Pete Marovich/NYT
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Abandonar Trump? Nas profundezas do eleitorado republicano, a mentalidade do MAGA prevalece

Enquanto presidente se prepara para deixar a Casa Branca, suas ideias, incluindo as mentiras e teorias de conspiração, continuam a exercer forte atração gravitacional entre autoridades da base do partido

Lisa Lerer e Reid J. Epstein, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2021 | 04h00

No Condado de Cleveland, Oklahoma, o presidente do braço local do Partido Republicano questionou-se publicamente, “Por que a violência é inaceitável?”, poucas horas antes da multidão atacar o Capitólio dos Estados Unidos, semana passada.

“Que diabos você pensa que foi a revolução americana?”, postou ele no Facebook. “Brincadeira de criança?”

Dois dias depois, o presidente do Partido Republicano no Condado de Nye, em Nevada, postou uma mensagem repleta de teorias de conspiração no site da comunidade local, acusando o vice-presidente Mike Pence de traição e qualificando a insurreição como um “evento ensaiado, feito para culpar os apoiadores de Trump”.

E esta semana, em Virgínia, Amanda Chase, senadora estadual do Partido Republicano no segundo mandato que concorre ao governo do Estado, sustentou que Donald Trump ainda poderá tomar posse de um segundo mandato em 20 de janeiro e que os republicanos que bloquearem esse “plano alternativo” seriam punidos pelos apoiadores do presidente.

“Mitch McConnell está lá traindo o Partido Republicano”, afirmou em entrevista Amanda, que discursou no protesto de Washington semana passada. “A insurreição é, na verdade, o Estado paralelo, com os políticos trabalhando contra o povo para depor nosso governo.”

Enquanto Trump se prepara para deixar a Casa Branca e enfrenta um segundo julgamento de impeachment no Senado, suas ideias continuam a exercer uma forte atração entre republicanos de todo o país. As mentiras, o nacionalismo branco e as teorias de conspiração infundadas que ele apregoou por quatro anos se enraizaram entre a base do eleitorado, incorporados por ativistas, lideranças locais e autoridades eleitas, mesmo que alguns poucos republicanos no Congresso tenham rompido com o presidente nesta reta final.

Entrevistas com mais de 40 republicanos, lideranças estaduais e locais, realizadas após o cerco ao Capitólio mostram que uma parte vociferante do partido mantém uma devoção quase religiosa ao presidente, e esses apoiadores não o responsabilizam pela violência da multidão da semana passada. A oposição a Trump que emergiu entre alguns republicanos somente reforçou esse apoio.

E enquanto alguns líderes e estrategistas republicanos estão ávidos para rejeitar esses seguidores, denunciando-os como um elemento marginal de seu partido, muitos deles cumprem influentes funções nos níveis estadual e local. Essas autoridades locais não são apenas os canais de ligação entre os eleitores e os republicanos do nível federal: são também a próxima geração do partido a tentar se eleger para os níveis superiores do poder, e levariam consigo sua devoção ao trumpismo caso ascendessem a Washington.

O contínuo apoio a Trump deverá mantê-lo influente ainda por muito tempo após ele deixar a presidência. Isso poderia sabotar a habilidade do partido de se unificar e reformular sua pauta para atrair de volta eleitores moderados dos subúrbios, que desempenham um papel decisivo na conquista de disputas eleitorais nos Estados e nas eleições presidenciais.

Ao mesmo tempo, afastar-se do presidente poderia fazer o partido perder os eleitores que o apoiam - milhões de membros de uma nova classe trabalhadora, que ajudaram Trump a obter mais votos do que qualquer outro candidato presidencial republicano na história.

“A prioridade número 1 é manter os eleitores de Trump”, afirmou Harmeet Dhillon, integrante do Comitê Nacional Republicano na Califórnia. “Não há maneira de fazer isso com uma mudança súbita, rumando em outra direção. Os eleitores querem continuidade no partido, e que ele mantenha o curso atual.”

Uma pesquisa do instituto Axios-Ipsos publicada na quinta-feira mostrou que a maioria dos republicanos apoia o comportamento recente do presidente e afirma que ele deveria ser o candidato do Partido Republicano à presidência em 2024.

Alguns correligionários de Trump já ameaçam desafiar nas próximas primárias os republicanos tidos como insuficientemente leais ao presidente, e se opõem ferozmente a qualquer republicano que trabalhe com o governo de Biden. Com o banimento de Trump das principais redes sociais, os apoiadores do presidente estão imersos em meios de comunicação de direita, à espera de novas redes sociais conservadoras, que muitos afirmam estar em produção.

“O partido está definitivamente com Trump”, afirmou Debbie Dooley, ativista conservadora da Geórgia. “Vejo uma raiva, mas há nuances. Temos pessoas mais enfurecidas com esses republicanos que viraram as costas para Trump do que com os democratas."

Isso ficou evidente pouco após 10 republicanos se juntarem com os democratas em apoio ao impeachment de Trump, na quarta-feira. Horas após a votação, Drew McKissick, presidente do Partido Republicano na Carolina do Sul, soltou um comunicado atacando o deputado federal Tom Rice, republicano de seu Estado que apoiou o impeachment.

