Muhammed Muheisen/AP
Muhammed Muheisen/AP
Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Abbas, ex-agente da KGB?

Sendo, na época, a Organização de Libertação da Palestina (OLP) tão próxima da Rússia, por que Moscou precisaria de um agente infiltrado?

Gilles Lapouge*, O Estado de S. Paulo

10 de setembro de 2016 | 05h00

Vladimir Putin prossegue em sua ofensiva diplomática no Oriente Médio. Em poucos meses, deu passos de gigante. Valendo-se do desinteresse de Obama, ou talvez de seu torpor diplomático, já conseguiu reintroduzir a Rússia no centro do imbróglio montado em torno da Síria por Estado Islâmico, Turquia, Irã, França, Arábia Saudita e outros. Os Estados Unidos acompanham de boca aberta os lances do jogador Putin. Nem piscam.

Putin ataca com novos peões. Desta vez, entra no problema regional mais espinhoso: as relações entre Israel e os palestinos. Ele convenceu o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, a se encontrarem.

Mas, enquanto já se negocia a data da reunião, eis que uma informação é divulgada pela rádio oficial israelense: tempos atrás, em 1983, Abbas, que então se encontrava em Damasco, na Síria, era agente soviético. Tinha o codinome de Krotov, que significa “toupeira” – infiltrado, em gíria de espionagem.

Dois historiadores israelenses assinam a descoberta. Como chegaram a ela? Nos anos 1980, um arquivista da KGB, Vassili Mitrokhin, não estava gostando da linha seguida por Moscou. Então, copiou à mão documentos oficiais e pôs numa garrafa de leite, que enterrou no jardim.

Com a queda da Cortina de Ferro, Vassili desenterrou a garrafa e ofereceu seu tesouro à CIA, que fez pouco caso. Mas os britânicos gostaram. E entregaram todos os documentos à Universidade de Cambridge, que os divulga aos poucos. É uma descoberta séria?

Há algumas dúvidas. A começar pela história da garrafa de leite e documentos copiados à mão. Mais grave: nada foi dito sobre as circunstâncias do recrutamento de Abbas, nem que informações enviava a Moscou. Outra esquisitice: sendo, na época, a Organização de Libertação da Palestina (OLP) tão próxima da Rússia, por que Moscou precisaria de um agente infiltrado?

Mas há argumentos favoráveis à história. Por exemplo: é verdade que Mahmoud Abbas, nascido na Síria em 1935, estudou em Moscou após a criação do Estado de Israel (1948). E há, principalmente essa coincidência perturbadora: a informação surge precisamente no momento em que é anunciado, sob patrocínio de Moscou, o encontro entre Abbas e Netanyahu.

Em Ramallah, sede da Autoridade Palestina, os ânimos fervem. O porta-voz oficial diz que “essa nova campanha de calúnias israelense contra Mahmoud Abbas visa apenas a torpedear a iniciativa russa”.

Em Israel, os serviços de espionagem reagem filosofando: “Isso tudo é velho. Naquele tempo, os soviéticos recrutavam agentes em toda parte. Por que não entre os palestinos? São só histórias que não deveriam influir o que acontece hoje”.

Entre os palestinos, há quem acuse o governo israelense de estar “preparando a morte de Mahmoud Abbas, como liquidou Yasser Arafat”.

Mas há, no caso de essa novela se comprovar verdadeira, uma ironia: no momento em que o diplomata mais atuante da atualidade, e também o mais cínico, Vladimir Putin, organiza a volta da Rússia ao centro do conflito israelense-palestino, eis que seu sutil jogo de xadrez tropeça na memória da KGB soviética da qual Putin foi agente. E tudo porque outro funcionário da KGB, o obscuro Vassili Mitrokhin, decidiu, em 1989, desenterrar sua garrafa de leite. Ironia da história ou sua vingança? / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

Tudo o que sabemos sobre:
Mahmoud AbbasPalestina

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.