamente clara: ditadores contra manifestantes. A julgar por algumas dessas histórias mais recentes, não devemos esperar que as coisas sejam assim tão simples. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

CHRISTIAN CARYL É PESQUISADOR DO LEGATUM INSTITUTE E AUTOR DO LIVRO 'STRANGE REBELS: 1979 AND THE BIRTH OF THE 21ST CENTURY'

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