Abbas Se apronta para a guerra

Líder palestino segue com sua estratégia de colocar a independência unilateral da Palestina em votação na ONU

Jackson Diehl, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2011 | 00h00

A diplomacia para o Oriente Médio está adquirindo um padrão familiar. Desesperado para dar início ao processo de paz, Barack Obama e seus aliados europeus pressionam o premiê israelense Binyamin Netanyahu, pedindo que ele ofereça concessões que sejam a base para as negociações com os palestinos.

Como antes, Netanyahu foi cauteloso e relutante. No entanto, pouca atenção é dada, como sempre, ao suposto parceiro do governo israelense, o líder palestino moderado, Mahmoud Abbas, que se recusa a fazer concessões, está virando as costas para os EUA e preparando metodicamente o cenário para um novo conflito.

Há duas semanas, Abbas implodiu quatro anos de construção institucional, paz relativa e prosperidade crescente patrocinados pelos EUA na Cisjordânia ao firmar um acordo de "reconciliação" com o Hamas que, provavelmente, o obrigará a demitir seu premiê progressista, libertar militantes radicais e unir suas forças de segurança ao Exército do Hamas equipado pelo Irã.

Na terça-feira, ele publicou um artigo no New York Times se comprometendo a tentar aprovar a independência da Palestina na Assembleia Geral da ONU, em setembro - uma declaração de guerra ao status quo. A votação, diz Abbas, "facilitará o caminho para fazermos demandas contra Israel na ONU, em organismos que tratam de direitos humanos e na Corte Internacional de Justiça".

O novo objetivo palestino será um em que Abbas e o Hamas concordem: não um tratado de paz que crie um Estado, mas a criação de um Estado seguida de negociações. "Um enfoque decisivo para alcançar uma solução justa para os refugiados palestinos" - cujo retorno significaria a extinção de Israel.

"A Palestina estaria negociando na posição de um membro da ONU cujo território está militarmente ocupado por outro", disse Abbas. Essa é uma fórmula para a guerra ou a "Terceira Intifada", como palestinos chamam. Obama e seus aliados parecem alarmados, mas sua principal reação até agora se resume à conclusão de que agora é, de fato, necessário pressionar Netanyahu.

Diplomatas europeus já deixaram claro o que isso significa: a menos que Netanyahu se engaje em negociações com Abbas até setembro, seus governos votarão pela criação da Palestina na ONU.

Embutida nessas exigências está uma leitura errada dos líderes árabes. Americanos e europeus engolem as garantias privadas que recebem de homens de terno falando inglês como Abbas, em vez de julgá-los por seu comportamento real. Até pouco tempo, o Ocidente achava que Bashar Assad, da Síria, era mesmo um reformador, mesmo quando ele manda matar seu próprio povo,

Obama dizer que "Abbas está pronto para fazer a paz". Ou seja, que o problema é Netanyahu. O histórico dos últimos anos sugere algo muito diferente. Em 2008, Abbas não aceitou uma oferta de paz do antecessor de Netanyahu, Ehud Olmert. Durante dois anos, ele se recusou a negociar, alegando a intransigência de Israel em expandir os assentamentos.

Agora Abbas tenta transformar a primavera árabe num movimento de massa contra Israel. É uma manobra que ele sabe que não trará a paz, mas o poupa, aos 76 anos, de arcar com a responsabilidade de fazer as concessões necessárias. Se for bem-sucedido, ele poderá desencadear uma nova intifada e uma nova guerra no Oriente Médio. Impedir isso requer uma ação americana urgente e concertada - e não um novo atrito com Israel. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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