Abdalla segue seu destino e foge da guerra pela 3ª vez

A guerra passou três vezes pela vida de Fuad Abdalla. A mais recente foi agora, há apenas três semanas. Sírio, casado com uma brasileira filha de libaneses, ele viu o pequeno bairro cristão de Alepo invadido - primeiro pelos rebeldes do Exército Sírio Livre (ESL) e, em seguida, pelas forças do regime de Bashar Assad. Fuad decidiu que não era preciso esperar o auge da crise para fazer as malas e fugir. Não para o Brasil, a direção que tomou há 38 anos. Mas para o Paraguai. Chegou a Assunção na noite de quinta-feira, depois de 28 horas tumultuadas de voo, três dias de viagem. À sua espera, havia uma loja, um sócio e amigos. Nem sempre foi assim.

ROBERTO GODOY, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2012 | 03h03

Em 1973, aos 24 anos, e depois de 36 rigorosos meses de serviço militar obrigatório, ele estava próximo da estrada para Damasco, trabalhando em um olivedo, espécie de sítio dedicado à produção de azeites finos. "A terra era da mesma família Salum havia três séculos", conta. Era a madrugada de um dia por volta de 20 de outubro. De repente, ronco de motores, ruídos metálicos e ordens gritadas encheram a noite. Um esquadrão de tanques pesados de Israel ocupara a propriedade e preparava uma base.

Fuad lembra dos soldados, todos muito jovens - "cheiravam mal e saiam aos montes de dentro dos blindados, grandes como casas". Sua farda da 1.ª Divisão de Artilharia síria foi encontrada no armário e ele acabou sendo preso - o único prisioneiro. Ficou detido cinco dias. Quando saiu, havia perdido o emprego: os tanques tinham arrasado as 400 oliveiras da propriedade, mais os estoques de óleo e as prensas. Fuad considerou então a possibilidade de imigrar para o Brasil, onde já vivia um irmão, Ibrahim.

Viagem ao Brasil. Em dezembro de 1974, em São Paulo, Abdalla rezava em uma cerimônia religiosa maronita dedicada a São Charbel. Vendia linhas, agulhas e aviamentos no Armarinho São Jorge, "uma porta só, no Bom Retiro, bem perto das oficinas de costura". Falava um português pedregoso, precisava da ajuda dos primos. A seu lado, na igreja, sentava a "professora de brasileiro", voluntária da paróquia.

Ele aprendeu depressa. Já dominava hebraico e russo. Casaram-se no ano seguinte. Em 1981, o casal resolveu mudar para o Líbano e ter filhos. Foram morar em Tiro, no litoral e próximo da fronteira com Israel. Mas estavam em Beirute, a capital, durante a invasão israelense a partir do sul, em 1982. "De novo os tanques, de novo o medo, de novo a vontade de ir para longe daquilo tudo" , relembra Fuad Abdalla. "Ficamos no meio das tropas e das falanges, mas os negócios eram uma surpresa, iam bem", conta.

A família não cresceu. Sem filhos e temendo a expansão da luta civil, ele a mulher entraram em movimento. Sem fechar a loja de tecidos e roupas, transferiram a residência para Alepo, centro econômico e financeiro da Síria. "É um lindo lugar que acabou", diz Abdalla, emocionado.

O ex-artilheiro aprendeu com a experiência de sobrevivente a identificar homens e armas. Há cinco dias, na véspera da partida rumo ao Paraguai, em longo e surpreendentemente claro contato por telefone, contou que o ESL utiliza os mesmos recursos dos insurgentes líbios - canhões montados sobre caminhões e picapes. "Mas parecem adaptados por gente que entende do assunto, são mais sólidos". "Os aviões que o governo emprega no ataque às posições rebeldes, são os caças grandes, precisam ir muito longe para fazer curvas, perdem os alvos". Os helicópteros, entretanto, Fuad compara com "máquinas de cortar grama, que fazem desaparecer tudo a sua frente".

Saída. Ele se define como "um comerciante sem política". Aos 63 anos, duvida que ainda volte a estabelecer-se no que chama de "nova Síria". Pode ocorrer? "Pode, tudo pode", afirma. Sua especialidade no comércio é o ramo das confecções e tecidos vendidos a metro. "Uma coisa necessária que aproxima as pessoas." Fuad sabe o que fala. Com base nisso, fez amigos na comunidade israelense. "Dinheiro é soma, é a saída."

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