“Discordamos completamente dessa farsa, e dizer que estou severamente decepcionado com o congressista Tom Rice seria pouco”, afirmou McKissick.

Vários parlamentares republicanos também pediram para que a deputada federal Liz Cheney, do Wyoming, uma das principais vozes em defesa do impeachment, renuncie ao cargo de liderança que ocupa na bancada do partido.

Por anos, oponentes de Trump argumentaram que ele perderia apoio do partido no caso de um evento devastador - como agitação ou violência que chocassem o país. A invasão do Capitólio, semana passada, parece ter apresentado essa oportunidade aos republicanos que querem tirar o foco do partido das políticas de Trump e dispensar a linguagem polarizadora e as ações desagregadoras que marcaram seus quatro anos na presidência.

“Nessas condições, acho que há muito espaço para o Partido Republicano”, afirmou Juliana Bergeron, integrante do Comitê Nacional Republicano em New Hampshire. “Não tenho certeza se há espaço para o Partido Republicano de Donald Trump.”

Para muitas autoridades republicanas de base, o incidente no Capitólio não foi o ponto de inflexão que alguns republicanos de Washington pensaram que seria.

“Não, Trump não tem culpa nenhuma, mas os democratas têm, com certeza, junto com todos os republicanos que os seguem”, afirmou Billy Long, presidente do Partido Republicano no Condado de Bayfield, em Wisconsin, que disse planejar um rompimento com o Partido Republicano para lançar localmente um terceiro partido centrado em Trump. “O movimento Trump não acabou; como o próprio Trump falou, isso é só o começo.”

Em grande parte, eleitores republicanos também observaram uma grande distinção entre o presidente e os invasores do Capitólio - 80% afirmaram que não responsabilizam Trump pela insurreição, e 73% disseram que ele está protegendo a democracia, de acordo com pesquisa da Universidade Quinnipiac divulgada esta semana.

Mesmo em Estados de predominância democrata, líderes republicanos ainda se agarram às políticas hostis de Trump. No Senado Estadual de Nova Jersey, os republicanos ficaram divididos em relação a uma resolução que condenou Trump por incitar a multidão que atacou o Capitólio. A maioria dos republicanos resolveu se abster da votação, e muitos usaram seus discursos no plenário para tentar arrastar o debate para os protestos contra a injustiça racial ocorridos no verão e tiveram de ser repreendidos pelo presidente da Casa por desviar do assunto da sessão.

Mesmo se Trump desaparecer da política ao perder seu megafone nas redes sociais e seu púlpito intimidador, seus apoiadores afirmam que suas mensagens serão levadas adiante por um partido reformulado à sua imagem e com forte apoio estrutural em todos os níveis.

Desde a vitória de Trump, em 2016, 91 das 168 cadeiras do Comitê Nacional Republicano mudaram de dono, com praticamente todos os recém-chegados sendo eleitos por facções estaduais alinhadas com Trump.

O presidente foi inundado de elogios em uma reunião nacional do partido organizada dois dias após o cerco e foi aplaudido durante participação telefônica em um café da manhã do Comitê Nacional Republicano.

As frentes de batalha já estão sendo delineadas entre a ala Trump e aqueles que querem deixar o presidente no passado.

Esforços para desafiar republicanos eleitos nas próximas primárias já estão em andamento em vários Estados, encorajados por Trump. Na Geórgia, potenciais candidatos para as primárias estão se aproximando dos ativistas conservadores para desafiar o governador republicano do Estado, o vice-governador e o secretário de Estado. Outros alvos podem incluir o governador Mike DeWine, de Ohio, e os senadores Lisa Murkowski, do Alasca, e John Thune, da Dakota do Sul.

O cerco ao Capitólio, na semana passada, delineou uma divisão ainda mais clara no partido. Legisladores estaduais de mais de uma dezena de Estados compareceram ao protesto, e pelo menos um deles responderá a acusações criminais por invadir o Capitólio e participar da insurreição. Meshawn Maddock, uma ativista a caminho de se tornar a próxima copresidente do Partido Republicano em Michigan, ajudou a organizar ônibus que transportaram  apoiadores de Trump do seu Estado ao Capitólio. Nos dias seguintes ao distúrbio, ela se juntou a um grupo de conservadores online no qual alguns participantes discutiam abertamente a possibilidade de guerra civil ou lei marcial.

Muitos deles continuam a defender seu papel no evento.

“Aqueles que hoje dominam o Congresso olham para a maior parte do país com muito desdém. Trump nunca fez isso”, afirmou o deputado estadual David Eastman, do Alasca, que foi ao protesto. “Eu e quase 1 milhão de americanos ficamos felizes em viajar a Washington para ouvir o discurso do presidente e agradecê-lo por seus quatro anos no cargo. Aqueles que formam a classe dominante de hoje jamais entenderão verdadeiramente nossos motivos.”

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