Abalado pelos valores da CIA

EUA toleram a morte de inocentes, desde que aquele que tenha cometido a atrocidade mantenha o zíper fechado

DAVID ROTHKOPF, FOREIGN POLICY, É ANALISTA DO CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2012 | 02h05

James Bond é claramente um sociopata. Ele dispõe da vida humana e da propriedade com a maior desenvoltura e consome mulheres como se fossem batatinhas fritas. Evidentemente, como ele faz tudo isso ao serviço da rainha, nós perdoamos o seu menosprezo pela maioria dos valores que costumamos defender. E como ele o faz com certa distinção, ternos impecáveis e frases bem construídas para cada tiro mortal, durante 50 anos, ele tem sido um daqueles personagens emblemáticos que os homens gostariam de ser e com os quais as mulheres adorariam ter um caso.

Também no último episódio da saga Bond, Operação Skyfall, lançado nos Estados Unidos na semana passada, Daniel Craig, cujo Bond constitui a melhor de todas as suas encarnações, mais cheia de nuances do superespião de Ian Fleming, mostra o seu lado humano, não tanto revelando uma consciência ou escrúpulos em relação ao que faz, mas parecendo cansado do caos que tem de provocar e suportar. Tudo bem, no que nos diz respeito. O filme já faturou mais de US$ 500 milhões em todo o mundo e deverá estabelecer recordes para a série.

A pergunta é: nós amamos Bond em razão de seu iate e de seu movimentado estilo de vida ao redor do mundo graças ao seu superautomóvel (ele parece ser o único capaz de descobrir cassinos glamorosos e não lotados de velhos perdedores gordos que jogam nos caça-níqueis) ou porque ele é realmente capaz de destruir todas aquelas coisas sem precisar pagar um centavo?

Parece um ideal escapista, um universo paralelo em que a moral foi suspensa, salvo pelas coisas que não impedem o divertimento e uma boa história. De fato, o patriotismo enobrecedor é lindo, porque concede o passe livre que, no fim, é a licença de Bond para matar e destruir trens de passageiros com uma retroescavadeira. É absurdo. Ficção. Por isso, é claro, a única coisa mais absurda é a vida real.

Petraeus. Isso ficou claro quando, em um tour de force de marketing cinematográfico que superou até mesmo a acrobacia desse verão em que Bond e a rainha, aparentemente, entravam no Estádio Olímpico de Londres de paraquedas, o chefe dos espiões de verdade dos Estados Unidos chegou às manchetes com seu próprio comportamento à la James Bond.

David Petraeus, um dos generais americanos mais badalados depois da 2ª Guerra, deixou o cargo mais alto da CIA porque, como todo mundo agora sabe, teve um caso com sua glamorosa biógrafa. O glamour é relativo. Entretanto, o parâmetro estabelecido pela maioria dos biógrafos é bastante baixo e, a amante de Petraeus, Paula Broadwell, tinha braços bem torneados, de acordo com as avaliações de todas as mulheres com quem falei a esse respeito. Alegando seus princípios pessoais, Petraeus deixou o cargo para não desonrá-lo ainda mais.

Muitas pessoas que conheço e prezo consideram Petraeus um sujeito inteligente, capaz e extremamente admirável. No entanto, a ideia de que a violação dos "princípios" de alguma pessoa o levou a renunciar ao cargo é risível. Além disso, a ideia de que um caso amoroso envolvendo o diretor da CIA desencadearia um escândalo nacional quando as atividades diárias da agência não o fazem, é risível e beira o ofensivo.

O que esteve em jogo no caso foi o pedantismo, não os valores. Como outros enfatizaram, muitos predecessores de Petraeus tiveram casos, assim como muitos dos seus chefes e colegas na Casa Branca, no Capitólio ou em outros postos da vida pública. O fato de periodicamente, como no caso de Petraeus, ou antes disso, Bill Clinton, alguns desses pecadilhos pessoais desencadearem escândalos, e muitos outros não, é um sinal de que, neste caso, ocorre algo que não se refere à aplicação dos valores nacionais.

Contudo, o fato de que recentemente a série de figuras públicas cujas carreiras se encerraram por causa de um comportamento sexual indecoroso é tão longa, como a de John Edwards, é causa de perplexidade e ridículo em outros países mundo afora, em que se cultiva o curioso conceito de que, quando o comportamento privado dos funcionários do governo não afeta o cumprimento de suas obrigações, deve permanecer privado.

Não é novidade que os EUA, há muito, tendem a se comportar de maneira diferente das outras nações. Sempre tivemos um traço puritano em nossas mentes, que transformamos num sinal de caráter nacional. No entanto, é um excepcionalismo americano de uma dimensão diferente que torna toda esta questão a respeito de Petraeus realmente vulgar, e não apenas ridícula.

O verdadeiro escândalo neste caso é que, quando o diretor da CIA dorme com alguém que não sua esposa, causa um escândalo nacional, mas quando a agência administra um programa de drones que viola a soberania de nações em todo o mundo, que ajuda a elaborar e depois executa "listas de assassinatos" que fazem as orgias de violência mais exageradas de James Bond parecerem uma festa de aniversário no jardim da infância, não causa escândalo algum.

Hollywood. Aparentemente, os nossos valores são ainda mais distorcidos do que os de Bond. Pelo menos, ele não é tão grotescamente hipócrita. Alguns de nós, há muito tempo, se sentem incomodados pelo fato de o Congresso achar apropriado declarar o impeachment de Bill Clinton por coisas triviais relacionadas a seus erros pessoais, mas jamais contestar George W. Bush por atos infaustos muito maiores e, provavelmente, crimes relacionados à invasão americana do Iraque.

Aparentemente, somos uma nação que pode tolerar a violação da lei, a morte de inocentes e a evidente má distribuição da riqueza nacional sem pestanejar, desde que os arquitetos desses erros grosseiros mantenham seus zíperes fechados.

Quem disse que Hollywood está destruindo os valores americanos? Ao que parece, estamos superando os maiores roteiristas do mundo nesse aspecto - e o fazemos sem o charme ou as frases concisas que nos permitem perdoar libertinos do cinema, como James Bond. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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