Abbas pedirá na ONU prazo para desocupação

Sob a sombra do conflito em Gaza e com atenção voltada para o EI, líder levará questão palestina ao palco internacional

RENATA TRANCHES , O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2014 | 02h03

Com o fim do conflito na Faixa de Gaza e a formação de uma coalizão internacional para combater o grupo radical Estado Islâmico (EI), o presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas, tentará voltar a atenção mundial para a causa palestina no discurso que fará na abertura da Assembleia-Geral da ONU, na semana que vem.

Abbas pedirá à ONU que estabeleça um prazo de três anos para o fim da ocupação israelense dos territórios conquistados em 1967 e para o reconhecimento da Palestina como membro pleno da organização.

Para o analista Barah Mikail, especialista em Oriente Médio da Fundação para as Relações Internacionais e Diálogo, Abbas joga também para a opinião pública palestina, que está na expectativa das eleições gerais do mês que vem, acertadas em acordo entre Hamas e Fatah, em abril.

Mikail considera que a comoção internacional causada pelo último conflito em Gaza - que terminou com a morte de 2.130 palestinos e 69 israelenses - dá peso à demanda de Abbas. Por outro lado, a ofensiva israelense resultou em mais apoio popular ao Hamas.

Caso as eleições ocorram, o presidente precisa garantir que o Fatah conquiste o máximo de cadeiras. "Insistindo na necessidade de se criar um Estado, Abbas diz aos palestinos que eles deveriam escolher o Fatah em vez do Hamas se quiserem contar com um defensor ativo da configuração desse Estado."

Chanceleres árabes comprometeram-se a apoiar uma resolução para levar o pedido de Abbas à votação. Boa parte dessas nações integram a coalizão internacional contra o EI liderada pelos EUA, que já adiantaram que se oporão à medida, como nos anos anteriores.

Os discursos do presidente Abbas na ONU têm se tornado importantes ferramentas diplomáticas para o líder, colocando a questão palestina sob os holofotes internacionais.

Em entrevista ao Estado, sem dar detalhes do discurso, o embaixador da Autoridade Palestina no Brasil, Ibrahim al-Zeben, disse que o mais importante é estabelecer um calendário que não passe de três anos para "por fim à ocupação do território palestino".

Na sua opinião, a falta de uma solução para a questão palestina é a causa mais importante de todos os conflitos no Oriente Médio e a comunidade internacional deveria tratá-la "com a mesma seriedade" com que vem lidando com a ameaça do EI. "Tem de fazer Israel cumprir o direito internacional e desocupar o território palestino."

No entanto, na visão do novo embaixador israelense no Brasil, Reda Mansour, as negociações entre Israel e palestinos é uma questão regional e a comunidade internacional lida com uma ameaça global neste momento, com o avanço do EI.

Para ele, o fato de os EUA buscarem apoio árabe para seu plano contra o EI não muda sua posição com relação ao pedido de Abbas. A coalizão integrada por países árabes tem apoio implícito de Israel, já que alguns países se recusam a fazer uma aliança oficial com os judeus. "Sentimos que essa é uma oportunidade de enfrentar um inimigo perigoso tanto para Israel como para outros países da região", afirmou Mansour ao Estado.

Para Israel, quando recorre à ONU, Abbas viola os pontos dos acordo de Oslo, de 1993, que estabeleceram que a criação de um Estado palestino deve resultar de negociações de paz diretas entre israelenses e palestinos e não de uma iniciativa unilateral, lembrou Mansour. "É como uma força estrangeira contra um vizinho. Não se estabelece confiança", disse.

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